quarta-feira, 19 de julho de 2017

QUEM SOU É UM MISTÉRIO QUE NÃO SEI RESOLVER >> Carla Dias >>


Quem nunca viu essa cena em algum filme, em uma contemplação forjada pela casualidade, até mesmo como protagonista da mesma? Porque encarar a si no espelho é rotina. Banhar o rosto, faxinar os dentes, alinhar os cabelos. Perceber o que incomoda e o que apraz.

Hoje, porém, minha rotina parece funcionária do improviso. Percebo-me de um jeito outro. Não me importo com as tarefas usuais de quem se olha no espelho às seis da manhã, enquanto se prepara para o trabalho. Não tento fazer de conta que não percebi os incômodos tatuados em meu rosto pelas marcas de feição, tampouco a opacidade que tomou os meus olhos. Meus dentes desaparecidos em uma boca que se nega a se arreganhar em sorriso. Meus cabelos, seus desgrenhados absolutos, não faço ideia de como o alinho se comportará diante de sua revolta.

O problema é que sinto saudade imensa de mim. Os amigos dizem que é saudade infundada, que não há como sentir falta de quem se é. Eu entendo a gentileza deles, mas ando mais curioso a respeito da aridez de seus verdadeiros pensamentos. Eu sei que eles se cansaram dessa minha espiral de silêncios, suspiros de duração absurda, desejo de fechar os olhos e dormir para acordar daqui a uma década. Todos esses itens que compõe a lista do que atalha a alegria alheia.

Nada mais justo do que me retirar, o que nem foi assim tão difícil. Para quem sente saudade de si, com tal violência, ausentar-se do outro é apenas questão de baixar o olhar e seguir em frente. Assume-se assim a culpa pelo ocorrido, deixando os abandonados com a sensação de que tentaram tudo, mas foi impossível salvar ser tão dedicado ao erro. Já que culpá-los nunca foi meu desejo, deixá-los infelizes pela convivência unilateral, também não, recolho-me.

A saudade que sinto nem é de uma história que já vivi, para a qual rumino o desejo impossível por outro desfecho. Não é sobre o que faria se tivesse escolhido aquilo, em vez daquilo outro. Não é saudade do que fiz, mas de mim. Não é saudade de quem fui, mas de mim.

Saudade dessa pessoa que sou e ainda não conheci.

Imagem: Landscape from a Dream © Paul Nash

carladias.com

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2 comentários:

albir silva disse...

Bela reflexão, Carla. E sugere alguma generosidade com o desconhecido eu. Já que só deixa saudades o que não nos é tão ruim.

Carla Dias disse...

Albir, essa coisa de sentir saudade de quem nunca fomos, de quem nem sabemos se conheceremos um dia, é estopim para delírios. E alguns delírios me aprazem. Beijo.