segunda-feira, 31 de outubro de 2011

COISAS DE QUE DESISTI >> Kika Coutinho

Está decretado, desisti de fazer a unha toda semana. Com duas crianças pequenas, algumas vaidades tornam-se luxos impossíveis de serem mantidos. Adeus, unhas lindas. Se conseguir mantê-las quinzenalmente, estará de bom tamanho. Também desisti de ser diretora de empresa, sócia ou qualquer coisa assim. Desisti. Desisti de pular de pára-quedas. Também desisti de asa delta e similares.

Desisti de experimentar um porre. Não ia ser mal, mas desisti. Desisti de filas de baladas. Gente, eu fiz isso? Fiquei em filas gigantes, paguei caro, pra entrar em lugares escuros cheirando a cigarros? E ninguém me deu uma paulada na cabeça, pra me mostrar que eu tava louca? Bando de covardes, esses meus amigos. Viram cada coisa e não me tiraram do surto...

Desisti de shows lotados, de pousadas mixurucas e de mochila nas costas. Desculpe, soa um pouco arrogante, mas desisti de hotéis péssimos. Que eu fique no conforto da minha casa, mas banheiro compartilhado em camping, gente, não dá mais, passou, datou, chegou — pronto, falei.

Desisti de mini-saia, de esmalte azul, de batom roxo e de cabelo ruivo. Vai ficar pra outra vida, quem sabe. Nessa, não vai dar. Que me desculpem as modernetes, mas 30 e tantos, são 30 e tantos oras, eu tenho algum respeito por ter nascido ainda nos anos 70, né? Ok, bem no finalzinho, que fique registrado.

Para a outra vida também vou deixar coisas que nem mesmo desejei nesta: morrer virgem de drogas pesadas (das leves também, excetuando-se um ou outro traste que namorei na adolescência), e pular numa rave ou nesses shows em que vai todo mundo de branco, de preto, sei lá, coisa mais chata de se ver — espero que me liberem dessas também na próxima vida, se ela existir.

E desisti de salvar as crianças pobres da África. Não que elas não me importem mais. Aliás, importam mais do que nunca agora que tenho filhos, mas abri mão de uma mochila nas costas e uma cabana na Etiópia. Minha missão é outra, ainda que não abandone a generosidade, me satisfaço que ela venha em gotas, e em situações veladas. Não preciso mais provar nada pra ninguém.

Para quando eu nascer de novo também deixo a experiência de ser gay, emo, ou punk. Nessa, o plano é morrer como vivi: normal, normalzinha. Tão normal que pode até dar enjôo, eu sei. Mas não há de ser nada: Toma Plazil que passa.

Que liberdade fresca é essa que a vida só nos traz depois dos 30? Que delícia não se importar com a moda, não precisar apertar os pés em sandálias horrorosas, nem pensar mil vezes, antes de falar, só para ser agradável. Que delícia ser um pouco desagradável, só as vezes, sem nem perceber, sem querer agredir ninguém, até porque não é necessário agradar nem desagradar, só é necessário ser. Por que nunca ninguém me disse isso? Um bando de covarde esses meus amigos, vou te contar...


www.embuchada.blogspot.com


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8 comentários:

fernanda disse...

Ó Kika, tirando que eu uso minissaia, esmalte azul e sou sócia de uma empresa, o resto eu também desisti. Assino embaixo (e tô começando a achar que já tá na hora de eu alongar um pouco os meus traje...hahahaha).
Beijos!

Debora Bottcher disse...

Pois é, moça... Não é que seus amigos sejam um 'bando de covardes' - pobres deles! :) - é que se te dissessem, vc não acreditaria, sequer daria ouvidos... Tem coisa que a gente precisa descobrir sozinho; quer dizer, não é descobrir, é finalmente enxergar. :))))
Mas isso só vem com a idade, acredite-me. Beijo, bonita.

Zoraya disse...

Kika, libertador, esse texto, hein? Delícia!. Mas desista só do supérfluo, nao desiste de tudo nao! Quem sabe, daqui a alguns anos, as filhotas mais crescidinhas, vocês nao resolvem, juntas, voar de asa delta? Ou saltar de para-quedas? Nao tenho filhos - ainda - e estou amando ler seus textos. Beijos

Renata disse...

queridona! show ainda dá pra ir! eu fiz uma promessa: irei a TODOS os shows do U2 em que eu estiver na mesma cidade. Tudo bem que eles estão dizendo que vão terminar ano que vem.... Mas a minha promessa é anterior. Beijão Re

Kleberson Marcondes disse...

Ah, que coisa mais boa de se ler nesse inicio de novembro. É algo despertador em nós que faz com que possamos acordar para a vida e perceber que nem tudo nos convém - ou convém -, por isso. Parabéns! (:

http://klebersonm.blogspot.com

ki disse...

Fernandaaaa, use minissaia sim, aproveite enquanto dá!!
Dé, tem razão, e, o pior, é que alguns bons amigos (tipo você e o Raul) bem que tentam avisar, com textos excelente...
Zoraya! Me abriu a mente menina! E não é que pode ser?! Obrigada!
Re, você é muito corajosa. Eu com preguiça de levantar do sofá pensando em TODOS os shows! UAU!
Kleberson, obrigada!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Pode ir desistindo do que quiser, Kika. Só não desista, nunca, pelo amor de Deus e de Nossa Senhora, de escrever. :)

Anônimo disse...

Vixe...agora com trinta e tantos, seus amigos irão concordar com tudo! Vida mais besta né?! Bom mesmo, é morrer de enjoo e ter o cabelo armado, sem poder fazer progressiva, só pra esperar estes serzinhos que nos fazem mudar tanto de idéia chegarem.
Beijo querida
PS: Vc não ficaria bem ruiva, nem com 20 anos...heheh
Mari