quarta-feira, 12 de outubro de 2011

ENZO (SEGUNDA VOLTA)
>> Eduardo Loureiro Jr.

"As melhores coisas não podem ser ditas.
As segundas melhores são incompreendidas.
As terceiras melhores são aquelas sobre as quais falamos."
(Heinrich Zimmer)
No começo, era apenas uma notícia:

— Estou grávida.

Uma notícia alegre, desssas que bem poderia dar nos telejornais. Já imaginou se cada mulher que engravidasse, e estivesse feliz por isso, aparecesse na TV? Em vez de entrevistar políticos, especialistas e celebridades, os repórteres dirigiriam seus microfones para mulheres barrigudas. A cada hora, mais de 300 mulheres recebem a notícia de que estão grávida. Teríamos repórteres dando plantão em porta de laboratório.

— E então, senhora?
— Estou grávida. Estou grávida!

Se fosse assim, eu voltaria a assistir ao Jornal Nacional.

Depois do começo, é uma imagem. Um borrão, para ser mais preciso. Um pequeno instantâneo, ou um filminho de ultrassonografia.

— Está ali? Tá vendo?

Não, eu não estou vendo, mas tenho que confiar na palavra da grávida, que confiou na palavra do médico. Um bebê em suas primeiras semanas é menos uma realidade e mais um passatempo de revista: encontre um bebezinho escondido na figura ao lado.

Depois de depois do começo, é um nome. Ou vários nomes, dependendo do grau de indecisão dos pais.

— Como vai se chamar?
— Sofia.
— E se for homem?
—Vai ser mulher. Sofia.

Sábia escolha. Já imaginou se tivessem resolvido combinar o nome dos pais: Gilrina, Gilbrina, Gilberina... Sofia é um nome clássico, inspirador, suscitador de poemas e canções.

Depois de depois de depois do começo, é um sexo.

— Como assim "é um homem"?
— Vimos a piroquinha.
— Mas não era mulher?
— Ele estava só escondendo o jogo.
— E como vai se chamar?
— Enzo.
— Que nem o filho do Xand, dos Aviões do Forró?
— Não, que nem o filho da Cláudia Raia.
— Ah, bom...

Tudo bem, de Sofia para Enzo ficamos ali mesmo pela Itália. Perdemos em sabedoria, mas ganhamos em velocidade; sai a filosofia, entra a Formula 1. Enzo, menino ligeiro, passou a Sofia, chegou em primeiro. Dá até música.

Depois de depois de depois de depois do começo, é uma cor.

— Azul.
— Por que não vermelho?
— Por que vermelho?
— Cor da Ferrari, ora.
— Aff, vermelho é muito "cheguei". Azul é mais bonito.

É isso mesmo. Tudo azul, e branco. Móveis, cortinhas, bolsas e panos. Vermelho atiçaria demais o menino, talvez nem deixasse os pais quietos à noite. Com azul se dorme melhor.

Depois de depois de depois de depois de depois do começo, é um grito transformado em corpo.

— O que é isso?
— Isso o quê?
— Na mãozinha...
— Tem um dedo a mais?
— No pé também.
— Meu Deus!

Há quem goste e quem não goste, quem pense em fazer cirurgia logo e quem pense em deixar ele escolher depois. "É tão bonitinho!". "Vai ser difícil encontrar sapato!". Opta-se pela cirurgia. Vão-se os dedos, ficam as fotos.

Depois de depois de depois de depois de depois de depois do começo, são os cheiros (leite, chulezinho e cocozão), as dores ("Mãe, eu não sei o que ele tem, ele só chora, chora, chora!"), os sorrisos ("Coisinha mais linda do papai!"), a fala ("Diz 'mamãe', 'ma-mãe'. Diz 'vovó', 'vo-vó."), o andar ("Vamos, filhão, você consegue!"), o faz-de-conta (coisa vira bicho), o choro manipulador ("Eu quero!").

Depois de depois de depois de depois de depois de depois de depois do começo, é um menino que vê os Scorpions tocando na TV e diz "Tchi Dju", ou seja, Tio Du, seu nome. E você fica sem saber se é um mau sinal  ("Sou tão feio assim?") ou um bom sinal ("Ele me reconhece como músico.").

Depois de depois de depois de depois de depois de depois de depois de depois do começo, você liga para falar com sua irmã e, antes de ouvir a voz dela, quase sempre escuta o choro do menino.

— Que foi, Bina?
— Enzo 'tava vendo um vídeo no celular.
— De novo?!
— Você parece que adivinha a hora de ligar.
— Não diz pra ele que sou eu que estou ligando senão ele vai achar que sou um tio pentelho.
— Agora é tarde...

Depois de depois de depois de depois de depois de depois de depois de depois de depois do começo, tem ainda muita coisa para contar sobre essa fofurinha que hoje está fazendo dois anos.

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7 comentários:

Anônimo disse...

Obrigado meu irmão. Vc caprichou na crónica, amei. Só nAum vou te ligar agora pra naum tê acordar. Beijos. Tê amo

fernanda disse...

Ah, que lindo o Enzo! Fruto do aconchego retratado na página 102 do livro "Acaba não, mundo" (comentário com referência bibliográfica e tudo...rs).

Bjos!

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, delícia ter sobrinho pequeno, né?
E deve ser uma maravilha para os pequenos - quando souberem o valor de tudo - ter um tio que os homenageia assim.

Bjs

Gilberto disse...

Bela crônica! Uma texto real do presente momento do Enzinho. Obrigado tio Dudu. Obrigado pela homenagem, Junior.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bina e Gilbert, que bom que gostaram. Sinal de que o Enzo também gostou, mesmo sem saber ler ainda. :)

Fernanda, sua referência bibliográfica tornou a crônica completa. :)

Bota delícia nisso, Marisa! :)

Unknown disse...

Que lindo! Não precisa nem dizer, mas até meus olhos "suaram"... Lindo demais!

Anônimo disse...

Ai Eduardo, preciso dizer que é o tipo de crônica que eu amo?
bjs
Kika