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O MARTELO DO BEM - Sétima parte >> Albir José Inácio da Silva


(Continuação de 04/11/2019)

Irmã Penha fechava o caixa de três barraquinhas da Nova Cruzada na Festa da Roça com um sorriso pelo sucesso das vendas, quando ouviu os gritos. Correu para perto do coreto e viu, sentada no banco de pedra e cercada por um grupo de pessoas, uma de suas fiéis.  Transtornada, ela gritou de novo quando a religiosa se aproximou:

- Meu filho, Irmã Penha! Ninguém acha! Eu vi a bruxa dando doce pra ele!

“Não! Eu não precisava disso!” – pensou Penha – “Alguém lá das profundezas do inferno ficou incomodado com o sucesso da festa. Estou bem parada com fiéis que não conseguem tomar conta dos próprios filhos!”

Das Dores, a mãe do menino, se descabelava como se estivesse possuída e Penha teve vontade de sacudi-la, mas abraçou-a e disse que achariam seu filho. Depois se afastou alguns passos e por gestos chamou o Sargento Donizeti, que ouvia algumas pessoas sobre o desaparecimento, e os três Josés, que esperavam ordens.

- Como vocês estão vendo, foram proféticas as minhas palavras na reunião de hoje!

                                                                    A REUNIÃO

Aconteceu às cinco da tarde, na Nova Cruzada, enquanto as barracas da festa ainda estavam sendo montadas na praça. Poucas pessoas compareceram, o que, para a irmã Penha, mostrou a fragilidade do lugar ante a ameaça do mal.

Além do Sargento Donizeti e os três Josés, meia-dúzia de fiéis mais indignados já se exaltavam antes de a reunião começar:

- Ontem à noite dentro da casa só havia luz de velas. E não era falta de energia porque a luz de fora estava acesa. Alguma coisa estranha acontece ali. – disse Zé Antônio com olhos arregalados.

- E hoje de manhã eu vi um pássaro preto, na cumeeira da casa, que não é deste lugar. Eu nasci aqui e nunca vi um bicho daquele. Deve ter vindo com elas. – completou Zé João.

Fez-se silêncio para ouvir a Irmã Penha:

- Não pensem que essa luta começou agora e começou aqui. Essa luta é do tempo da fundação do mundo. Vou até trocar o nome da nossa igreja de Nova Cruzada para Cruzada do Bem, porque essa batalha não tem nada de nova. Essas duas que chegaram agora na cidade são apenas uma versão moderna do mal que sempre assolou a humanidade. E não podemos, os cidadãos de bem, assistir passivamente à instalação do pecado em nossa cidade.

Após muitos améns e palavras de ordem indignadas, ela prosseguiu:

- Sargento Donizete, o Brasil está mudando, não temos mais que aceitar essa pouca vergonha. Legalmente, o que se pode fazer?

- Não é assim tão fácil não, irmã! As mudanças levam muito tempo. No Rio de Janeiro a gente vê isso em cada esquina! Isso não é mais motivo pra prender ninguém. Quisera Deus que fosse! E se a gente prende, acaba massacrado pela imprensa e pelo pessoal dos “direitos humanos”. É o final dos tempos!

- Mas não podemos nos calar, Sargento! Querem nos empurrar goela abaixo essa ideologia de gênero! São pedófilos, corruptores de menores, estupradores! Deveriam ser queimados na fogueira como antigamente, ou apedrejados como no velho testamento! Mas a culpa é nossa, dos cidadãos de bem que afrouxaram! A culpa é das igrejas que deveriam dar o exemplo, mas são as primeiras a acoitar esses pecadores. Pecadores, não! Pecadores somos nós. Eles são demônios!

- Irmã, se a senhora quiser a gente dá um jeito nelas! – falou o Zé Pedro, que nunca falava nada.

- Vocês três se acalmem! Não façam nada sem ordens minhas ou do Sargento! – advertiu Penha.

- É bom mesmo, Irmã, controlar os seus pupilos! Não adianta nada ter razão, se fizermos a coisa errada! – acrescentou o Sargento com a impaciência de sempre ao falar dos três Josés.

O tratamento quase civilizado que Donizeti hoje dispensava aos Josés era mais um milagre da Irmã Penha. No passado, por pequenos furtos enquanto ainda adolescentes, o sargento, que não gostava de burocracia, preferiu aplicar-lhes uma surra memorável com auxílio de outros cidadãos de bem. Os três sumiram por um tempo, mas, já adultos, recomeçaram com crimes mais graves, como roubos e invasão de domicílios. Como não podia provar, o Sargento resolveu executá-los e só a interferência milagrosa da reverenda o impediu. Ele costuma dizer que aquela santa mulher salvou a um só tempo a vida dos meliantes e a sua alma.

Antes de encerrar a reunião, Penha deu instruções aos que trabalhariam nas barraquinhas da festa, advertindo-os de que, além de orações e trabalho, precisavam contribuir financeiramente porque salvar almas custa dinheiro. Lembrou, ainda, que todos devem estar vigilantes porque são soldados na guerra do bem contra o mal.

(Continua em 15 dias)


Comentários

branco disse…
coisas da vida, pré-conceitos definidos e nunca assumidos em sua narrativa que parece ondas. aqueles movimentos que nos trazem surpresas. vamos pra próxima parte (ansiosamente aguardada).
Zoraya Cesar disse…
Albir, estou ficando seriamente preocupada com o final dessa história.
Até pq nunca nada de bom nasce da ignorância, da intolerância e de uma lábia poderosa vinda do Mal. Ai, ai, ai
Albir disse…
Obrigado, Lord Branco, por sua sempre generosa expectativa.
Obrigado, Zoraya, pela preocupação que nos assola dentro e fora da ficção.