quarta-feira, 12 de outubro de 2011

CARA-METADE >> Carla Dias >>

Minha sobrinha me confidenciou que encontrou sua cara-metade, mas depois de respirar fundo várias vezes, dizer que não conseguia falar. Eu perguntei o que a fez pensar nesse menino como sua cara-metade. E mesmo ciente de que as crianças de hoje são muito mais alguma coisa do que no meu tempo de menina de tudo, eu não esperava por aquela resposta.

Eu nunca pensei em alguém como minha cara-metade. Desde que aprendi a reconhecer as coisinhas do amor, penso no outro como um através, capaz de não apenas habitar parte de mim, mas trafegar pela minha existência, visitar profundidades, com a minha bênção, e com a possibilidade de eu fazer o mesmo. Obviamente, isso dá muito trabalho, o que reduz, e muito, minha lista de possíveis cara-metade.

Depois da conversa com a minha sobrinha, encasquetei com esse negócio de cara-metade. Repensei meus amores, os efetivos e os platônicos, e cheguei à conclusão de que os platônicos sempre são os melhores candidatos à cara-metade, porque nos deixam à mercê da imaginação. Ainda assim, esbarrei na lembrança daquele que foi o amor mais amor que já senti. Foi platônico durante muito tempo, e quando deixou de ser, invadiu a minha existência. Não havia nada pela metade ali, mas sim unilateral. Eu entrei na dança, mas perdi o parceiro. Se havia alguma chance de aquela pessoa ser minha cara-metade, a escolha que ela fez de partir, com sua metade a tiracolo, acabou com o plano divino.

Um amigo me indicou o curta “Harvey”, dirigido por Peter McDonald, e ele me vem à lembrança porque, apesar de ser definido como filme de horror, ter cenas fortes e incômodas, eu o acho belíssimo pela poesia contida na metáfora sobre a busca pela outra metade, pelo inteiro de si ao somar-se ao outro. E diferente do que pensa minha sobrinha – e a maioria de nós - há muito mais melancolia e dolência do que apreço quando alguém passa a depender da ideia de que somente em par será inteiro. “Harvey” é uma visão sombria dessa necessidade de encontrar alguém que nos complete, mais próxima ao egoísmo que, quase sempre, acompanha tal desejo. Quem quiser assistir ao curta, clique AQUI.

O que eu quero dizer cruzando as declarações da minha sobrinha com um filme como o de Peter McDonald, é que até mesmo a cara-metade que reconhecemos pode não ser o ingresso para o inteiro de nós. Ao perguntar por que acreditava que aquele menino era a sua cara-metade, ela suspirou seus sentimentos, lembrando-me as mocinhas dos filmes de amor dos anos 50, e disse que ele era uma boa pessoa, compreensivo, educado e que gostava de conversar com ela. E ela idem.

Minha sobrinha não é da safra das meninas de onze anos que sentem as coisas como se tivessem dezesseis, por isso a sua cara-metade tem mais a ver com amizade do que com amor romântico. Depois de o menino dela ter lhe enviado um poema lindo, lindo, e de minha irmã fazer malabarismos para ajudá-la a lidar com o que sentia, minha sobrinha enviou um bilhete para ele, dizendo que eles poderão ser a cara-metade um do outro somente daqui a três anos, ao que ele respondeu: claro.

Ok... Ela havia dito também que ele era compreensivo.

Espero que um dia – daqui muitos anos, de preferência – a minha sobrinha encontre a sua cara-metade, mas que quando isso acontecer, ela já se sinta inteira, sem vazios prontos para serem preenchidos pela identidade de outro. O que chamamos de metade, na verdade, é um inteiro que torna o nosso inteiro mais feliz. É uma soma, não o resgate de parte de nós. Então, nossa cara-metade é uma alma inteira.

A minha cara-metade, neste momento, é uma bela ?

Mas só de pensar que se encontrá-la por aí não terei de esperar três anos para apreciar essa boa pessoa, contar com a sua compreensão e com o seu agrado em conversar MUITO comigo, fico animada por já ter passado – há muito tempo – dos onze anos de idade.

carladias.com



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5 comentários:

André Zagreu disse...

Linda crônica Carla...

fernanda disse...

Só penso que alguém poderia ter sido minha cara metade quando esse alguém vai embora e, então, percebo que fiquei faltando pedaço. Quando estou inteira com alguém, nem noto. Que burra...

Marisa Nascimento disse...

É, Carla...
Minha cara-metade foi para outra dimensão há muito tempo.
Não sei se eu o chamava de cara-metade, mas eu me sentia inteira. :)
Bjs

Anna Christina Saeta de Aguiar disse...

Maravilhoso, Carla, como sempre.
Eu não sei se cara-metade existe. Tenho a impressão de que eu fui feita mesmo só pela metade e não tem nada que possa remediar isso.
Beijo

Carla Dias disse...

Oh, André... Que bom saber que você pensa assim : )

Fernanda... O que a minha sobrinha ainda não sabe é que há mais de uma cara-metade para cada um de nós. Elas são diferentes uma das outras, pedem por um gostar particular, mas a sensação de tê-la encontrado aparece mais de uma vez, quando não se acerta na eternidade da primeira. Portanto, você pode acreditar que a sua vai chegar, você vai reconhecê-la e viver sua história.

Marisa... Gosto de pensar que a cara-metade não é única, apesar de acontecer de ser. Gosto de pensar que a cara-metade é quem escolhe, sem pensar, estar na nossa vida, e da melhor forma possível. Inteiras ou nem tanto.

Anna... Sinto-me igualzinha a você, sem tirar nem pôr, no que se refere a mim. Não consigo imaginar os meus afetos sem direito à cara-metade. E já assumi que sou contraditória e topo acreditar não acredito em sã e autoflagelada consciência. É preciso que sejamos mais bondosas com o que sabemos, ou simplesmente pensamos sobre nós mesmas. E se for pra levar a vida pela metade, que seja com a opção de sermos surpreendidas.