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UP [Cristiane Maria Magalhães]

Quando Davi nasceu, minha irmã levou Lívia para conhecê-lo ainda na maternidade. A mãe do Davi trouxe-o até o vidro que separava a sala de espera da parte interna do hospital e ali os primos se conheceram. Lívia, na sabedoria dos seus dois anos, deve ter acreditado que se tratava de uma de suas bonecas: queria carregá-lo e cantar para ele. Na hora de ir embora, ela não se conformava em deixar o pequeno no hospital: “Minha Davi, pega a minha Davi e a tia Lulu, mamãe”, ela gritava fazendo um escândalo. Hospital é lugar de injeções e muitas outras torturas, ela deve ter pensado, pois já havia experimentado muitas delas. Como deixar ali a tia Lulu e o seu bebezinho? Desejo não satisfeito, Lívia teve que se contentar em voltar para casa sem a “sua Davi”.

Crescemos e saímos vida afora sem entender muitas coisas. Vamos seguindo no piloto automático que alguém – nunca se sabe exatamente quem – programou. Sigo sem entender como homens e mulheres, dezenas deles, se enfiam numa academia e carregam pesos repetidamente para moldar o corpo que receberam já pronto, totalmente de graça. Horas e horas perdidas para ter de volta o peso e a rigidez dos 20 anos. Que academia me devolve a inocência desta mesma fase? O avaliador físico sabe de gorduras e massas – boas e más –, mas nada me diz sobre os deliciosos amores platônicos que deixei, todos eles, antes dos meus 25 anos.

- Seu peso está ideal para a altura e não apresenta riscos à saúde, mas esteticamente precisamos remodelar alguns quilinhos. Nada que cinco dias por semana de atividade física não resolva.

Quais aparelhos de ginástica restabelecerão ao mesmo tempo a estética dos sonhos dos meus 20 anos? Quero o fogo, a emoção e as dores do primeiro amor - e do segundo e do terceiro... Será que os reconquistarei naquela sala onde as pessoas pulam freneticamente em cima de um jump? Onde se recupera a naturalidade das amizades da infância sem julgamentos, sem medos, sem preconceitos?

Ouço e vou fixando as modalidades, todas com nomes em inglês, tentando decifrar qual delas me devolverá o que perdi: jump, pump, step, spinning, gap, fitt, tem até um tal de “up local”. Ei, eu quero dar um “up” na minha memória, será possível? Espero apagar as cicatrizes das experiências geradas pelos erros e recuperar a ingenuidade que tinha quando estava na sua idade, senhor avaliador físico. Assim, vou ter de volta a coragem que preciso para me jogar por inteira e não colocar apenas os pés no raso e no transparente, como faço agora.

Ultimamente, com a iminência da chegada dos 30, foi que me dei conta que em alguma página do passado ficou perdida a minha infância, sem que eu soubesse onde nem quando. Certamente devo ter feito, também, escândalos a cada vez que tiravam “minha Davi” e foi assim que aprendi que para muitas coisas incompreensíveis não há solução. É preciso calar e seguir adiante. E se for em silêncio, sem reclamar, tanto melhor para as pessoas ao redor. Às vezes elas até nos presenteiam com afagos e cafunés se seguimos incompreendidos, mas cantando. E numa destas em que não contestei, pluft!, me roubaram a infância e o prazer de saborear uma bala de jujuba ou me lambuzar inteira com uma manga linhenta bem madura, daquelas em que o caldo escorre pelos cotovelos manchando toda a roupa.

Já que a cartilha não me deixa opção, talvez eu escolha uma modalidade de atividade física com idioma nacional, em que reaprenda a pular bem alto para conseguir ir buscar, eu mesma, aquela fruta mais madura, bicada de passarinho, que fica nas copas das mangueiras.

Comentários

Debora Bottcher disse…
Cris, querida,
Como sempre, um texto delicado que emociona e faz viajar no tempo... Realmente: quem dera se pudesse resgatar detalhes da infância, da vida, numa sessão de qualquer coisa, não? :)
Beijo enorme, bonita.
Bela crònica, Cristiane! Maravilha de humor. :)
Cristiane disse…
Obrigada Debby, obrigada Eduardo =)