sábado, 8 de setembro de 2018

COTIDIANO FELIZ >> Sergio Geia



Estou aqui para ajudá-lo. Eu compreendo, sei que gostaria que eu viesse outras vezes, que pode pagar, mas, infelizmente, você sabe, tenho outros amigos que assim como você necessitam de mim. Você compreende? Eu sei, tinha certeza que compreenderia. Prometo que logo este problema estará resolvido; nossa equipe já está desenvolvendo um novo sistema que me permitirá estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Vamos então?
Antes de tudo, abra um vinho. Tinto, de preferência. Comece a degustá-lo com calma, sem pressa. De vez em quando olhe lá fora, veja a rua, as pessoas caminhando, algumas indo para o trabalho, um casal de jovens se beijando. Não, em absoluto! Não se recrimine por buscar na memória aquele beijo roubado na esquina. Isso, acaricie o pensamento, sorria, assim, veja como uma boa lembrança faz bem.
Você quer me contar? Tudo bem, conte, adoraria saber. Entendo, sua primeira namorada, você não sabia como dar o primeiro beijo. Não sabia se falava alguma coisa, como fazer a aproximação, se lentamente, como nas novelas. Decidiu de supetão? Ainda assim foi bom? Compreendo. Ela gostou. E você também. Que bom. Não sabe por que foi se lembrar disso agora, depois de tantos anos? Talvez os jovens se beijando na esquina, aqueles lá, talvez a cena fez você se lembrar.
Vejo que a pia de sua cozinha ainda contém restos do jantar de ontem, pratos sujos, copos, talheres e até uma panela no fogão. Lave-os. Comece pelos pratos, bem calmamente, como num ritual, depois os copos. Entre eles, os pratos e os copos, beba mais um pouco de vinho, assim, depois volte aos talheres. Quando a pia estiver vazia, vá para a panela; nesse caso, use um desengordurante.
Pia limpa, agora sim, venha para a sala, sente-se confortavelmente em sua poltrona de leituras, pegue o jornal. Vejo que gosta do Estadão. Comece pelo Caderno 2, perceba o que os cronistas ─ esses seres iluminados ─ têm a dizer. Enquanto lê uma crônica ─ veja se está ai o Humberto Werneck, ele é muito bom ─, continue a degustar o vinho. Sinta, sinta que delícia é ler algo bacana bebericando uma taça de vinho. Depois da crônica, sugiro que pule para a agenda cultural, veja as cenas que estão rolando. E lembre-se: sem pressa. Para isso, se necessário, imagine uma formiguinha, uma pobre formiguinha andando no quintal, ou um homem sentado na praça sob a sombra de uma árvore. Veja: o mundo andando loucamente, e eles nem aí com a hora do Brasil. Faça o mesmo. Inspire-se.
Acha que a mesa da sala de jantar está um pouco desarrumada? Isso o incomoda? Tudo bem. Arrume-a então. Primeiro guarde os objetos que ficaram esquecidos; vejo-a um pouco entulhada. Tire o pó com um pano úmido. Por fim, estenda aquela toalha de flores verdes e azuis, ponha o vaso com aquela plantinha que você tanto gosta, regue-a, ela ficará mais verde e mais bonita.
Vi que já acompanhou as notícias do jornal na tevê, já assistiu ao esporte, às  notícias de seu time, que, é bem verdade, não anda lá bem das pernas, hora de almoçar? Pois bem. Esquente a lasanha no micro-ondas. Coma o seu almoço com prazer. Há vinho na garrafa ainda? Beba, não se incomode se ele o está deixando tonto, o seu dia está livre mesmo, não há grandes compromissos à tarde. Depois, terminada a refeição, você pode bebericar um licor para ajudar na digestão, vejo que há muitas garrafas em seu bar.
Agora sim, você pode se deitar. Faça a sua sesta costumeira. Sim, pode ligar a televisão, é bom para atrair o sono. Sim, pode fechar as janelas, escureça o quarto. Pijama? Isso o incomoda? Vestir pijama às duas da tarde para dar um cochilo? Pois não se incomode. Vista-o, vai deixá-lo mais confortável.
Depois que acordar, volte para a pia, ficaram coisas lá. Da mesma forma, lave tudo com tranquilidade e já deixe alguma coisa engatilhada para o jantar. Tire um bife do congelador. Prepare aquela saladinha de cenoura e repolho. Faça um arroz bem soltinho.
Separe uma parte do tempo entre a tarde e a noite para a leitura. Como você já terminou o livro que estava lendo, pegue um Machado de Assis. Sim, um clássico. Retorne a Helena, por exemplo, não é o melhor que você vai encontrar na obra machadiana, mas é muito bom também. Ou, se preferir, Memorial de Ayres, um de meus prediletos. Busque coisas novas lá, você vai encontrar.
Bem, eu vou indo. Como parte do processo, essas coisas você vai fazer sem ouvir a minha voz. De todo modo, se precisar, deixei gravado um roteiro-guia. Amanhã eu volto e você me conta como foi. Se precisar de alguma coisa antes, ligue, estarei à disposição.
Bom descanso, bons sonhos.
(No quarto escuro, ouviu-se um estalar seco, como se alguma coisa tivesse se rompido ou desligado; um silêncio absoluto reinou, só quebrado, de vez em quando, por um hiperbólico ruído vindo da cama).


Ilustração: revoada.net/15-rostos-em-objetos-do-cotidiano/


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2 comentários:

João D'Olyveira disse...

O esférico me fascina. Leitura prazerosa, Sérgio!

sergio geia disse...

Grato, JOão, por estar aqui comentando. Grande abraço!