domingo, 5 de abril de 2009

O QUE SE É E O QUE SE ESCREVE
>> Eduardo Loureiro Jr.

Que meus leitores não se decepcionem, -- embora seja unicamente este o motivo desta crônica: decepcioná-los --, mas uma coisa é o que se é; outra, o que se escreve. Ou, dizendo em bom português, não se pode deduzir um autor -- como pessoa -- por aquilo que ele escreve. Ou, sendo ainda mais explícito, meus textos não revelam completamente o Eduardo.

O que escrevo não é, na sua maior parte, o que sou. É um pouco do que sou, claro, mas um tanto do que fui e outro tanto do que serei. Também é o que nunca fui nem nunca serei. Ainda é o que quero ser. Ou mesmo aquilo que não me interessa ser na vida dita real, mas que é divertido ser na vida escrita.

Descobrir o que há de realmente real -- é necessário o pleonasmo -- pode ser uma tarefa estimulante de imaginação, um belo jogo intelectual ou intuitivo, mas não mais que isso. Para os que não me conhecem pessoalmente, há muita liberdade nessa imaginação de como é o Eduardo. Para os que me conhecem, há armadilhas. Quem conviveu comigo um único dia, por 24 horas seguidas, conhece mais da minha pessoa do que um leitor que nunca tenha me encontrado, mesmo que saiba de cor todos os meus textos.

O exemplo mais concreto que posso dar da ausência de identidade entre o que se é e o que se escreve foi o primeiro dia em que conheci Marisa, uma artista plástica cearense, infelizmente já falecida, que veio a ilustrar dois livros infantis meus. Marisa já conhecia meus textos, assim como os textos de meu caro amigo, e também escritor, Fabiano. Pois quando Marisa nos conheceu pessoalmente, e apenas com poucos minutos de conversa, ela falou uma das maiores verdades que já ouvi: os textos do Fabiano parecem escritos pelo Eduardo, e os textos do Eduardo parecem escritos pelo Fabiano. Numa só idéia, Marisa definiu, ao mesmo tempo, amizade e literatura. Ser amigo é ser outro. Escrever é ser outro si mesmo.

Então não creiam meus leitores naquilo que digo, conto, prometo... Ou creiam, se lhes apetece a aventura imaginativa. Mas não me venham confirmar o dito, checar o conto ou cobrar a promessa. A escrita é meu território de liberdade, o lugar onde honro o mistério de mim mesmo, onde me perco, me encontro, volto a perder-me.

A alguns, pode parecer que eu seja um farsante, um enganador. E talvez essa seja a verdade. Outros talvez percebam uma certa generosidade em me permitir não apenas ser, mas também não ser, publicamente, à vista de todos. E essa talvez também seja a verdade.

Apesar do que escrevi agora, sei que alguns de vocês ainda não se livrarão do velho vício de associar o escrito à pessoa. Alguns de vocês ainda hão de pensar que todos os textos que escrevi correspondem à minha verdade. E haverá ainda aqueles, talvez a maioria, que pense que esta crônica, que trata desse assunto, seja uma exceção à regra, que esta crônica, pelo menos esta, quem a escreve é mesmo o Eduardo em pessoa. Pois em verdade, em verdade, vos digo que nem mesmo esta crônica, esta mesmíssima, está livre da liberdade total que me dou quando escrevo. Ainda esta crônica é uma mistura do que sou e não sou, do que fui e serei, do que não quero e do que me permito.

Eu escrevo por minha conta e risco. E creio também que é por sua própria conta e risco que os leitores tiram suas conclusões.

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9 comentários:

Anônimo disse...

me permita acrescentar, caro Eduardo, que aquilo que reclama seu direito na escrita, deve ser entendido válido no real realmente... na escrita não acredito, mesmo não sendo os textos poéticos ou ficcionais, que alguém confunda o ESCRITO com A PESSOA. por outro lado, algo dela fica impresso, nem que seja no momemto em que, em ampla revolta berra: EU NÂO SOU NADA DO QUE ESCREVI! - há sempre um eu, enganado e enganador, disfarçado e farsante, inteiro e repartido. não julgo pessoas a partir do que escrevem (em alguns casos, as ideias talvez), e mesmo a partir do que fazem, não julgo fácil, nem mesmo ao cabo de 24 horas! ser pessoa é muito mais do que se vê, do que se vê fazer, mistério para o próprio, sim. Sobre outro assunto, se é cobrável ou não a palavra dita na pessoa primeira, a real, para uma outra... isso daria um outro texto, que deixo à sua criatividade, mestria e interesse criar. não conheço o eduardo nem o conheço através do que escreve. leio com gosto, eis tudo. (uma das qualidades que mais admiro, pois não é fácil, no escritor, é essa capacidade de ser "fingidor", isto é, OUTRO). a alteridade seria desejável no real, a um certo nível, favorável mais à compreensão e generosidade do que à mentira e ao "vale tudo", mas isso seria matéria para o tal texto que alguém já deve ter escrito.

Juliêta Barbosa disse...

Eduardo,

Fui aprisionada em um dicionário onde só existem “palavras caramelo”. A partir daí, pus em prática a atividade lúdica de manusear as letras do alfabeto do amor. Peguei-as, e com elas, criei as minhas contradições.
As minhas palavras se vestem de colombinas e saem por aí, dissimulando sonhos, ocultando desejos. Elas não me representam, são apenas uma pálida impressão da alegoria do meu viver.
Elas não têm peso, os sentimentos, sim. Com eles construímos castelos de ternura e delas temos que sobraçar o sentimento libertário, para que não saiam, por aí, contando mentiras de amor.
E por isso, 'eu acho' que entendo o seu texto, hoje.

C. S. Muhammad disse...

Eu, por exemplo, gosto muito do Eduardo que eu finjo conhecer, às vezes engraçado, às vezes saudoso, às vezes emburrado, que se dá ao trabalho de responder aos comentários dos seus leitores, enquanto viaja pelo mundo ou dentro de casa. O legal é que nós, leitores, somos livres para nos apropriamos de tudo o que você escreve ao nosso bel prazer.

Por falar nisso, agora vou ali tomar posse do texto do Leonardo - que ainda não li esta semana... :)

Anônimo disse...

Resolvi ler suas crônicas anteriores e conclui, por minha conta e risco, que as rabugices, indelicadezas(poucas,porém existentes), e a impaciência são FANTASIAS do escritor. A sua delicadeza, visão colorida da vida e das pessoas, afetuosidade, talento, isso sim, é TUDO VERDADE. E não adianta dizer que estou enganada porque também tenho direito as minhas ilusões.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Anônimo(a) 1, isso não é um comentário, é quase um tratado. :) Achei interessante você ter falado sobre um possível texto sobre promessas, porque era mesmo um texto paralelo, em minha mente, enquanto eu escrevia a crônica. No mais, é o que você disse mesmo. :)

Juliêta, gostei da distinção entre palavras e sentimentos. Eu deveria mesmo ter dito, em minha crônica, que, se alguém quer a verdade, deve ler não as palavras, mas os sentimentos. :)

Carla, por você ter me chamado de "emburrado", quase pensei em rever meu pensamento de que não possível conhecer inteiramente alguém através de seus escritos. Porque eu sou muito EMBURRADO, quando não BURRO mesmo. :) E está garantida a sua liberdade de usar o que que escrevo a seu bel prazer.

Anônimo(a) 2, se não adianta dizer, não vou dizer. :) Eu sei como é bom ter ilusões de vez em quando. :)

Anônimo disse...

Ai, não... emburrecido era para significar chateado, aborrecido, amuado, sei lá... "burro" nunca!

Carla

albir disse...

Porque livres, autor e leitor, vamos tecendo nossas amarras da maneira que entendemos e que nos dá prazer. Rico é o autor, e seu texto, com muitas passibilidades.
Abraço, Edu.

Carla Dias disse...

Concordo plenamente... Às vezes a gente não é mesmo sendo. Discordo, também... Porque posso. Porque às vezes somos, mas fazemos de conta que não, e deixamos de ser para voltarmos a ser mais tarde. E nem voltamos a ser, de vez em quando.
Ah, o ser humano que cria e depois solta suas criaturas no mundo para que olhos alheios observem sua existência e a associem a quem lhe deu vida. Feito filho, quando dizemos “é a cara do pai”, mas é a mãe estampada nos seus feitos. Ou uma mistura de pai, mãe, filho. Enfim, se nem mesmo nós conseguimos a total proximidade de quem somos, quem dirá os que nos folheiam.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Belìssimo, Albir! A palavra-chave é "liberdade". :)

Exato, Carla. Era isso mesmo que eu queria dizer. :)

Albir e Carla, essa foi uma daquelas crònicas que se completou nos comentàarios.