sábado, 18 de abril de 2009

LIMITES.COM [Maria Rita Lemos]

Uma das queixas mais freqüentes dos pais e educadores, quando se refere à utilização do computador pelos filhos (crianças e adolescentes), diz respeito à dificuldade em colocar limites. Principalmente quando se trata de utilização da Internet, a geração jovem parece flutuar, mais que navegar, nas ondas mágicas que a leva aos mistérios do mundo cibernético, e tudo o mais fica esquecido: horários, outras atividades, obrigatórias ou não, convivência familiar; até mesmo cuidados higiênicos e alimentação parecem ser relegados a segundo plano.

Há uma atração quase inexplicável que toma conta de nossos adolescentes (e de muitos adultos também, sejamos francos) quando eles descobrem a magia das salas de bate-papo, dos blogs, do orkut e de outros canais de relacionamento. Nesse ambiente discreto e aconchegante, sem sequer precisar trocar de roupa nem depender de horário, pode-se continuar as conversas que começaram na escola e a saída interrompeu; pode-se conhecer gente de todas as partes do mundo, conversar, namorar, e até ir além disso, com os recursos de câmeras, microfones, etc.

Diante de uma rival tão poderosa e sedutora quanto a Internet, a imposição de limites por parte dos pais e educadores, embora imprescindível, é sempre muito desgastante, e cria problemas crônicos e desagradáveis no relacionamento familiar, sobretudo entre pais, mães e filhos(as). Pesquisas recentes, feitas aqui mesmo no Brasil, dão conta de que algumas crianças e adolescentes passam de seis a oito horas diárias diante do computador, e isso acarreta problemas na escola, como sono, falta de atenção, dispersão, desinteresse.

Também na convivência familiar os problemas se estendem: não há mais diálogo, os cuidados higiênicos e os horários de alimentação começam a ficar prejudicados - no ponto em que o adolescente não mais se alimenta adequadamente, preferindo fazer refeições rápidas diante da telinha.

Para entender esse aspecto do conflito pais X filhos, acredito que seja importante passear um pouco no passado, mais especificamente nos anos setenta, quando a busca pela liberdade sexual, o advento da pílula anticoncepcional, o movimento "hippie" e a generalização das drogas começou a influenciar as mudanças comportamentais da família. Todos essas novas formas de vivência, aliadas às mudanças de configuração familiar, talvez tenham sido confundidas com uma mudança de valores. Diante de tantas novidades, pais, mães e educadores(as) sentiram-se perdidos; perdemos, nós mesmos, os limites.

Quando falamos que nossos filhos não têm limites, que não conseguimos estabelecer limites, esquecemo-nos de que também nós não os temos: compramos compulsivamente tudo o que nos é empurrado como necessidade, ficamos prostrados diante da TV depois de um dia em que também trabalhamos mais do que poderíamos ou deveríamos; isso também nos impede de brincar ou conversar com os filhos, não encontramos tempo para ouvir nossas crianças e adolescentes, e, diante desse cenário, compensamos com ovos de Páscoa cada vez maiores e mais recheados, os últimos lançamentos de brinquedos e video games, etc.

Enfim, somos pais e mães sem limite, queixando-nos de que não conseguimos estabelecer os mesmos limites que não temos. Não queremos autoritarismo, longe de nós sermos ditadores e "coronéis", mas quando já não sabemos o que fazer temos duas saídas opostas: ou "deixamos para lá" (isto é, nossos filhos venceram pelo cansaço) ou arrancamos o fio da tomada e, pronto, estamos conversados (estamos mesmo?).

Minha amiga Lúcia contou sua experiência, que passo a meus leitores (as) porque também a adotei, e parece estar surtindo resultado. Lúcia, como todas as mães e pais de filhos "informatizados", sofria com a rebeldia de sua filha adolescente, Priscila, igual a todas as outras, ou pelo menos à maioria quase absoluta, que não aceitava as regras e limitações de horários e "sites"seguros. Por sua vez, Lúcia, ao chegar do trabalho, deu-se conta de que também ia para seu próprio laptop e dedicava horas seguidas à sua tese de mestrado. O primeiro passo, para reeducar mãe e filha, foi dado: minha amiga passou a limitar o seu tempo e o de Priscila no computador. No tempo que sobrou, começaram a fazer coisas juntas: jogar damas, ver filmes escolhidos por ambas... No entanto, quando a jovem estava no bate-papo e o horário de dormir chegava, começavam as frases de sempre: "peraí", "só um minutinho" (que se transformavam em horas), etc. Nessa altura, Lúcia descobriu que poderia programar o computador, como se faz com a TV, para desligar automaticamente a um determinado horário, e então Priscila passou a ser avisada pela telinha: "seu computador será desligado em cinco minutos". Pronto. Era o tempo suficiente para ela se despedir de todos (as) no MSN, sem grandes crises.

Da mesma forma, minha amiga programou o micro para funcionar a partir de determinado horário, que coincidia com o final do jantar, o que eliminou seu uso durante o dia. Começou a sobrar tempo para socialização com a família, para ler, sair com amigos(as), estudar, etc.

Se você se interessou por esse método, o endereço da empresa que o implantou é limites.trait.com.br. No entanto, já vou avisando, como avisei Lúcia também: pessoalmente, eu tentei entrar e a página não abriu... será que algum(a) adolescente andou mexendo por lá?

Independente dos bloqueadores externos, nada pode substituir nossa responsabilidade, como pais e mães, de estipular o que é bom ou não para nossos filhos. Ninguém nem nada pode fazer o nosso papel no momento de estabelecer as limitações em tudo na vida deles. Só assim faremos a nossa parte em promover o desenvolvimento de adultos felizes e responsáveis, bons administradores de suas vidas. Além disso, estaremos educando nossos jovens dentro da modernidade, sem abrir mão de ferramentas como o computador e a Internet, que abrem caminhos para os relacionamentos saudáveis, o intercâmbio e o conhecimento de tudo o que se passa no mundo.



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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Belo texto, Maria Rita. Muito bem construído. E uma argumentação bastante sensata.

Anônimo disse...

Obrigada, amigo. Um elogio seu é muito importante para mim.
Abraço, meu melhor.
Maria Rita