sexta-feira, 28 de outubro de 2011

DOIS LADOS DE UMA PORTA >> Zoraya Cesar

Parte I – o lado de fora

Ele chegou decidido a contar toda a verdade. Passara o dia inteiro preparando um discurso comovente, que gostava muito, muitíssimo dela, mas estava insatisfeito; não sentia mais desejo, apenas amizade. E que, depois de oito anos de casamento, poderiam se separar como amigos, civilizadamente.

Reconhecia que andara distante, mas a culpa era dela, que não suportava os amigos dele, que não o acompanhava no vôlei de praia, que teve um ataque histérico quando ele não reparou nas novas mechas louras do cabelo. Mechas! Quem reparava em mechas!? E o aborrecia com essa mania de querer viajar (mas, como? E deixar a amante sozinha? Que insistência irritante!), que teimava em tentar “discutir a relação” em vez de deixá-lo ler o jornal em paz...

Enquanto aguardava o elevador, foi se sentindo mais e mais tranqüilo. Afinal, o que podia fazer? Era homem, e a namorada lhe proporcionava prazeres dos quais sentia falta. A emoção do encontro às escondidas, a cumplicidade dos amigos, as fantasias sexuais, tudo o excitava, sentia-se vivo. Ainda mais que ela sempre dizia quanto o achava incrível, másculo, inteligente, não cansava de elogiá-lo, dizia sentir falta dele, queria-o só para si, todas essas coisas que os machos gostam de ouvir de uma mulher. Por isso resolveu sair de casa para morar com ela.

À medida que o elevador subia, resolveu que era melhor não contar toda a verdade coisa nenhuma. Para quê? Detestava escândalos e os vizinhos iriam ouvir tudo, pois certamente haveria gritos, choro e ranger de dentes. Pior, ao final, ela imploraria que largasse a amante, se jogaria a seus pés, agarraria suas pernas, num espetáculo constrangedor. Coitada! Que soubesse do caso por outras vias, quando já estivesse distante e seguro na casa da nova mulher. Bem nova, aliás.

Abriu a porta do elevador e concluiu que seria muito radical sair de casa, tantos anos de casamento, talvez fosse melhor continuar tudo como estava.

Era sempre assim: chegava ao prédio disposto a contar tudo, subia o elevador disposto a contar só meia verdade e parava no corredor disposto a deixar para outra vez. Afinal, por que abandonar tudo? Sua televisão, suas coisas, passar por advogados, papeis, separação, divisão de bens, divisão de amigos, divisão de corpos, ficar apertado na casa da amante, como iria explicar para sua mãe que estava largando um casamento de oito anos? E se não desse certo e ele quisesse voltar para casa? Para onde voltaria?

Melhor pensar com mais calma.

Ao virar o corredor, congelou, incrédulo: suas malas, alguns livros, outras coisas, tudo arrumado do lado de fora da porta. E, gritando num envelope vermelho, pregado na televisão, o que parecia ser um aviso.

Parte II – O lado de dentro

Primeiro ela chorou, chorou, chorou. Depois tentou reconquistá-lo. Tentou entender onde tinha errado. Tentou passar por cima e perdoar. Tentou seduzi-lo. Tentou conversar.

Pintou as unhas com as cores que sabia serem as usadas pela amante, cortou e fez mechas nos cabelos iguaizinhas às dela também, ainda deu diversos sinais de que sabia de tudo, esperando que ele fosse homem o suficiente para confessar e tentar salvar o casamento.

Quando cansou de tudo, de tanto bater e só encontrar portas e janelas fechadas, de invadir e só encontrar uma casa vazia, desistiu. Desistiu de tentar participar, de tentar agradá-lo e de tentar entender. Deprimida, deixou de fazer as coisas que sempre detestara e só fazia porque o amava: acompanhá-lo à praia para vê-lo se exibir no vôlei, de encontrar os amigos dele para aquelas conversas vazias e sem sentido, de chamá-lo para viajarem juntos, quando ele só queria passar o fim de semana em frente à televisão de LCD 40 polegadas... Enfim, desistiu.

Um dia, sentou, já desidratada e magra, e pensou na vida. Estava casada com um homem mentiroso que arranjara uma outra qualquer - todos os amigos dele sabiam, os safados -, que não reparava mais nela, que não tinha qualquer interesse em manter a relação, que mal trocava palavras corriqueiras, estava sempre irritadiço e só transava com ela quando chegava impaciente em casa, num sinal evidente de que não pudera encontrar a amante e precisava se livrar do acúmulo de esperma e energia que ficaram presos em seu corpo.

Foi nesse momento - quando finalmente percebeu que não passava de uma válvula de escape – que resolveu agir, como só as mulheres sabem fazer. Contratou detetive, fundamentando a separação, cortou todos os supérfluos, sabendo que seu padrão de vida iria diminuir, consultou advogado, preparou-se para a dor que iria sentir depois de tudo terminado.

Ainda gostava dele? Sim, muito. Seria fácil viver apenas com seu salário, dormir sozinha, mudar radicalmente o cotidiano ao qual se acostumara por oito anos?  Ser abandonada por algumas amigas - que passariam a vê-la como rival em potencial? Não. Nada ia ser fácil. Ao contrário, tudo ia ser muito difícil. Mas não tão doloroso quanto se olhar no espelho e se sentir velha, feia, acovardada e traída e não fazer nada.

Assim, numa quarta-feira, chamou o chaveiro, trocou a chave da porta e dedicou-se à deliciosa tarefa de fazer as malas do cretino, colocando-as no corredor bem arrumadinhas, junto com a maldita televisão.

Depois de tudo pronto, escreveu poucas linhas num papel usado, revelando saber de tudo, e que ficaria com o apartamento. Que ele não a aborrecesse com mesquinharias nem tentativas de reaproximação ou mostraria tudo à mãe dele. Anexou uma foto comprometedora, para não deixar dúvidas.

Terminou dizendo para ele se preparar para pagar a terapia dela, pois estava muito traumatizada com aquilo tudo, e uma boa pensão. Colocou o papel dentro de um envelope vermelho. E assinou com o nome e o telefone do advogado.


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12 comentários:

fernanda disse...

Zoraya, seus contos são muito envolventes. Eu adoro histórias narradas sob dois pontos de vistas (ou dois lados de uma mesma porta) e você fez isso tão bem. Parabéns.

aretuza disse...

Finalmente uma mulher que dá a volta por cima!!! Adorei!!!! Devia era ter jogado tudo pela janela!! Hahaha! Que història ótima, Zoraya!!!! Obrigada! (tão boa que meu comentário está cheio de exclamações!!! haha!!!!)

Marisa Nascimento disse...

Zoraya,
A exemplo da Fernanda, também adoro narrativa com dois pintos de vista, com duas situações inesperadas. Muito bom mesmo!!!

Debora Bottcher disse...

Meu Deus! Que beleza de texto - excepcional... Quantas mulheres têm coragem assim? Poucas - o que é uma pena... E lendo assim, descrito tão detalhadamente, dá mais pena ainda...
Beijo pra vc.

Claudia Letti disse...

Adorei, Zoraya. Fiquei foi curiosa com a mãe do camarada, que mete mete assim em homem grande e casado, rs
Beijo grande!

Carla Dias disse...

Muito bom, Zoraya! A forma como você colocou a percepção de cada um sobre a situação foi perfeita. Ótimo texto!

Raquel disse...

Não conhecia esse blog,e esse foi o primeiro texto (de muitos) que eu li aqui.Gostaria que todas as mulheres que vivem essa situaçao (ou até piores) tivessem a personalidade e a força de vontade que a personagem teve.E o fato de ter os dois pontos de vista deixou o texto mais interessante ainda.
Parabéns,Zoraya!

Zoraya Cesar disse...

Meninas, fico muito feliz com esses comentários. Meu desejo é que esse conto, de alguma maneira, ajude às mulheres que estejam precisando de uma "forcinha" pra sair de uma situação infeliz. Raquel, bem vida ao crondia! Beijos libertadores.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fiquei olhando pelo buraco da fechadura, Zoraya. :)

albir disse...

Zoraya
fiquei fora do ar algum tempo, e retorno feliz por constatar o sucesso e a qualidade dos seus textos.
Parabéns e beijos.

André disse...

Zozô, parabéns pelo excelente texto, você está cada vez melhor!!

Marco Aurélio Rocca disse...

Podia contar agora pelo lado dos "amigos" dele, tão solícitos em encobrir as "aventuras do colega", agora que o amigo vira um estorvo procurando onde ficar "só por um tempinho", e ainda com uma tv enorme debaixo do braço.