sexta-feira, 17 de abril de 2009

VOVÔ CONFÚCIO >> Leonardo Marona

Sempre que termino um poema sinto uma incontrolável vontade de respirar o ar de Cubatão. De repente me vejo munido de armadura e espada, estou com uma daquelas sandálias de mil laços dos antigos gladiadores romanos. Ultimamente, tenho escrito poemas apenas para poder respirar o ar perfeito de Cubatão. O poema virou um refúgio para puxar fundo o ar e soltar um longo suspiro. Tentei isso na rua, não deu certo. A rua é apenas poluída demais para se puxar fundo o ar e, no fundo, não há mais ar e a disputa com os ônibus e caminhões com motoristas de muitos dentes chega a ser digna de um mito grego. O poema acaba sendo o oxigênio negro que um puxa para poder assobiar para dentro de si no meio do trânsito infernal e das pontes quebradiças, dos empregos de expedientes incertos e nas cabines de amor. Depois do poema eu serei um pai a dar banho no meu filho. Quero olhar para trás e dizer: “meu deus, como você fazia bobagem, meu amigo, uma atrás da outra”, com o sorriso dos que descansam, mas não param. Depois do poema eu serei o escritor sentado em sua mesa de vime, em frente ao mar caribenho, com um chapéu de pano, desses que os velhos usam para se proteger do sol, e algumas recordações silenciosas de amores truculentos. Depois do poema nada mais de gritos, tiros na noite, dedos nos olhos, saliva nos pelos do peito. Depois do poema a calma, a precipitação voluntariosa, a entrega ao que surge como pano constrangedor, a transparência luzidia da visão de um deus do instante. Depois do poema finalmente os erros sem arrependimento, a risada descansada própria dos muito puros, a vontade de dizer “somos todos meteoros”. Depois do poema um soco, uma caricatura amortecida de peles repuxadas. Mas Vovô Confúcio me avisa que os poemas só perduram se estiverem no limite do meteórico, e que o intelecto é fogo sobre tora madeira, e nós somos madeira, ele diz, Vovô Confúcio, e nós temos o fogo mas não temos o controle, mas temos, sim, o controle, Vovô insiste e abençoado seja ele, que sabe por nós o que deveríamos saber, e não é capaz de interferir em nossa dor.


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, gostei demais dessa repetiçào de "depois do poema".