quinta-feira, 27 de julho de 2017

HASHTAG GRATIDÃO>>Analu Faria

Já tem um tempinho que a palavra "gratidão" ficou pop. Na internet, usar  #gratidão, então... nem se fala! Eu achava que a maior parte das pessoas que usava a expressão não sabia bem o que estava dizendo. Talvez não saiba mesmo. O fato é que eu mesma não usava a palavra, porque poderia muito bem dizer "obrigada" no lugar de "sou grata" - "gratidão", para mim, era modinha.

O grande problema com as palavras que "pegam" é que seu sentido talvez se esvazie rápido demais. Exatamente como os clichês. Mas também como os clichês, essas palavras da moda podem ter "pegado" justamente porque não há outras que exprimam melhor o que se quer dizer. O clichê é clichê porque é batido, mas ele também é quase sempre uma verdade. Talvez seja o caso com "gratidão". 

Dia desses, encontrei um "exercício de gratidão" enquanto passeava pela internet. "Diabéisso?" - pensei. "Lá vem a modinha". Curiosa como eu sou, acabei fazendo. Era uma espécie de meditação, não requeria esforço nenhum, então ah, sei lá, por que não, né, amigos?

Não vou entrar em detalhes do tal exercício, mas vou dizer que "senti" a gratidão, talvez pela primeira vez na vida: uma noção de que o mundo está cheio, de que a vida é, por si mesma, um sem-fim de possibilidades, de que todos os espaços dentro e fora, entre mim e o mundo, entre as coisas e as pessoas, entre as ideias, no meio das pedras, nos milímetros de terra entre as gramas, nas rodovias desertas, na distância entre as bocas que estão prestes a se beijar, tudo, tudo, está cheio, preenchido, pleno. 

Terminei o exercício entendendo porque às vezes não é possível usar outras palavras, ainda que queiramos. Eu não consigo chamar essa experiência de outra coisa a não ser "exercício de gratidão". Talvez o mais próximo que eu chegue de denominá-lo de algo inteligível seja dizer que foi um "exercício de foco na plenitude da vida"  (horrível). Tampouco consigo usar outra palavra para exprimir o sentimento dessa completude das coisas a não ser "gratidão". Pode ser modinha, pode não ser. Para mim, mudou a cor do dia a dia e isso basta. Vai ter #gratidão, sim. E, se reclamar, vai ter mais.




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2 comentários:

Carla Dias disse...

Eu me sinto da mesma forma que você a respeito de como as palavras perdem força ao se tornarem clichê. O mesmo sobre compreender que há valor nisso, porque clichês, quase sempre, são verdades. Acho que a situação nos permite retomar a essência da palavra. Não adianta #gratidão, quando ela não existe. Mas é sempre surpreendente quando retomamos a conexão com palavras que nos incomodavam serem da moda. Daí entendemos que o tom, o teor, a história, há muito que uma palavra pode resumir. Beijo!

Zoraya Cesar disse...

Danem-se os modismos e os esvaziamentos. O que importa é isso aí q vc fez, ir além da palavra e sentir sua essência. Bom demais. #gratidão pelo texto kkk.