sexta-feira, 3 de abril de 2009

ESTÁRUA PORTENHA >> Leonardo Marona


As mulheres ali pelas bandas da Avenida de los italianos, a qual eu percorria por uma razão sentimental, andavam de mãos dadas e eu me sentia tão bem, com tanta sorte de poder ver tamanha demonstração de carinho e delicadeza em público, algo que nenhum homem é capaz de fazer, porque as mulheres de Buenos Aires simplesmente se dão as mãos ou os braços e seguem em frente olhando para o chão, como se houvesse algo de irremediável em viver sobre a terra que as impedisse de sorrir, as forçasse a aceitar.

Então cortei pela Avenida Córdoba, quebrei na San Martin, parei para tomar um trago e um ar na praça em que o general libertador aponta para onde meu desejo nunca pôde alcançar, então percebi que tinha bolhas nos pés por ter pensado demais debaixo de sol quente, porque o diabo de Buenos Aires é que o céu é tão azul quanto o azul da bandeira Argentina, mas o sol não é tão bonito quando racha o piche debaixo da sola furada do tênis velho.

Ou talvez fosse apenas o malbec tinto vagabundo de dois pesos e meio mais uma menina muito alta, não muito bonita, mas muito compenetrada no seu bloco de desenho – o que para mim é muito bonito numa mulher – sentada por ironia no Parque Mujeres Argentinas, muito concentrada nos traços de um dique que rabiscava alternadamente com os dedos finos enlaçados nos cabelos de cachos claros na ponta da orelha e a língua marcada de vinho para fora, metade mordida, saliva na ponta do dedo, pontas dos dedos esfumaçando os traços num comportamento artístico, sério e desleixado, estilo em suma, uma garrafa pela metade de um syrah tão vagabundo quanto o meu malbec ao seu lado no chão, o que nos tornava automaticamente cúmplices dentro do que tinha imaginado para mim mesmo como uma viagem agradável, imaginativa e adimensional, sem necessariamente ser todo tempo real. E quando ela franze a testa e usa a borracha, eu penso que isso significa que por mais que você queira, jamais vai conhecê-la além do que ela quiser te apresentar.

Seu lápis caiu quando ela se agachou para repousar a garrafa do seu quarto de vinho no chão. Não sei por que ela olhou para mim e não sei por que eu não pude olhar para ela, já que queria tanto ser um traço do seu rabisco, mas mesmo assim apontei para o lápis, embalado pelo vento atrás do banco, quando vi que a moça era uma estátua de mármore, o lápis era meu próprio lápis e eu estava apaixonado por uma pedra, tão quieta e pálida quanto uma portenha.


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5 comentários:

Ju disse...

Só podia ser vc! Se tivesse um final 'meloromântico' seria terrível. Continua me surpreendendo e tirando fotos bizarras. Algumas coisas não mudam nunca, como a boa literatura e o vinho ruim, o que, por sinal, é uma ótima combinação!

C. S. Muhammad disse...

Seu lápis corre solto e prega armadilhas deliciosas e geniais.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Léo, eu adoro descrições de mulheres. E a dessa mulher-estátua foi surpreendente. :)

Carla Dias disse...

Leonardo, gostei por demais desse cenário pintado através das suas palavras.

r a c h e l disse...

Fiquei até com saudade de BUE.