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VALER A PENA >> Eduardo Loureiro Jr.

"É como uma dor no corpo
que faz o menino crescer."
(Fabiano dos Santos)

Não sei você, caro leitor, mas eu não gostava da expressão "valer a pena" — e talvez ainda nem goste...

Desde que me lembro por gente que tenho baixa tolerância à pena, à dor, ao sofrimento. Se alguém me dizia que determinada coisa valia a pena, já disparava em mim um alarme: "Eduardo, você precisa ver esse filme, vale a pena". Não, eu não preciso ver um filme em que haja uma pena a ser valida. E, quando era eu a indicar alguma coisa para alguém, e a pessoa me perguntava, "vale a pena?", eu respondia: "Não há pena, meu amigo, é um prazer só. Vá conferir!".

Mas não existe sufixo PRAZER, nem GOZO, nem RISO nesta Terra. Aquele que ama não é amaRISO, é amaDOR. Aquele que canta não é cantaGOZO, é cantaDOR. Aquele que pensa não é pensaPRAZER, é pensaDOR. Aterrissou, tem que pesar.

Quando se é jovem, bem jovem, a gente pensa que pode escapar à dor, que pode pegar um desvio, tomar um atalho. Com o tempo, a gente descobre que está só adiando o inevitável: a dor. Porque a dor que a gente não quis ter não se dissolve no ar, vira um arDOR que nos pega mais à frente na estrada para fazer os devidos ajustes.

Não vou dizer que tudo precise de dor, mas eu mesmo, em minha vida, só tenho um exemplo de coisa não-dor: uma certa amizade que tenho, amizade sem entreveros, sem lero-leros, sem mas-eu-queros. Essa amizade é a exceção de uma regra, e a regra é: tem que doer.

Dizem que é possível não aprender pela dor, desde que se aprenda pelo amor. Mas, cá entre nós, que Drummond não nos escute, até amar se aprende é doendo.

Depois de tanto desvaler a pena, e de depois dar de cara com ela, a mesma, desvalida, meses ou anos depois, já estou cansando da brincadeira de esconde-esconde e começo a preferir pagá-la logo, à vista.

Por que falo disso hoje, nesse domingo bonito, com sol ou com chuva? Porque os lançamentos do livro ACABA NÃO, MUNDO [leia abaixo a bela crônica da Debora sobre o lançamento em São Paulo] têm sido um grande exercício de "valer a pena". Cada precioso sorriso, cada impagável abraço entre autores ou leitores, tem a marca de pelo menos uma dor.

Tenho ouvido que já estava mais do que em tempo de sair o primeiro livro do Crônica do Dia. E a demora, eu sei, se deve unicamente à minha resistência a "valer a pena". O livro ficou pronto porque eu me aprontei.

De vez em quando, ainda me pego pensando na pena, e tenho que me despegar para sentir o valor. Tá doendo? Tá. No corpo, na mente, no peito, no além. Mas deixa doer. De penas são feitas as asas que eu voo bater.


Comentários

Debora Bottcher disse…
Eduardo, Eduardo... Dor é um processo inevitável... E algumas dores, afinal, valem muito a pena. :)
Um beijo, moço.
A dor é um mecanismo de proteção que o nosso corpo sabiamente tem. Imagine se ao quebrar uma perna ou cortar o dedo não sentíssemos nada? A presença da dor evita a automutilação e garante nosso maior tempo de vida, faz entender que se eu botar a mão no fogo eu vou me queimar... Dor é aprendizado.
Eduardo,eu acho que tudo dói mais para quem se dedica mais.
E você é uma pessoa que mergulha em tudo, inclusive nas palavras extraindo delas o real sentido.
Você, que é um sabeDOR sabe bem que o que vale mesmo são esses momentos suficientes para se tornar inesquecíveis.
Parabéns, mais uma vez e sempre por esse objetivo realizado.
E obrigada por não ter desistido dele. :)
fernanda disse…
Eduardo, li seu texto no avião, quando eu estava prestes a fazer uma das coisas mais difíceis (e talvez até dolorosa) pra mim, que é voar. E, além dessa, foram muitas outras dores. Desde o início, quando tínhamos que escolher entre os nossos textos e os textos dos colegas que seriam publicados, até agora, quando realizamos esses lançamentos e depois temos que nos despedir dos amigos.
Mas te digo que valeu a pena porque, desde que eu era criança, sempre tive uma concepção diferente dessa expressão. Sempre que alguém me falava que "valeu a pena" eu imaginava um monte de pena (de ave mesmo) caindo pelos ares. E um dos objetos que mais gosto, é aquela pena utilizada antigamente nos tinteiros para escrever. Estou, inclusive, planejando tatuar uma dessas nas costas, pra simbolizar minha afeição pela escrita. Então, nesse caso, preservo meu pensamento infantil para acreditar que valeu essa nossa pena de escritor.
E, mesmo com dor, estou aDORando!

Beijos!
Debora, que venha o inevitável. :)

Tatá, quer dizer que você também é a dona dos conselhos? :) Muito bom conhecê-la pessoalmente.

Marisa, só inventando uma palavra... você é delicaDORa. :) Grato sempre.

Fernanda, sempre que a dor aparecer, vou visualizar a sua pena. Grato por esse recurso. :)
Engraçado, Edu, porque eu, ao contrário de você, desde sempre e para quase tudo digo: vale a pena. Ou não, claro. Mas se vale a pena, pago com prazer - a pena, as penas, porque vale. Um tal Pessoa dizia que tudo vale a pena se a alma não é pequena... ixi, acho que eu até falo disso num dos meus textos que estão no livro.
Eu nem sei como te agradecer por tudo isso. Já faz tempo que fechei as portas para a escrita e suas penas, e de repente eu me vi ali no meio de vocês e eu fui tão feliz, tão tão feliz!
Obrigada.
Beijos
Chris
Chris, ver sua felicidade sábado passado valeu MUITAS penas. :)

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