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ATREVIDOS >> Carla Dias >>


Ele já entendeu que a vida é breve. 

Espera, então, que na sua brevidade, ela também seja intensa. Na sua brevidade, ela faça sentido. Na sua brevidade, despeje-se a justiça de retrair violência e se desembarace o embaraço contido no olhar que se surpreende com a paisagem.

Esse tal viu muitos planejarem eternidades. Amanhã: construir. Depois de amanhã: consertar essa edificação de desejos mal desejados. Porque ele acredita que, se há algo que o ser humano sabe fazer com maestria é desejar indesejados. É desejar definido, sem espaço para a dilatação desses desejos. Desejar de acordo com o desejo do outro.

Contudo, ele é um racional por escolha e dedicação.

Ontem, foi breve a manifestação a ele dirigida. Breve e única. Não uma conversa, que era o que esperava, mas uma palavra. O que uma pessoa faz com uma palavra, quando está mergulhada na urgência por diálogos? Nem houve tempo de retrucar, de devolver a inconveniência da palavra proferida, porque a continuidade dela se desdobrou em partida.

Quem diz uma palavra e parte, quando o outro necessita de diálogos e presença?

Às vezes, é quem sabe o que tem a dizer e diz. Nem todos têm esse talento.

O lado racional dele - que pretende que deixe de ser lado para assumir papel de inteiro - sabe que é assim: a vida urge, então, cuidado para longas conversas com quem não interessa, sobre assuntos que não inspiram a repensar decididos e suspensos, e não oferecem o que seja de levezas.

Aqui estou, mais uma vez, depois de tantas. Sou a narradora intrometida, capacitada pelo atrevimento a discorrer observações sobre personagens que deveriam falar por eles mesmos, valendo-se de mim como um mero instrumento de condução de informações. Mas como não me intrometer? Há tanto acontecendo em cada um deles, que é impossível não me encantar e me desapontar e me enternecer, enquanto tudo em mim é visceral e anárquico, diante do que chega raso neles e então se transforma em algo espetacular.

Feito uma festa nos arrabaldes da ousadia.

Ele mesmo é um acostumado a se observar de maneira que me surpreende. Observá-lo é como frequentar a escola da vida. Caminhar por seus jardins, banhar-se em seus vulcões. Ele é dos capazes de inquietar narradoras incapazes de não perceber o atrevimento de personagem a desarrumar regras e criar cenários que destoam dos originais. 

Porque a vida é de brevidade avassaladora, quando se trata de passeios intermináveis por projetos nos quais não acreditamos... ele, tampouco eu. Sendo sua narradora, confesso que, vez ou outra, desejo viver o que ele vive. Às vezes, viver com ele o que ele vive.

Ser personagem companhia de personagem outro.

Ele que compreende que a vida é fielmente breve aos incapazes de compreender que, apesar da necessidade de executarem tarefas, em benefício da própria sobrevivência, muitas vezes elas são somente isso: tarefas.

Isso: o cheque do mês. 

Isso: a responsabilidade atendida.

No mais, a vida concede a ele – e a todos que são capazes de identificar a oportunidade –  o direito de enveredar pelo o que os deleita. 

Do alimento ao sono profundo. 

Da dança pela sala à coreografia de corpos nus noite adentro. 

Do aprumar ao realizar o sentimento.

Racionalmente, ele qualifica suas urgências, o que acho de uma lucidez que só aos excêntricos cabe desempenhar. Houve vez em que passei horas a repetir suas falas, como se tivesse de decorá-las para quando pisasse no palco da biografia dele. Eu quis pisar naquele palco. Quis alçar aquele voo. Quis vestir aquela pele. Só que não me cabe desempenhar biografias, pois sou narradora, não o sujeito que se sujeita a essa correria toda que ele entende por vida.

Não importa que a sua realidade seja repleta do que o desafie, o tempo todo, a perder a paciência e os modos. Não importa cada soco no estômago que a realidade já lhe deu, e aqueles que, ele sabe, ela programou para mais tarde. 

A vida é breve.

Espera, então, que ela o ajude a não se iludir com o contentamento encenado, mostrando a ele o que vem depois, o que se esconde, porque necessita da descoberta para vir à tona, repleto de alegorias: sabedoria, mudanças, prazer...

Em tempos em que parece pecado ser feliz - de tão violentos e sombrios andam os seres humanos -, ele se envereda pela brevidade, arrastando suas urgências consideradas, pela maioria, como pequenas insanidades combinadas à uma incapacidade ferrenha de não reconhecer o que precisa ser reconhecido.

Essa narradora aqui precisa advertir: esse negócio de precisar ser reconhecido tem nada a ver com o seu ego. É mais sobre necessidades básicas que, de resto, cada um se vira como pode. É assim para as pessoas. É assim para os personagens. É assim para narradores. 

Ele constrói momentos com o que tem. Há dias em que se vale das alegrias, em outros, não reluta em se jogar nos braços das tristezas. Não me importo de chorar com ele. Não me importo de gargalhar com ele. Não me importo de conviver com ele, tendo de detalhar suas experiências, como se fosse um eco da sua existência.

Ser eco nem sempre é agradável, mas acontece de ser gratificante.

Dia desses, sairei desse lugar de narradora intrometida platônica. Irei até ele e perguntarei sobre o que já sei que o abala e o fascina. Eu o escutarei discursar mentiras sobre as verdades que conheço. Saberei que são invencionices que se escoram na construção de uma defesa frágil de si mesmo.

Nada como temer a autossuficiência. Esse negócio de se bastar, mesmo quando busca pelo outro.

Neste dia, contarei a ele - narradora intrometida, escolada na existência dele - que sim, a vida é breve, embora aconteça de ela ser longa o suficiente para nela caberem todas as histórias que ele se dispor a viver, e ainda aquelas que terá de aceitar como presente.

Atrevidos que somos, talvez possamos passar um tempo a dividir a mesma paisagem-cenário.

carladias.com

Comentários

Anônimo disse…
Carla Dias é nitroglicerina na veia. Literatura fantástica! Como não não gostar?

Abraços,
Enio
Zoraya Cesar disse…
Metade de mim ficou incomodada. A outra metade, estimulada. Eu inteira, encantada. É Carla Dias fazendo o que faz de melhor: intrometendo-se nos nossos escaninhos empoeirados e passando tudo a limpo. Belíssima declaração de amor, essa crônica. Muito mesmo.
Albir disse…
Impossível não acompanhar Carla nessas viagens poéticas!