sexta-feira, 7 de outubro de 2011

UMA FELICIDADE DIFÍCIL >> Leonardo Marona

Antes de tudo, é preciso admitir: não sei lhufas da cidade onde moro há quase trinta anos. Nisso não há nada de extraordinário, afinal, quanto mais perto do nariz, menos se vê. E são quase trinta anos em que um ano apaga o último.

Mas hoje não farei programações esperançosas para o próximo ano. Aqui farei revelações a mosquitos, desencavarei dos confins da doença a necessidade da cura. E tudo começa com este fato intransponível: ando há quase trinta anos de lá para cá, com a cabeça revoltada de pequenos acidentes e os olhos espremidos de pânico, e não sei por onde ando, vejo areia e gente de areia, tudo escorre ante os passos tortos, não conheço caminhos de chegada.

Sinto como se andasse pelas ruas e só conseguisse reconhecê-las como quando ainda não eram ruas, mas animais mortos sobre animais mortos, peçonha anulando peçonha, e sem ruas tudo era sem direção, mas havia sentido. Só que isso também não será saudosismo. Apenas que minhas ruas, assim como minha casa, não são em mim. Não sei que cheiro tem minha casa, minha casa é cheiro de fuga, cheiro de gás que segue o condenado, sangue entranhado no criminoso: eu.

Tudo me leva a crer que de modo algum compreenderei. Mas sinto que se aproxima. Em breve estarei comendo pão dormido, regado por minhas próprias lágrimas. Mas, para fazer valer a queda, há que se abster do cânone comum, evitar reclamações e criar um novo molde, nem que seja com sangue, um molde para renovar o sangue sujo de tanto desconhecimento transposto em atitudes questionáveis. Pois que nunca será compreendido o que tem a sisífica missão de compreender. Aí está uma regra para os com algum coração. Arrancar fora o coração e progredir, ou engoli-lo fundo, mastigá-lo com ânsia, para promover o que, do contrário, seria inviável, porque os sentimentos que causam mais raiva e temor são os bons sentimentos. Por isso as pessoas enriquecem tanto, porque, ricas, podem deixá-los de lado para, como se diz, serem felizes.

Mas falemos de coisas mais amenas. Adoecer, por exemplo, ou amigos. Adoecer é o estado de se ter amigos. Porque o Homem, o Homem assim, ridicularizado, napoleonizado em maiúsculo, o Homem como ele não deveria ser mas, em sendo, torna-se o verdadeiro Homem, este é insuportável como são os reis que não sabem se portar à mesa. E aqui não quero incluir o Novo Homem que, se não posso propor, quero reiterar. Pois que reiterar é repetir aquilo que na verdade nunca se disse. Porque este, o doente com amigos, é um tipo com alguma sutileza, como a minúscula fenda que, no fundo do oceano, causa o maremoto.

A doença, portanto. Devemos incluí-la sempre nos planos, afinal, dela viemos, causando vômitos, enjoos, arrasando corpos, e para ela voltamos quando nascemos de novo e fechamos os olhos. E há que se respeitar a doença. Olhem em volta. É tudo o que nos sobrou. Isso é respeitável. Ser tudo o que sobrou. Um bem comum, por assim dizer, o único. Assim como o medíocre. Quanta bondade há no medíocre! E as pessoas, quando ficam doentes, digo mais, quando assumem a doença que sempre tiveram, tornam-se melhores pessoas, impreterivelmente. Umas chegam a atravessar velhinhas nos sinais, carregar pesos, aceitam até mesmo com um sorriso uma cusparada no olho. Outras, ao menos, aceitando que, de fato, nunca tiveram capacidade para tal, não saem por aí arrancando cabeças como quando era saudáveis e felizes. Acumulam-se em mãos estendidas e num remorso sutil, durável, representado por sorrisos de Gioconda. E sem os medíocres, os doentes, por assim dizer, diagnosticados, seriam machados e poetas por toda parte. Seria o terror, imaginem, todos cheios de talento e vitalidade e desespero de progresso e sangue. Mas o que faríamos com milhões de Lautreamonts, com milhares de Baudelaires? Faríamos chacina, tenho certeza. Já em meio aos medíocres, essa antiga doença ainda pouco analisada, inventamos um modo de vida indiferente e pacífico. E é o que todos querem. Os medíocres são pessoas boas, disfarçadas.

Mas agora chegou a grande hora, a hora de ajoelhar-se diante dessa vida que, se não é uma vida explosiva e perigosa, como manda a natureza da qual fugimos pela porta dos fundos, é ao menos uma vida só nossa, que inventamos para sobreviver à vida como deus a quis, ou a natureza natural, como se diz. Vivemos a vida com as forças tomadas, e por isso bebemos muito para nos alegrar ou então mesmo os mais sorridentes e que se dizem completos choram devagarinho nas portas dos prostíbulos ou após se masturbarem. Não acreditem nunca na felicidade propagada. A felicidade nunca é o que se diz, pois que é sempre preciso inventá-la de um jeito próprio.

Sem forças, mas saciados, receberemos a vida que nos condiz, a vida criada. O mistério consiste em que tudo o que é valioso é preciso ser criado, do que se conclui que o valor não está nas coisas, mas na cabeça doentia de quem as criou para si. O que significa ainda mais. Criamos porque estamos doentes, e não queremos morrer, a não ser nos braços do nosso Frankenstein. Nunca o que vem de onde não se sabe é algo julgado valioso. Avaliar é, portanto, criar valor, e não reconhecê-lo. Virá daí essa tristeza de fim de tarde, essa pulga atrás da orelha que nos sussurra: fracassaste, meu amigo, fracassaste feio, criaste algo para tua felicidade, mas é muito pouco, foi feito de barro ruim, e por isso perecerás, por tua esperança no bom.

Nossos moldes são absurdos e insuficientes para tamanha ousadia: inventar a felicidade que um homem, para ter, precisou ser crucificado e espancado por bárbaros. Não há outra saída. Em vez de forçar passagem, é preciso esgotar-se para sentir, enfim, a força primeira, esta não tão feliz, mas ampla, maior que a felicidade e a boa sensação, a força do que não se mede, porque é maior que nossa ridícula medida. Sim, é necessário uma Abissínia no estômago e os ossos da bacia criando tifo junto aos ossos das pernas. E boa dose de espanto, que é a antifelicidade dos que frequentam tirolesas e grandes festivais à base de hambúrguer e música ruim. Não haver mais negativo ou positivo, progresso ou decadência, só assim poderemos desmascarar o que nos direciona para um pequeno abismo de plástico, e a nós mesmos, que somos levados a ser tão parecidos, poderemos ao menos ter um abismo maior e mais bonito.

E no estopim da nova queda olharemos uns para os outros com novos olhos, e não esses olhos de boi manso que nos foram grudados no crânio, serão olhos flamejantes e perigosos, olhos de caroneiros de trens e sapateadores assassinos, serão olhos de carvão curtido e olhos de quem não come há semanas. Daí virá a verdadeira força para assumir-nos doentes. E depois nos estapearemos devidamente para podermos, enfim, amanhecer.




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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito material pra reflexão, Léo!

Anônimo disse...

Gostei muito Léo,pelo fato de você ter dadas muitas relexões!