domingo, 26 de abril de 2009

O CONHECIMENTO DO AMOR
>> Eduardo Loureiro Jr.

Amar é querer conhecer e dar-se a conhecer. Por isso durante a paixão, que pode ser o início do amor, os enamorados fazem-se tantas perguntas e recontam a própria vida como se estivessem ditando sua biografia para um ghost writer. Se os primeiros momentos do amor são tão encantadores, é justamente porque as duas pessoas são um mundo novo, vasto e inexplorado uma para a outra.

E assim poderia continuar por toda a eternidade se... a gente não matasse o amor.

O amor começa a morrer quando perdemos a vontade de conhecer ou paramos de nos revelar. Normalmente acontece quando achamos que já conhecemos o outro suficientemente e, daquele ponto em diante, já podemos emitir um bom julgamento sobre ele, já podemos mesmo dizer o que ele pode mudar para ser melhor. Substituímos o mundo novo, vasto e inexplorado por um mundo exaurido, pequeno e envelhecido. Até mesmo as perguntas que fazemos não têm mais o próposito de conhecer, mas de verificar se o outro continua sendo do jeito que a gente pensa ou quer que ele seja.

Também pode acontecer do amor começar a morrer quando damos nós mesmos por prontos. Quando não encontramos, em nós mesmos, nada que pareça ser digno de ser compartilhado. Então paramos de nos dar a conhecer, repetindo para o outro sempre a mesma versão de nós mesmos -- ou ficando em silêncio.

O nascimento e a morte do amor são mais visíveis numa relação entre duas pessoas, mas pode se dar com um animal, com um livro, com um assunto, com um hobby... No meu caso, está acontecendo com uma cidade: Firenze.

Passei quatro semanas em Florença e quanto mais a conhecia mais tinha vontade de conhecê-la. Saí ontem de lá, e há uma dezena de lugares que eu vi só de passagem e gostaria de entrar, pessoas que desejo conhecer, comidas que quero provar... Vontade também de me dar a conhecer, de me fazer amigo, de escrever, de conviver... Amor em seu mais belo início.

Com as cidades, penso que sou um amante mais esperto do que com as mulheres. Não sou afoito, não quero conhecer tudo o mais rápido possível. O Rio de Janeiro, por exemplo, essa maravilha também apaixonante... Só fui conhecer o Cristo Redentor lá pela minha quarta visita à cidade, coisa que qualquer turistinha de meia-tigela faz logo no primeiro dia.

Deixei muito pra ver em Firenze. Deixei abertas as portas do amor. À distância, vou cultivando o pouco que conheci. Qualquer dia desses, qualquer ano desses, retorno e amo um pouco mais, pergunto um pouco mais, me mostro um pouco mais.

Florença é uma cidade que dá vontade de pedir logo em casamento -- linda, simples e inteligente --, mas eu vou que vou com calma.

Mais notícias de Firenze e da Itália no meu blog de viagem.



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8 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

“Deixei muito pra ver em Firenze. Deixei abertas as portas do amor. À distância, vou cultivando o pouco que conheci. Qualquer dia desses, qualquer ano desses, retorno e amo um pouco mais, pergunto um pouco mais, me mostro um pouco mais”.

Que belo texto, Eduardo! Pena que irreal.
Ah, como seria bom se pudéssemos fazer com as pessoas o que você pode fazer com Florença. Visitá-la “qualquer dia desses, qualquer ano desses, e amar um pouco mais”.

O amor ‘cultivado à distância’ não permite o assombro que é amar verdadeiramente apesar de: da rotina, da mesmice e do lugar comum. Sem esse amor estamos todos perdidos porque vamos ter que inventar um novo personagem a cada dia para nos sentirmos amados e valorizados.

Depois de você voltar inúmeras vezes à Florença o que sobrará desse amor?

Talvez o conhecimento do amor esteja em abrirmos mão do nosso narcisismo, da nossa vaidade exacerbada, para enxergarmos o outro não como uma extensão nossa, mas como um ser falível e por isso mesmo, demasiadamente humano. Que é o que, afinal, somos todos nós.

Marisa Nascimento disse...

Ah, Eduardo! Que viagem apaixonante deve estar sendo essa sua! Como você disse, vá com calma, porque o amor precisa de cautela e assim mesmo, ele nos arremessa, sem piedade, contra nossas mais convictas razões. :)

C. S. Muhammad disse...

Adorei a analogia. Acho também que esse amor deva ser saboreado em pequenas porções.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Juliêta, "qualquer maneira de amor vale a pena". :)

Marisa e Carla, podem deixar que calma é comigo mesmo. :)

Carla Dias disse...

Eduardo,
Deu vontade de fazer as malas e ir conhecer o seu amor.
Que belo texto o seu... Para Firenze e também para quem gosta de olhar bem de perto o amor, descobri-lo nesse andamento de samba canção.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

E aí, Carla, já fez as malas? :)

Ana disse...

Belíssimo texto...
É preciso calma para se conhecer devagar, para se apaixonar aos poucos, para amar sem afobação, para esperar o amado chegar.
Inspirador... e reconfortante.
Assim, o que poderia ser desesperança torna-se um prelúdio; o inalcançável, poesia.
Grata por esse novo modo de olhar que você me trouxe.
[]s,Ana - a que espera.

Ana disse...

A propósito, linda foto...