sábado, 25 de abril de 2009

UP [Cristiane Maria Magalhães]

Quando Davi nasceu, minha irmã levou Lívia para conhecê-lo ainda na maternidade. A mãe do Davi trouxe-o até o vidro que separava a sala de espera da parte interna do hospital e ali os primos se conheceram. Lívia, na sabedoria dos seus dois anos, deve ter acreditado que se tratava de uma de suas bonecas: queria carregá-lo e cantar para ele. Na hora de ir embora, ela não se conformava em deixar o pequeno no hospital: “Minha Davi, pega a minha Davi e a tia Lulu, mamãe”, ela gritava fazendo um escândalo. Hospital é lugar de injeções e muitas outras torturas, ela deve ter pensado, pois já havia experimentado muitas delas. Como deixar ali a tia Lulu e o seu bebezinho? Desejo não satisfeito, Lívia teve que se contentar em voltar para casa sem a “sua Davi”.

Crescemos e saímos vida afora sem entender muitas coisas. Vamos seguindo no piloto automático que alguém – nunca se sabe exatamente quem – programou. Sigo sem entender como homens e mulheres, dezenas deles, se enfiam numa academia e carregam pesos repetidamente para moldar o corpo que receberam já pronto, totalmente de graça. Horas e horas perdidas para ter de volta o peso e a rigidez dos 20 anos. Que academia me devolve a inocência desta mesma fase? O avaliador físico sabe de gorduras e massas – boas e más –, mas nada me diz sobre os deliciosos amores platônicos que deixei, todos eles, antes dos meus 25 anos.

- Seu peso está ideal para a altura e não apresenta riscos à saúde, mas esteticamente precisamos remodelar alguns quilinhos. Nada que cinco dias por semana de atividade física não resolva.

Quais aparelhos de ginástica restabelecerão ao mesmo tempo a estética dos sonhos dos meus 20 anos? Quero o fogo, a emoção e as dores do primeiro amor - e do segundo e do terceiro... Será que os reconquistarei naquela sala onde as pessoas pulam freneticamente em cima de um jump? Onde se recupera a naturalidade das amizades da infância sem julgamentos, sem medos, sem preconceitos?

Ouço e vou fixando as modalidades, todas com nomes em inglês, tentando decifrar qual delas me devolverá o que perdi: jump, pump, step, spinning, gap, fitt, tem até um tal de “up local”. Ei, eu quero dar um “up” na minha memória, será possível? Espero apagar as cicatrizes das experiências geradas pelos erros e recuperar a ingenuidade que tinha quando estava na sua idade, senhor avaliador físico. Assim, vou ter de volta a coragem que preciso para me jogar por inteira e não colocar apenas os pés no raso e no transparente, como faço agora.

Ultimamente, com a iminência da chegada dos 30, foi que me dei conta que em alguma página do passado ficou perdida a minha infância, sem que eu soubesse onde nem quando. Certamente devo ter feito, também, escândalos a cada vez que tiravam “minha Davi” e foi assim que aprendi que para muitas coisas incompreensíveis não há solução. É preciso calar e seguir adiante. E se for em silêncio, sem reclamar, tanto melhor para as pessoas ao redor. Às vezes elas até nos presenteiam com afagos e cafunés se seguimos incompreendidos, mas cantando. E numa destas em que não contestei, pluft!, me roubaram a infância e o prazer de saborear uma bala de jujuba ou me lambuzar inteira com uma manga linhenta bem madura, daquelas em que o caldo escorre pelos cotovelos manchando toda a roupa.

Já que a cartilha não me deixa opção, talvez eu escolha uma modalidade de atividade física com idioma nacional, em que reaprenda a pular bem alto para conseguir ir buscar, eu mesma, aquela fruta mais madura, bicada de passarinho, que fica nas copas das mangueiras.



Partilhar

3 comentários:

Debora Bottcher disse...

Cris, querida,
Como sempre, um texto delicado que emociona e faz viajar no tempo... Realmente: quem dera se pudesse resgatar detalhes da infância, da vida, numa sessão de qualquer coisa, não? :)
Beijo enorme, bonita.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela crònica, Cristiane! Maravilha de humor. :)

Cristiane disse...

Obrigada Debby, obrigada Eduardo =)