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AS LÍNGUAS DO AMOR
>> Eduardo Loureiro Jr.

A quem devemos amar? A quem se parece conosco? A quem se nos opõe ou complementa? Ou a quem nos transforma e desafia?

Eu, por muito tempo, amo e convivi, com uma mulher que era como eu: silenciosa. Alguém para quem eu poderia dizer, sem qualquer, exagero: “minha solidão se sente acompanhada”. A pessoa perfeita para estar acompanhado sem necessidade de deixar de estar só. E de vez em quando me pergunto por que não foi para sempre.

Mesmo sabendo que talvez jamais obtenha a resposta – ao nível do coração – para esta pergunta, também de vez em quando me vem um esclarecimento súbito, um relâmpago brechando a noite...

O italiano é um idioma que guarda muita similaridade com o português. E me fez lembrar da minha relação com a mulher que se parecia comigo. Porque o italiano e o português são muito símiles no silencio da compreensão. Mas, na hora de falar, as diferenças se fazem notar. É uma relação desconcertante porque é praticamente perfeita em seu silêncio, mas é escorregadia em sua comunicação. Fantasia-se que há uma unidade, que as duas são uma língua só, mas, ao falar, descobre-se que não são. Em italiano, ragione e cuore não rimam como razão e coração rimam em português.

Quando leio, no silêncio do quarto, deitado na cama, a língua italiana me beija com carinho, me faz um cafuné, me amolega os pés. Quando saio à rua, num ristorante, num negozio, ah... para onde foi o meu amor? Quem me parecia tão fiel trama vinganças.

A falsa amizade das palavras italianas e portuguesas me faz pensar que é mais fácil amar uma japonesa, uma normal, uma oposta. Mas eu, que sou louco por natureza, embora muitas vezes pareça uma pessoa certinha, sei que o oposto seria demais – ou de menos, porque a gente também se acomoda na diferença do outro e acaba não mudando a si mesmo.

E, em meio a essa tempestade de pensamentos, sinto-me feliz ao lembrar que estou amando uma mulher-aventura para quem sou também um homem-aventura, uma mulher-desafio para quem também sou um homem-desafio. Sem a ilusão de já sermos iguais, sem a ilusão de sermos tão diferentes. Um amor com perspectivas de esquina, com palavras de cruzamento. Um amor que conhece e respeita as diferenças. E sabe reconhecer o limite das línguas, adotando sempre que necessário – e humildemente – a simplicidade dos gestos.

Comentários

adelaide amorim disse…
Um texto sensível e muito bem escrito, Eduardo. E um ótimo blog.
Beijo pra todo mundo.
Juliêta Barbosa disse…
Porque a gente também se acomoda na diferença do outro e acaba não mudando a si mesmo”.

Não seria o contrário, Eduardo?
A diferença do outro é que mexe com a nossa estrutura, desarruma as nossas certezas, nos convida à mudança e ainda nos dá a possibilidade de singrar por mares nunca antes navegados, oferecendo uma oportunidade de sermos felizes, quebrando a rotina e a mesmice. Há troca nas diferenças e consequentemente, mudanças, ainda que imperceptíveis.
Grato, Adelaide. E bonita essa sua foto. :)

Julièta, nào sei se jà lhe aconteceu, mas, às vezes, quando se forma um casal, um se "escora" nas qualidades do outro. Por exemplo, um nào faz questao de ser paciente porque o outro é muito paciente, ou o outro nào se esforça pra ser tào dedicado porque o outro jà é. Entào a diferença gera uma certa acomodaçào.
C. S. Muhammad disse…
Uma crônica sapiente e amorosa atrás da outra. :) (assim a gente se accomoda, hein?)
Tudo bem, Carla, mudarei de assunto na próxima crônica. :) Alguma sugestão? Também gosto de escrever por encomenda.
Oi, Eduardo,
Como diz o poeta: "Eu tô voltando..." E como é belo voltar num texto repleto de amor. Como é bom saber que você está amando! E o que dizer para o amor? Nada...ele deve é ser sentido.
Você dispensa mais comentários! Sempre se supera. :)
Salve, salve, Marisa! Agora, sim, o time do Crônica do Dia está novamente completo. Seja re-bem-vinda! :)

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