quarta-feira, 15 de abril de 2009

DESAPRISIONAMENTO >> Carla Dias >>

A moça tem esse olhar desolado, porque perdeu o rumo da casa que nunca teve, onde hoje moram alguns autoproclamados deuses a debocharem da ingenuidade dessa figura de faces rosadas.

Saltimbancos, desertores da benevolência, esses deuses carnavalescos e traquinas se sentam à beira do destino, sacando batatas Chips de saquinhos barulhentos, atazanando a sessão de vivência da moça, que ainda pensa que o barulho todo vem do apartamento ao lado, da falta de disciplina nos estudos do vizinho tentando se tornar violinista.

Como se não bastasse, eles gostam de criar desejos na alma dela, e a maioria de realização inalcançável, como o amor denso, intenso e urgente que se pegou sentindo pelo moço que sequer conhece, ou a vontade inerente de salvar o mundo do problema que não sabe qual é.

Sem conseguir se tornar a amante ou a heroína, desafiada pelo enviesado humor desses deuses solitários que, para curar as próprias feridas, divertem-se à custa da sorte dela, a moça caminha tão lentamente, como carregasse pesada cruz, e os pés estivessem amarrados, encurtando doloridamente seus passos.

Os tais deuses, estes que lambem beiços pela capacidade da moça de sentir como eles jamais sentirão, decidem em uma partida de truco qual será autor da próxima agonia dela, enquanto alvejam seu sono com cenas inéditas e de tristeza tão profunda, que lágrimas lhe escapam dos olhos fechados, mantendo-a prisioneira das galhofas deles.

Mas nasceu este dia, entre os dedos do universo, bem no momento em que ele bocejou e se espreguiçou. A sonsice desse momento, infestada de bom agouro, despertou a moça para o tempo. As desafinadas cordas vizinhas pareciam lhe açoitar, mas desta vez num ritmo cadenciado e desprovido de vieses, assim quase pôde sentir a música lhe roçar as costas, gentilmente.

Um sorriso lhe escapou, seguido da tontura provocada pelo sapatear dos deuses inconformados por terem perdido a hora, permitindo que a moça sentisse o que não estava no menu deles. E gritaram desventuras, esbravejaram indecências, a moça rodopiou sobre os calcanhares, num passo desengonçado de dança injuriada. E ela rezou um poema de Quintana num rosário de silêncios, ruminando a religiosidade dos que se sabem benfeitores apesar do sentimento escravizado em encalços de resmungos.

Os deuses sabotadores, mal amados lambendo a crueldade, trançavam os cabelos da moça no fim da tarde, enquanto cantavam rimas de inutilidades e sofreguidão. E a alma dela, enquanto sentia os dedos ásperos lhe cutucarem a nuca, saiu para passear por aí, bem longe da casa onde viviam os capangas que se denominaram deuses à base de trapaças.

Nas cordas tesas do violino vizinho, a moça se deitou para experimentar a vibração da desafinada música que ensaiava apegos. De longe, vinha a falação irritada dos deusinhos que pensavam em jogos, impunidades, desafetos para perturbá-la e trazê-la de volta ao aconchego de suas habilidades impiedosas.

Mas a moça, cansada das brincadeiras sem graça dos deuses infelizes, permaneceu embrenhada nas cordas do violino, os ouvidos atentos aos efêmeros momentos em que elas entoavam a beleza do som, momentos estes suficientes para alimentar sua alma de esperanças.

Após um concerto dissonante, a moça fez as malas e, sem dar adeus, mudou-se da sua não-casa para a casa ao lado, para um relicário no canto da sala, onde se ajoelha, diariamente, e reza um poema de Quintana em rosário de silêncios, pouco antes do concerto do violino. E há tanta ternura na mudez dessa moça que os deuses falseados agora a olham de longe, emburrados, mãos lambuzadas de desolação.

E dói em cada um deles a ausência da moça-títere.

E se esbalda a moça amparada pelas cordas do violino... Sem amante para amar, sem mundo para salvar, mas acompanhada pela liberdade aprumada.

Imagem: Henri Matisse - Interior with a violin

Site: www.carladias.com
Talhe - Blog: www.talhe.blogspot.com



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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito bonito, Carla! Seu texto é a versão poética de um episódio de Jornada nas Estrelas que vi há alguns anos, um episódio em que uma raça "superior" aprisionava humanos para poderem sentir emoções que já não podiam mais sentir.

Carla Dias disse...

Eduardo... Obrigada : )
Acredita que nunca assisti Jornada nas Estrelas?