quarta-feira, 1 de abril de 2009

DE DENTRO PRA FORA >> Carla Dias >>

Eu sempre fui curiosa sobre a forma como as pessoas – e eu mesma – lidam com a espiritualidade. Desde moleca, pequenos acontecimentos me faziam pensar em Deus como um grande provedor de projetos, entre eles pintar as mais belas paisagens e contornar o coração dos desesperançados.

Saindo da época das molequices, embrenhei-me na curiosidade crescente sobre o universo e seus mistérios, como se analisasse suas entranhas em busca de respostas. Em algum momento, dei-me conta de que tais respostas jamais seriam minhas, pois faziam parte de um pleno silêncio que era água, comida e abrigo para a evolução humana.

A evolução, ouvi dizer, requer a impaciência dos inquietos e a curiosidade dos sonhadores. Sei que pode ser perigoso apreciar a definição de um poeta, mas cá entre nós, sabemos bem que é justamente a flexibilidade que ele assopra no sentido das palavras que torna essa evolução humana.

Um bailado de metáforas tropeçando em alaúdes e provocando as mais belas canções.

E há os cientistas, os conhecedores dos dados e, quase sempre, capazes de também manipulá-los, como os nordestinos rearranjam as palavras para elas caberem nos cordéis. Na próxima vida quero nascer pra ser cientista, ter a curiosidade assanhada para provocar os números, para compreender o corpo de um jeito diferente do que mostra o espelho ou os sentimentos. Quero aprender a desarmar certezas, apenas para construir um afluente dela, pois na ciência da vida, as certezas são maleáveis e se adéquam à destreza e ao caráter do cientista, construindo benefícios ou tragédias.

Nasci numa vida onde a religiosidade sempre foi presente e forte, mas nunca definida. Se frequentei o catolicismo quando era menina, não vacilei em abandoná-lo assim que minha decisão se tornou adulta o suficiente para ser respeitada. Tampouco o fiz por desrespeito ou falta de credulidade. Minha decisão se parecia com o que sentem os cientistas diante do desejo de desvendar, aquela voracidade que necessita de ultrapassar limites, mas misturada com a maneira como os poetas gostam de dizer suas inquietudes.

É obvio que, apesar de ser uma eterna curiosa sobre a forma como as outras pessoas lidam com a própria espiritualidade, ainda há muito que aprender sobre como eu enxergo a mim nesse universo indelével. Mas é certo que, de dentro pra fora, todos temos ciência (ou almejamos tê-la) dessa força que não tem cara, não tem nome, só tem endereço: a nossa alma. Esse lugarzinho onde nascem sábios, poetas, cientistas, mães, filhos, pais, pessoas com direito a escolhas e ao conhecimento sobre si e o mundo onde vivem.

E como diria o poeta-cientista: eu tenho tudo, por isso o nada me parece tão sedutor. O nada onde nasce a origem de quem somos e onde é possível se criar prólogos, ideias, sustentar a fé. Nesse lugar onde ser é permitir a fluência do nosso aprendizado, pois estamos despidos das expectativas e dos rótulos.

O espírito requer uma pintura esperançosa... Uma paisagem de celebração.


Imagem: Anindya Chowdhury / Unprofound


Site: www.carladias.com
Talhe - Blog: www.talhe.blogspot.com



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5 comentários:

Adriana (Drika) disse...

Nossa, que profundo!!!!! Ok, há momentos emque realmente estamos mais sensíveis para determinados assuntos kkkk... Acho deliciosa esta dua maneira de misturar palavras com sonhos...e no final, nós seus leitores é que nos deliciamos mesmo...Bjs

Juliêta Barbosa disse...

Carla,

"Quero aprender a desarmar certezas",

Seu texto, hoje, está tão gostoso de ser ler que pede um repeteco. Volto já... com mais calma.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela reflexão, Carla. Penso que a espiritualidade é, antes de qualquer coisa, a busca de conhecer o próprio espírito. E é essa busca que vemos nas suas crônicas. :)

Letti disse...

Alma e espírito são a mesma coisa? Se forem eu dupliquei em desejos e esqueci de avisar... :)
beijo grande!

Carla Dias disse...

Drika... Você me conhece, é minha irmã, então sabe que gosto de me esbaldar naquilo que não tem cara, mas existe. Sabe que sempre preferi os sonhos, mesmo enquanto desenovelo realidade.

Juliêta... Se já fico feliz quando me lê, imagina quando há repeteco! Obrigada por voltar a cada semana.

Eduardo... Espero que seja uma 'buscadora' capaz de me tornar uma 'encontradora'.

Claudia... Gosto de pensar que a alma é um lugar quente e confortável que o espírito abarca e nutre, enquanto lá se acomoda e cresce aos cuidados da sabedoria... Se completam, como duas partes de uma mesma coisa que se tornam duas para fortalecerem as nossas buscas.