sexta-feira, 14 de outubro de 2011

HISTORINHA NADA NOBRE >> Zoraya Cesar

Semana passada, Cayetana Fitz-James Stuart, a Duquesa de Alba, casou pela terceira vez, agora com um homem 24 anos mais novo. Considerando os 85 anos da duquesa, seu novo marido não pode ser acusado de playboy; no máximo, playold. Dizem que os filhos dela foram contra a união por conta da idade provecta da dita senhora e por temerem que sua enorme fortuna lhes escapasse por entre os dedos. Se foi amor, sexo, loucura, interesse, conversamos na próxima crônica.

Hoje quero contar uma historinha que esse casamento me fez lembrar. Não esperem contos de fadas. Histórias que envolvem dinheiro, idades e casamentos geralmente não o são. 

Corria, pedalava, nadava. Tinha 80 anos, uma saúde de ferro e um gênio insuportável. Diziam, na família, que a primeira mulher, mãe de seus quatro filhos, havia morrido só para não viver no mesmo mundo que aquela criatura intragável, que conseguia irritar um monge de pedra. Estragar prazeres e autoestimas era sua especialidade, quase um hobby.

Agia assim com os filhos, netos, sobrinhos, subalternos. Depois de perder alguns bons profissionais, um com 20 anos de casa, o condomínio do prédio onde morava ameaçou multá-lo por cada porteiro que pedisse as contas. E as empregadas? Não ficava uma. A única a durar foi uma surda-muda. E mesmo essa ameaçou ir embora, quando ele, muito seriamente, fingiu que estava morrendo engasgado, só para se divertir às gargalhadas com o desespero dela.

Durante a festa de casamento de um dos filhos, simulou um ataque do coração, e continuou a encenação até a ambulância ser chamada, estragando todo o evento. De outra vez, numa reunião de aniversário, escandalizou a tia da nora, contando-lhe casos de bordel e revelando segredos abomináveis da família. A velha senhora deixou de frequentar a casa da sobrinha.

No trabalho, só era suportado devido à sua grande eficiência. Quando ele se aposentou, a firma inteira programou um Natal fora de época, trocando presentes e cartões de felicitações. Um que fez muito sucesso dizia: “A aposentadoria é a prova de que Deus existe. Aleluiah!”.

Mas a família continuava a visitá-lo, a convidá-lo para as festas, a fingir achar graça de suas brincadeiras horrorosas e de mau-gosto, a tratá-lo bem e até a chamá-lo para padrinho de alguns desafortunados rebentos. E por quê?

Porque ele tinha uma grande, ou melhor, duas grandes qualidades: era muito, muito, muito rico (não tão rico como a Duquesa, mas, ainda assim, muito rico); e estava com 80 anos. Só essas qualidades? Tá bom,vai mais uma: estava meio adoentado. A saúde de ferro dava sinais inequívocos de ferrugem.

A família, que se detestava, permanecia unida por conta dessas excelsas qualidades, e não media esforços para agradá-lo, todos esperançosos de que alguma coisa amolecesse o coração do velho. A enorme fortuna seria herdada pelos filhos e cada um queria ter o maior quinhão.

O velho Dr. Rui (aceitam-se trocadilhos infames, mas pertinentes), raposa velha, percebia tudo e aplicou um golpe de misericórdia naquela farsa toda. Casou-se. Com uma jovem 61 anos mais nova, que ele chamava de “minha Coelhinha”, e que coelhava por profissão numa elegante casa de massagens do Leblon, onde se conheceram.

Como em casamentos tardios (após os 60 anos), a lei brasileira só permite o regime de separação de bens, a família não ficou muito preocupada. Deixa ele se divertir, diziam, quem sabe no entusiasmo ele tem um ataque e...  Havia outro fato a animá-los: a coelhinha fazia jus ao apelido e saltitava animadamente com coelhões outros que não o excelentíssimo Dr. Rui. Ora, pensavam, ele não vai deixar um tostão para uma mulher que o trai tão descaradamente! E relaxaram. Relaxaram tanto que, quando a doença dele se agravou, tentaram, por todos os meios, fazer com que a diligente coelhinha fosse menos cuidadosa com os remédios, os banhos, e parasse até de tentar animá-lo por meios outros que o pudor me impede de revelar.

Estavam muito entusiasmados com a possibilidade de matar dois – talvez três – coelhos com uma cajadada só: ele morre e nós ficamos ricos. E ainda nos vemos livres de ter a família mal falada por conta dessa... Oryctolagus Cunículus, digamos.

Mas o dia chega para todos e com o Dr. Rui não foi diferente. A família mal conseguia disfarçar sua alegria. No velório, só a coelhinha chorava, realmente sentida, de mãos dadas com seu sobrinho (ou o que fosse, quem se importa?), que aportara por lá uns dias antes.

Durante a leitura do testamento, no entanto, demonstraram sua verdadeira face. Destrataram a viúva, riam entre si, debochados.  Agora, seu velho chato, ranzinza e mesquinho, bem feito, você está morto e nós vamos ficar com todo o seu dinheiro e nos livrar de sua “esposa”. Um horror.

Bom, vamos ao que interessa. Eis aqui a íntegra do sucinto e tão ansiado testamento:

“Bando de interesseiros, parasitas inúteis. Me aguentaram pensando na minha fortuna, não foi? Já que, por lei, sou obrigado a deixar meus bens para vocês, corja de malandros, escolhi a parte que lhes cabe: um prédio interditado pela Defesa Civil; outro, invadido por famílias de sem-teto, que estão ganhando o usucapião na justiça; uma firma que está sofrendo um processo por falência fraudulenta. Vocês terão de administrar todos esses bens por 10 anos antes de colocar a mão em algum dinheiro. Se é que vai sobrar algum, e se vocês não se matarem antes, raça de víboras. E para minha Coelhinha, que cuidou de mim o tempo todo, deixo o lucro das minha ações. Ela vai ficar cheia de dinheiro, e vocês, de problemas”. E terminava com sua risada odiosa, para desespero dos golpistas, perdão, da família, que só pensava nos anos perdidos e na fortuna que mudava de mãos. 

A tudo isso acompanhei, ninguém me contou não. E não se preocupem com finais redentores. Se o Dr. Ruim, perdão, Rui, não prestava, a família, menos ainda. Até hoje se processam uns aos outros, trocando ameaças cada vez menos veladas.

E a Coelhinha? Vive feliz e solteiríssima da vida – não é boba nem nada, e aprendeu muito com o velho – numa vila na Itália.


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8 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Que delícia de história, Zoraya! Quer dizer, que delícia de narrativa. A história é uma desgraceira só. rsrs. Abraços

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Lembrou um filme que vi essa semana: "O Presente" ("The ultimate gift"), em que o velho rico também apronta em seu testamento. Só que ele apronta sem vingança, e o resultado é um final feliz.

Aretuza disse...

Não sei quem é mais insuportável, se a família do Sr. Rui ou se le mesmo. Sua história vai render boas discussões, Zoraya, obrigada!!!

Marisa Nascimento disse...

Zoraya, adorei a sucessão de fatos da sua narrativa. Leitura muito agradável, diferente do Senhor Rui e familia... :)

Wanderley Leimgruber disse...

Tenho uma amiga que diz 'a gente não rouba nada de ninguém, a gente herda', para se referir aos nossos defeitos e virtudes... Parece que vc comprovou isso e nos relatou deliciosamente. Parabéns!

Érica disse...

Dizem que quem não herda, não sai da... pior... rs Mas tem gente que vive na pior a vida inteira, por conta do seu caráter e não haverá de ser uma herança (financeira) que irá mudar isso... Parabéns, Zozô, pela história divertida, que retrata a vida de muitos Rui(n)s por aí... Bjs

Alexandre Durão disse...

Zoraya, querida. Ouvi de um mestre da literatura o seguinte: temos que amar e defender nossos personagens, por mais terríveis que sejam. Pelos comentários, você foi muito bem sucedida. Beijos e obrigado por partilhar suas histórias conosco.

Aglae Lima disse...

Gostei muito, você escreveu de forma que a gente vai até o fim, degustando os meandros e realmente para saber o fim e se divertindo com o texto. Parabéns!
Beijos
Aglae