domingo, 16 de outubro de 2011

TORTO >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu nem ia escrever crônica hoje. Ia deixar o domingo só pra vocês e o Whisner, que retorna ao Crônica do Dia depois de alguns anos. Mas bateu aquela vontadezinha de escrever, de contar, de compartilhar...

Vocês conhecem aquela história que diz mais ou menos assim?

— Mestre, o que faço para atingir a iluminação?
— Você já roubou?
— Que é isso, Mestre?!
— Já matou?
— Mestre?!
— Já amaldiçoou e se vingou?
— Nunca!
— Pois então vá fazer tudo isso o quanto antes.

Lembrei essa história ao receber uma mensagem de minha querida Pepeta, tia-avó e freira, que já deve ter matado, roubado, amaldiçoado e se vingado bastante, porque é a luz em pessoa. Na apresentação que Pepeta enviou para a lista da família, o assunto era um pinheiro torto, objeto de desafio por parte de um sábio de aldeia, que convocou seus alunos para olharem para o pinheiro na posição correta. Após presenciar uma série de contorcionismos de seus aprendizes, o sábio revelou: "A posição correta é vê-lo mesmo como um pinheiro torto".

Lembrar essa história me fez recordar a canção "Entre tapas e beijos" ("Perguntaram pra mim se ainda gosto dela. / Respondi: 'Tenho ódio e morro de amor por ela'."). Essa canção é um bom exemplo daquilo que, pra mim, está na esfera do absurdo. Sempre reagi a essa canção com a mesma indignação do discípulo da primeira história diante de seu mestre de conselhos heterodoxos:

— Como assim? Ou ama ou odeia! Ou estapeia ou beija! Os dois é que não dá!!!

Faço essa confissão a meus leitores como se a fizesse a um sacerdote:

— Padre, pequei.
— Que foi, meu filho?
— Sou um escritor sem imaginação. Não consigo conceber o amor e o ódio convivendo juntos.
— Só isso, filho?
— Acha pouco, padre.
— Faça uma crônica sobre o assunto e está perdoado.
— Mas, padre...
— Vá e não peque mais.

E cá estou eu, expulso do mosteiro, com a tarefa de viver o que me parecia o mal, de aprender a correta posição do torto e de amar feito um compositor de música brega.



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8 comentários:

Zoraya disse...

Eduardo, amei!!! O desafio da fé é a tentação, e, cá entre nós, muito melhor ser "gauche na vida". Sábio padre interior esse seu!

Marisa Nascimento disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marisa Nascimento disse...

Eduardo, acho que você foi absolvido de seus pecados.
O maior deles, sem dúvida, é dizer que você é um escritor sem imaginação. De penitência, trate de sempre escrever mais e mais. :)
Bjs

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Zoraya e Marisa, vocês gostam de um torto, né? :) Grato pelos comentários.

Carla Dias disse...

AMÉM!

Anna Christina Saeta de Aguiar disse...

Mas Eduardo, escorpiano torto, se amor e ódio é quase que praticamente uma coisa só!!!!

Debora Bottcher disse...

Pois é, Eduardo, concordo com a Anna: O ódio é o sinal invertido do amor - a razão dos crimes passionais. Já o amor... Bom, o amor é uma incógnita, considerando os tantos atos que são cometidos em seu nome... :) Beijo.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Chris e Debora, assim vocês me assustam. Devagar com a dor que o masoquista é novato. :)