quinta-feira, 23 de abril de 2009

O SPRINT FINAL >> Kika Coutinho >>

Todo corredor já viveu a experiência. Quem não é corredor viveu também, mas, talvez, desconheça o nome. Explico: se você decidir correr uma maratona, meia maratona ou 5kms, quando chegar no final, você sentirá que está esgotado. De alguma forma, enquanto seu corpo e suas pernas imploram pra parar, você saberá que falta 1, apenas 1km. É nessa hora, é justamente quando você acha que pode passar mal, morrer e ser atropelado pelos outros corredores, que você enxerga - talvez ainda um pouco longe - a linha de chegada. Aí, contrariando todos os órgãos do seu corpo, ao invés de parar, você faz o inesperado e corre mais. Acelera os seus passos movido por uma energia até então desconhecida, encanta seus pés e sobre eles atinge o seu recorde de velocidade.

Eu nunca entendi bem essa força. Nunca acreditei nela, mesmo sabendo-a real. Eu sempre duvido que ela me seja presenteada, mas, contrariando todas as expectativas, ao ver a linha de chegada, normalmente uma faixa amarela no alto, essa força inédita me invade e então, movida por ela, dou o meu sprint final. As últimas passadas são as mais demoradas e as mais velozes.
E assim o é para todo mundo, inclusive os não-corredores. Pode ser os seus últimos dias em um trabalho que odiava. Não agüentava mais, estava insuportável, os dias eram infinitos em sua chatice cinzenta, mas, avistando o fim ali, a meio período de um aviso prévio, você pode encontrar um gás desconhecido e dar seu sprint final. É difícil, talvez o momento mais difícil do percurso, mas é quando avistamos o fim de um tormento que ele deixa de ser um tormento. É antes, é naquela linha tênue que divide o fim da dificuldade do começo do desejo, que mora a tal felicidade. Não é no desejo completo. Não é na plenitude do descanso, horas depois da corrida. É na doce visão de que o descanso está pra chegar. É naquele pequeno instante em que ele chega, você respira e dá uma golada de gatorade. É ali, nessa fração de tempo, que habita com mais intensidade a nossa alegria de uma conquista.

O seu gatorade pode ser uma reforma que está pra terminar, e quando ela tornar-se um transtorno maior do que você poderia supor, é justamente aí que você verá que não falta tanto assim e, afinal, ainda tem um gás. Ele é o seu sprint final.

O “não agüento mais” é uma farsa. Você agüenta. Talvez nem devesse, talvez devesse entregar-se à exaustão e permitir-se parar antes do fim. Talvez. Há os que são contra o sprint final. Dizem que, se você não agüenta mais, deve terminar a corrida andando, ainda que a passos lentos. Mas isso será ainda mais doloroso e longo, acreditem. Outros vão mais longe e pregam a desistência. Encerre a corrida, o importante é participar, saia pelo canteiro à esquerda, encoste-se a uma árvore e relaxe, você deu tudo o que podia. Deu mesmo? E o sprint final? Cadê?

Pois eu, ainda com dor nas pernas, digo que caprichem no seu sprint final. É ele que te leva mais longe do que você pensava agüentar. É ele quem te mostra que você é, afinal, mais ainda do que pensa que é. Ele te dá um toque de herói, de mágico, de superpoder. Sim, você tem superpoderes. Brinde-os com Gaterode no final.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Hum... temos aqui uma crònica mais subjetiva, em que a escritora mantém um certo mistério, nào revela tudo. :)

Acho que essa crònica chegou na hora certa pra mim. Estou precisando de gàs para um sprint final italiano depois de Firenze. :)

Victor Meira disse...

Pois é, já tô dando um sprint aqui no TCC. Que saco isso, né? Acho que na verdade a gente é preguiçoso, e corre mais devagar no decorrer da maratona porque a gente JÁ CONTA com o sprint no fim. Hahaha.

Beijo.