sexta-feira, 10 de abril de 2009

HÍMEN COMPLACENTE >> Leonardo Marona

Foram pra cama e o negócio começou devagar. Brás com 58 anos, bolsas de gordura debaixo dos olhos, meia garrafa de uísque no estômago, pêlos demais, brancos e pretos, todos juntos, no peito, saindo pela gola da camisa. Joyce com 23, ainda virgem, nunca tinha visto um pau a não ser em revista – e que tipo de mulher virgem de 23 anos compra revistas com fotos de paus? – é o que Brás poderia pensar. Mas preferiu cair de boca. Ensinar a ela como se faz. Ficaram uns quinze minutos enrolando as línguas perto da garganta. Brás gostava de ler o Lautréamont, o Edgar Poe e o Georges Bataille: uma turma pervertida. Joyce gostava de ir ao shopping com as amigas, pegar sol no posto 9 e assistir a shows do Sandy e Júnior pela tv. E de mensagens. Gostava de mandar malditas mensagens de texto pelo celular, a noite toda, enquanto Brás tentava engrenar no sono.

Mas dessa vez ia ser. Brás montou por cima e começou a varrer as calças de Joyce vagarosamente para baixo. As calças eram as mais justas que já se tinha visto numa mulher. E a última vez que Brás teve qualquer relação com uma menina de 23 foi quando sua filha veio visitar, trazendo o namorado de 40. “Brás, querido, faça devagar, sim?”. “Tudo bem, Joyce, querida. Vamos devagar, bem devagarinho”. Brás dizia que a amava e que gostava de passar o tempo com ela sempre que ela vinha com esse papo de amar e passar o tempo. Ele não pensava em nada antes de dizer isso. E estava gostando do negócio de comer uma buceta virgem depois de... Nunca o tinha feito antes. “Brás, você apaga a luz, querido?”. Brás teve que desgrudar a cara que estava enfiada no meio das pernas abertas de Joyce, fazendo o trabalho por cima da calcinha rosa de renda. “Meu deus... Tudo bem”. Apagou a luz e voltou. Olhava pra cima de vez em quando, enquanto passava a língua. Joyce de olhos fechados e lábios apertados. Porra, não era virgem merda nenhuma! Sabia o passo-a-passo todo. Joyce pediu que Brás metesse, “devagarinho, sim?”.

- Merda, Joyce. Uma virgem não fala assim.

- E como fala uma virgem, então, Brás?

- Não sei. Não fala nada. Fica com medo. Mas não pede pra meter.

- Ah, querido, vem cá.

Agarrou Brás pelo pescoço e o puxou de volta pra cama. Ficava se contorcendo toda que nem uma cobra debaixo dele, ainda de calcinha e já sem sutiã. Luz baixa. Brás olhou pela primeira vez os peitos de uma menina de 23 anos. Esperava mais do que aquilo. Pareciam usados. Depois a colocou de quatro e meteu a cara dentro da sua bunda. A bunda, esta sim, tinha 23 anos exatos. Ficou ali enquanto Joyce gemia. Pediu que Brás metesse de novo. Brás sacou a pistola de carne de dentro da samba-canção e deu um tiro por entre as pernas da menina. Joyce afogou a respiração e começou imediatamente a rebolar. A hora da verdade. Brás ficou esperando o sangue escorrer para o lençol. Ele tinha que vir uma hora. Tinha que jorrar. Só que nada veio, e Joyce começou a gritar de prazer. Até que Brás gozou, sem conseguir se concentrar, e se jogou no canto da cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos.

- Que foi, querido?

- Gozei antes da hora.

- Não tem problema, querido. Foi bom mesmo assim.

- Bom uma ova! E você não é virgem merda nenhuma.

- Tem razão. Você acabou de me comer.

- E cadê o sangue? CADÊ O SANGUE AQUI?! – Brás apertou o lençol entre as mãos, quase chorando de raiva.

- Querido, qual a importância disso? Pelo amor de deus!

- Qual a importância disso?! A importância é que você mentiu pra mim!

- Não menti, não.

- Cara de pau.

- Eu era virgem. Até aparecer você, querido.

- E o que você fez com o sangue que tinha que ter saído daí de dentro?

- Não poderia sair.

- Como assim?

- Tenho o hímen complacente.

- Que porra é essa de hímen complacente agora? Conversa fiada!

- É verdade. Isso quer dizer que eu posso transar até mesmo com um hidrante e nada vai sair de dentro de mim. Isso é o que chamam de hímen complacente.

- É algum tipo de doença?

- Não! Que isso? Que doença, o quê!

- Uma deformidade, então. Você é deformada.

- Nada mal pr’um velho que nem você.

- Sua puta!

- Pelo menos eu sou uma puta de 23 anos. E você é um velho brocha de 58.

- Eu vou te matar!

Brás levantou da cama, rodando com a mão perto da orelha de Joyce que, ao se esquivar, caiu em cima dos joelhos no chão. Ficaram dando umas voltas na cama, um atrás do outro, até que Brás sentiu o peito e estacou, sem ar, se escorando na parede com o cotovelo. Joyce riu com uma risada de escárnio que nenhuma virgem jamais seria capaz de dar, a menos que num conto do Trevisan. Enquanto isso Brás sentou no chão com a mão no peito e a cara apertada. Então Joyce se aproximou.

- Ai, Brás! Desculpe. Nunca mais vamos brigar, sim?

- Sai daqui sua vagabunda! Eu arranjo uma bunda melhor que a sua em cinco minutos. Piranha mentirosa!

E deu outro tapa violento que passou no vazio, fazendo peso suficiente para que caísse de volta no chão. Uma fina gosma escapou da sua boca com o esforço do movimento.

Joyce saiu correndo, desceu as escadas chorando, passou pela recepção do motel e pediu que alguém subisse no 503 para ajudar um homem que estava tendo um enfarte ali. O recepcionista quis saber mais detalhes, mas Joyce saiu como um jato. Ele então subiu e encontrou Brás estendido com uma mão no peito, tentando tirar algumas pílulas de um frasco de vidro com a outra, umas tantas espalhadas pelo chão.

- O senhor precisa de ajuda, senhor? – perguntou o recepcionista, um jovem alto numa fatiota, com os cabelos crespos chupados para trás.

- Sim. Você poderia por favor enfiar esse abajur no meio do cu? – disse Brás, de olhos fechados.

O recepcionista ajudou Brás a se levantar e o colocou na cama pelos braços. Brás deu um cuspe na cara dele e mandou que trouxesse uma garrafa de Jim Bean imediatamente. O recepcionista ficou um tempo sem saber o que fazer. Depois tirou um lenço do bolso e começou a enxugar o rosto.

- Não ouviu o que eu disse?! O uísque, porra! – esbravejou Brás, e novamente a gosma escapuliu da boca para o tapete.

O recepcionista disse que poderia pegar, mas que precisava do cartão de hospedagem de Brás para descontar o Jim Bean da registradora do motel. Brás disse que levasse sua valise e só voltasse com o uísque na mão.

O recepcionista escorregou escada abaixo, pulando de lance em lance. Parecia um tipo de gincana quando você via um recepcionista tão dedicado como aquele. Voltou correndo com uma garrafa de Jim Bean e o celular de Brás na mão.

- Senhor, o seu celular estava apitando lá embaixo.

- Me dá isso aqui – disse Brás, arrancando o celular da mão do menino. – Deixa o uísque na mesinha e chispa fora.

Jogou uma nota de dez na porta do quarto. O garoto foi até a porta, agachou, pegou a nota, olhou para dentro do quarto e sumiu.

Brás pegou o celular. Uma mensagem de texto. Mais uma. Tinha mais de quarenta acumuladas. Todas bem parecidas. E todas da mesma pessoa.

“Querido, estou em ksa e só te mandei essa mensagem pra dizer que te amoooooo demais. E não estou zangada. Bjo, Joyce”.

Ele sabia como era um pé no saco escrever mensagens no teclado de um telefone celular. Sabia como devia ter demorado cinco minutos só para que Joyce escrevesse a merda da mensagem. Três minutos só para o “te amoooooo demais”, simplesmente para dizer que gostava dele. E gostava dele. Talvez não fosse virgem. Talvez Brás esperasse demais dos outros, porque sentia que a vida estava se diluindo a cada minuto e precisava de alguma coisa de verdade se mexendo perto dele. Mas se uma pessoa escreve “te amo” com seis ós no final, alguma coisa tem nisso. Brás deu um forte trago no Jim Bean, deitou na cama, as mãos atrás da cabeça, fechou os olhos e sorriu até pegar no sono. Um homem não pode ter tudo. E pelo menos era melhor que um marca-passo enfiado no coração.


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2 comentários:

C. S. Muhammad disse...

Complacente mesmo era o Brás. Complacente com a vidinha besta. O hímem era só flexível! :)

Cristiane disse...

Dizem os antigos que cada um tem o que merece. Eles se mereciam, decerto.

Li este texto no sábado e ainda está registrado em minha memória, por isto voltei para comentar. Ótima narrativa a sua!

Abraços,