sábado, 1 de outubro de 2011

CONVERSA AO PÉ DO OUVIDO DA BRUNA...
E DE QUEM MAIS VIER
[Maria Luiza de Castilho]

Oi, Bruna, tudo bem? Sua mãe me disse do seu desprazer com o estudo de Filosofia. Fui professora durante toda a minha vida e regi essa disciplina nos últimos vinte anos. Aprendi com Spinoza que você vive um afeto triste. Resolvi por isso vencer a barreira da ausência de relações sociais entre nós para sussurrar em seu ouvido algumas palavras de conforto que só “uma bela senhora, a Filosofia” pode nos oferecer (assim nos garantiu outro pensador no fundo de sua masmorra medieval).

“Simillia simillibus curantur” é o lema da escola homeopática – os semelhantes curam-se pelos semelhantes. Então “Luz! mais Luz!”, como rogava Goethe no seu leito de morte. Vamos usar a razão para amenizar as dores que a Razão lhe está causando?

Assim, Bruna, começo reconhecendo seu direito inalienável de escolher, fazer opções, ter preferências. Dito isso, me eximo da responsabilidade de impor nossa conversa. Pare de me ouvir quando quiser...

Agora, reconhecendo seu amplo direito pessoal, posso ver o que há de universal nele. Confesso que também poderia ter feito o caminho inverso: estudado as características gerais de nossa cultura para justificar seu comportamento (sobre o método indutivo-dedutivo você já deve ter ouvido falar, não é mesmo?). “O que há de mais pessoal é o que há de mais geral”. Isso foi dito no contexto da literatura, mas serve para nós aqui também: quem fala de sua aldeia, fala do mundo!

Por favor, um pouquinho de paciência. Essa longa justificativa foi para validar meus argumentos.

Agora um convite para caminharmos juntas. Vamos passear pela cultura de nossa época para perceber a marca que ela imprimiu em nossa razão, notadamente na dos jovens, portadores da chama olímpica do novo.

A primeira coisa a observar é que não existe apenas uma razão. A racionalidade humana é feita de quantas razões sua razão inventar. Por isso posso confiar na razão filosófica. Ela faz parte de nós mais do que os celulares, ela viabiliza nossas trocas mais do que as redes sociais.

Ela está dentro de você, Bruna. A humanidade levou mais de dois milênios forjando essa característica do seu espírito. Quando viajo de ônibus, ouvindo as conversas alheias, identifico acepipes de Platão, dores de Santo Agostinho, luzes de Hegel, gritos de Marx, delírios cuja única inspiração só pode advir de uma vulgata de Nietzsche. Apesar das referências, nada me anima, pois “não se pode agir e pensar como num sonho”. É preciso pensar o que se diz, Bruna! A inclusão da Filosofia no currículo escolar pretende isso – acordar nossa razão, tornar-nos mais conscientes da influência das idéias circulantes que se falam por nós.

Reconheço que pulei algumas etapas. Ainda é cedo para conclusões. Vamos continuar o passeio?

Em cada fase histórica uma razão predomina. Assim foi, por exemplo, na Idade Média. O conhecimento da “razão divina” era absolutamente incontestável. Essa certeza era porventura certa? Pensava-se que sim e muitas almas estariam sendo salvas quando se queimavam corpos nas fogueiras da Santa Inquisição. A Filosofia era serva da Teologia.

Já na Idade Moderna, a classe emergente cultuava a poderosa razão que lhe trouxera a ciência, farol que lhe abria os caminhos, iluminava sua vida. Mas, ó dor!, apenas mudávamos de tirano! Séculos de perversa escravidão se passaram até que a subjetividade humana fosse reconhecida... O resto você conhece.

E agora, José? Como estamos?

A lógica de acumulação de capital exige dia após dia, aceleradamente, o progresso da técnica. Em consequência, o instante (esse “momento incapturável da duração”) nos aprisiona. Sim, não somos donos da técnica, ao contrário, ela é que nos possui.

Finalmente, o que pude observar e trouxe para lhe dizer é que fomos escolhidos para pensar, falar e agir rapidamente (em vez de reflexão, reflexos), para identificar siglas em vez de conceitos, para comunicar nada a ninguém (pois milhares de seguidores não formam um só amigo de verdade), para nos empaturrarmos de lixo informativo enquanto nos desnutrimos de ideias e nos perdemos de nós mesmos e viramos unidade do mercado consumidor.

Seria irresponsabilidade de minha parte dizer a uma jovem como você que não se adapte, que não desenvolva as habilidades requeridas para sua inserção no mundo do trabalho, que não se “forme” na sua cultura, que não sobreviva hoje, agora. Mas seria criminoso não conscientizá-la do processo histórico que a trouxe até aqui, das perdas evidentes que a sua humanidade vem sofrendo junto com os ganhos extraordinários de conquistas jamais previstas pelo Homem, enfim, instrumentalizá-la (não é assim que se diz?) para buscar um sentido essencial para a sua vida quando nada mais fizer sentido algum. Nesse dia em que, acredite, chega sempre para cada um de nós (pois a consciência crítica é destino do ser), você verá que a “filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes!”.

Faça sua sorte!
Abraços da Maria Luiza

BULA

Indicação: O presente texto é indicado para colegiais que apresentem quadro de intolerância à razão filosófica e deve ser aprovado pelo seu orientador.

Posologia: Recomenda-se releitura seguida de discussão na medida do possível, pois a razão é dialógica, guardando-se para repetir a segunda dosagem após alguns anos. O tempo de espera se dará em função das experiências e das necessidades do leitor.

Contra-indicações/Efeitos colaterais: Raramente provoca ira e/ou rejeição. Caso isso aconteça, o fabricante deverá ser alertado para o necessário pedido de desculpas (ressarcimento de danos morais). Deve-se alertar, no entanto, para possíveis erros de grafia que acarretariam prejuízo ao aproveitamento da disciplina de Língua Portuguesa.

Veja, Bruna (posso lhe chamar de amiga depois de tudo isso?).

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3 comentários:

Debora Bottcher disse...

Acheguei-me com Bruna e compartilho dessa belíssima reflexão, Maria Luiza. A Filosofia nos 'salva' quando nos dá argumentos para entendermos nossos conflitos internos. Os Filósofos e Pensadores, antes de nós, trilharem esse caminho para nos abrir passagem desse Entendimento. Pena que demoramos tanto a compreender isso... A vida, talvez (só talvez) fosse menos penosa se soubéssemos o que só conseguimos compreender, muitas vezes, tarde demais...
Obrigada pelo texto.
Beijo pra vc.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Maria Luiza, nada como um bom papo filosófico. Grato por ele.

Carla Cintia Conteiro disse...

Crônica gostosa de se ler, mas mais que iss, é um texto interruptor, daqueles que acendem luzes. Obrigada, Maria Luiza.