sábado, 11 de abril de 2009

BEIJO [Debora Bottcher]

Sempre foi...

Basta mergulhar o coração no vale da ilusão para enxergar um beijo do outro lado da janela. Agarra-se a um floco de neve e o derrete. Depois, dança com os pássaros do gelo, enquanto estes procuram, na essência dos galhos, um lugar para se aninhar e enfrentar a noite. É possível sentir-lhes o prazer enquanto agrupam-se em torno do afago carinhoso da madeira acolhedora - o que certamente os ajudará a suportar o frio que congela qualquer intenção, o menor gesto.

Ela olha para a imagem que se mostra através dos vidros: há um pássaro tão preto como a neve branca, e um pássaro branco mais negro que a escuridão que habita nos ramos congelados das árvores que, também indefesas, a contemplam através do invisível.

Os olhos ariscos das aves fixam-se na mulher que os olha... Brilhantes...

Há beijos de todos os tipos, cada qual com seu desejo secreto, fonte de energia - positiva ou não.

O crepúsculo vem descendo seu manto. Ansiedade... Ela passa as noites brincando de adormecer: acorda muito tempo depois para constatar que passaram-se quinze minutos, vinte, meia hora... Só um segundo...

Eventualmente, aventura-se à madrugada fria tentando acolher-se nas mãos que regem o tempo. Dirige por estradas, escuridão à frente, medo e incompreensão acenando: não sabe o que fazer consigo mesma.

Há muita gente por perto: sua alma é lenta para a alegria do mundo... Sua sensibilidade aguçada capta tudo ao redor e entrevê sombras - nada mais...

Observa o tempo avançar perdida em seus pensamentos, questionando-se, tentando encontrar o eixo. Nada faz sem pensar um sem número de vezes - e nunca tem certeza se o que está fazendo é o certo. Apesar disso, adapta-se facilmente a tudo: ter e não ter, esse lugar ou qualquer outro, essa idéia ou aquela.

É passiva - não acredita na necessidade de ser de outro jeito: a vida tem seu curso natural e ela acha que pouca coisa se pode efetivamente mudar... Só não se ajusta muito às pessoas - suas atitudes, suas palavras, suas máscaras, seus sons...

Mas há um beijo que lhe foi dado na memória e se instalou: é parte da sua história. O beijo que os pássaros carregam na liberdade de seu vôo em céu aberto: indecifrável intenção...

Agora o está devolvendo: esses seres imersos na imensidão o levarão ao destino... Não importa se há sol ou brumas, se mar revolto ou rios calmos, se silenciosos lagos ou insondáveis desertos: o infinito que se esconde por trás das asas, abarca a vastidão inteira do universo.

Ela tem uma única certeza: o beijo que brinca nas geleiras do vento, cavalgará, veloz, para pousar, sereno, no perfume de alguém... Sonhos...

Foi agora... Será sempre...

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2 comentários:

Cristiane disse...

Débora tem um jeito de escrever de modo que suas palavras abraçam quem lê.

Um menino-homem me contou, há algum tempo, que o melhor beijo que tinha recebido na vida tinha sido um dado em seu rosto. De todas as bocas beijadas, de todos os cheiros femininos afagados, ele se lembrava com mais carinho deste beijo rápido recebido em sua face. Os lábios que desejava ter entre os seus, tocando-o ternamente em câmera lenta, num momento fugaz, ficaram registrados em sua memória.

Há beijos que são quase eternos; há beijos que são promessas; há beijos que não dizem nada... e há aqueles que tocam mais que a pele, tocam a alma de quem oferece ou quem recebe.

O beijo imortalizado nesta crônica guarda mais que segredos. Ele chegará, certamente, para onde foi enviado.

Um beijo

Eduardo Loureiro Jr. disse...

é, Débora, sempre hà um beijo... grato por contà-lo dessa maneira bonita. :)