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CONGESTIONAMENTO >> Whisner Fraga

desce do carro. atrás uns cinquenta carros e à frente uns oitenta.

sente-se como a moça do dauphine, do conto de cortázar.

fisga um cigarro. a brasa ilumina as rugas e o cansaço. não estaria ali se não fosse.

a madrugada chupa a fumaça que o desconforto assopra no mundo.

não quer que um desconhecido se aproxime e declame enganos.

o neon do posto exala a prática do mercado.

uma moça passa e acena da bicicleta.

volta para dentro, liga o tocacd. bob dylan.

where have you been, my blue-eyed son?

alguém buzina e ele se alvoroça.

empunha a chave e, prestes à ignição, descobre que nada mudou.

arranca o celular do bolso e decide que está preocupado, que quer falar.

se não fosse tarde.

um velho aparece ao lado da porta e bate de leve no vidro.

dylan, hã?

o quê?

bob dylan: muito bom.

se não fosse tarde.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
uau. Só isso. Tudo isso. uau.
(qual é o conto do Cortázar?)
(amei esse estilo seu)
(e amei a frase:a madrugada chupa a fumaça que o desconforto assopra no mundo)
(e amei o final)
Carla Dias disse…
Impossível pra mim ler textos seus, feito este, e não imaginar a cena e me pegar lá, de observadora. Participante ativa da cadência da sua escrita.
whisner disse…
puxa, obrigado. Zoraya, é do livro "Todos os fogos o fogo", é o primeiro conto.
Albir disse…
Carla tem razão. Fica fácil acompanhar a cena. E senti-la.