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AQUIETE-SE >> Carla Dias >>



Aquiete-se.

Habite-se por um instante, de forma que o tempo não lhe cause pânico por causa das rugas, das rusgas, dos apartamentos não quitados, dos títulos não recebidos, dos projetos inacabados: afetos & afins. Que não tema as ideias que verbalizou no quando a incapacidade alheia de compreender diferenças se fez disponível. Nada como encarar defensores apaixonados pela complexidade do que nem nasceu para ser labirinto, e que desfilam seus penduricalhos de assuntos trazidos à baila, nos quais jamais seremos capazes de nos aprofundar, não eu, tampouco você, porque são rasos e apreciamos a profundidade que seduz o interesse.

Aprofundar é necessidade para nós. Sei disso, ainda que você disfarce, apenas para se enturmar ao ritmo dos desinteressados, a fim de observá-los mais de perto, porque a distância que eles mantém do que pulsa o espanta.

Das beiras e do raso vivem aqueles que não se importam de ir com a maré. Nada contra os tais, tampouco contra a maré. Só dispensamos o desespero que abarca os que sabem a diferença entre ser levado em vez de escolher caminhos.

Há tantos, meu caro... caminhos. Escolhas acontecem aos tantos, mas poucas são capazes de nos levar a enveredar por aquele momento que chamamos de catarse, vez ou outra, de alívio. Mas acontece de elas nos levarem aos caminhos, aqueles que nem mesmo desconfiávamos que apreciaríamos ou deveríamos trilhar. 

Aquiete-se, mas não de esquecer a si naquele lugar confortável, que permite que a vida aconteça a sua volta, enquanto você a observa, tão desinteressado que não percebe quando ela lhe estende a mão e você a nega, em um suspiro de longevidade significativa, desferido apenas para interferir na insistência de um silêncio incômodo.

Não peço que se torne aquele que observa por curiosidade desdenhosa a respeito do nada. Sugiro que siga, sob a batuta do movimento – da dança, das inquietações, do ritmo das ancas, dos desejos, dos sentimentos livres de medos, das despedidas, dos recomeços.

Então, aquiete-se de desfazer segredos desnecessários, serenar penúrias, desenredar infortúnios roteirizados. Para escutar os ventos, a cantoria, os batuques de arrepiar contentamento, as lamentações sendo escoadas, durante a acolhida. Os sons de quem mergulha para emergir despido da fatalidade de evitar caminhos, de sucumbir às portas sempre fechadas, obedecer às janelas emperradas.

O som da aventura de pertencer à vida.


Imagem: Stairway and tree © Gertrude Abercrombie

carladias.com


Comentários

Unknown disse…
Leio suas crônicas desde 2016.
Seus textos são um aprazimento necessário.
Sandra Modesto disse…
Que lindo, Carla! Em tempos tão sombrios, aquietar é o verbo da vez! Da hora!
branco disse…
como os anteriores. muito bom, melhor que muito bom !
Paulo Barguil disse…
Obrigado, Carla, pela refrescante crônica-conselho, a qual chega, para mim, em ótima hora... ;-)
Carla Dias disse…
Anônimo... Obrigada por incluir a leitura dos meus textos na sua história. Fiquei feliz por eles lhe chegarem como aprazimento.

Sandra... Obrigada, muito e sempre.

Branco... Obrigada, mais que obrigada.

Paulo... que bom que minha crônica tomou forma de crônica-conselho. E obrigada por me incluir na sua crônica-reflexão.
Zoraya Cesar disse…
Linda crônica, belo texto e um conselho de valor inestimável. obrigada, Princesa das Palavras!