quarta-feira, 8 de abril de 2009

SAUDADE >> Carla Dias >>

Hoje acordei com saudade do mar. O mar que não visito há quase doze anos. Não sei como alguém pode passar tanto tempo sem contemplá-lo, ainda mais quando se tem a atração desmedida pela água como tenho.

Sol em escorpião: água. Ascendente em libra: ar. Lua em câncer: água. Não sei muito sobre astrologia, mas sei que há dias em que eu simplesmente evaporo, sinto-me desprendida de tudo e todos, rondando o espaço sem tempo ou parada definida, doidivanas de plantão.

Então, pesa-me o ser e eu despenco, úmida e catártica, desvairada que só. Uma tempestade desvinculada de qualquer previsão.

E não sei nadar... Quando pequena, moradora próxima de represa, frequentadora das pescarias do meu tio, aconteceu esse dia em que meu pai decidiu que eu e minha irmã deveríamos aprender a nadar. Ele nos segurou, pequenas e acanhadas diante da escuridão moradora da água, cada uma de um lado, e nos mergulhou na represa. Foi assim que aprendi a viver com medo e fascinação pela água dos mergulhos.

Também ando saudosa dos jardins... Acho que meu ser urbano está um pouco confuso com a cara do concreto que ele tanto aprecia. Ando campestre, tocando as folhas das árvores garimpadas em quadrados rodeados por calçadas. Saudosa de um jardim... Um jardim de 1994, quando vi um pássaro beber água, enquanto chovia, o torrencial apaziguamento dos afetos murmurando agrados à minha alma. Beber água do mesmo copo. Ingerir intimidade e destravar sorrisos.

Que a saudade caminha ao meu lado, mãos tapando meus olhos, evitando que eu veja o que dizem os que chegam: dia azul, ensolarado, quente, lindo. Em mim o dia está cinza, cor de roupa preferida da saudade. Mas que saibam os que não me conhecem bem, também os dias cinzas fazem parte das minhas benquerenças.


Site: www.carladias.com
Talhe - Blog: www.talhe.blogspot.com



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6 comentários:

C. S. Muhammad disse...

Sua crônica é mais um exemplo de que os poetas se alimentam desta saudade tão companheira.

Carla Dias disse...

C.S. Muhammad... Obrigada pelas suas palavras. É sempre bom saber sobre quem compreende a saudade dessa forma. Porque,quase sempre, ela é isso: uma inspiradora dos poetas de plantão.

albir disse...

Úmidas saudades
cinzentas lembranças
e os dias de Carla
nos fazem crianças.

Elaine disse...

Cá, você me ensinou a respeitar os dias cinzentos, dos quais nunca gostei. Suas palavras como sempre chegam na hora certa e conseguem traduzir de maneira impar sensações tão profundas que eu jamais conseguiria descrever. Obrigada!!!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ocorrou-me, Carla, que voce talvez seja seu pròprio mar. :) Mas que um marzinho daqueles "impròprios" faz bem de vez em quando... ah, isso faz.

Anônimo disse...

Carla é fascinante ler suas cronicas e acredite o parentesco muitas vezes nos impossibilita aprofundarmos num melhor conhecimento dos dons dos nossos próximos, contudo agradeço ao Senhor pelo dom que Ele lhe deu.
Seu Tio Pedrinho.