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UM SENTIMENTO >> Sergio Geia



A primeira vez aconteceu quando fui levar meu filho pra prestar vestibular no Mackenzie. A faculdade fervia de gente. Os jovens conversavam, fumavam, se beijavam, até que deu o horário e o pátio ficou vazio. Fui então andar. O Mackenzie é bastante arborizado, com bancos para as pessoas sentarem, numa espécie de praça privada bem bucólica numa escola em pleno centrão de São Paulo. Tem o Starbucks, uma praça de alimentação com o Bob’s, o Pão de Queijo, o Rei do Mate, um bom espaço pro aluno estudar, biblioteca, o Itaú. Foi quando o esperava terminar a prova, a faculdade enchendo de novo, os jovens chegando, saindo, alguns de terno, outros tatuados e com cigarros entre os dedos, que o pensamento bateu: “Puxa, no meu tempo não tinha isso. Ou, se tinha (e tinha), eu que não fui atrás. Me contentei com a vidinha controlada e estreita de sempre”.
Outro dia descobri o Oasis. Primeiro, uma amiga me emprestou uns CDs, alguns do grupo britânico. Já conhecia a Wonderwall, que tocava num programa de esportes da televisão. Num domingo de chuva, em casa, fiz o almoço tomando uísque e assistindo a um show deles, em Manchester. Eles tocaram Stand by me e as guitarras de Stand by me me acertaram num lugar que me levou a nocaute; fiquei vidrado. Depois rolaram Live Forever, Don’t look back in anger, Go let it out, Supersonic, não exatamente nessa ordem. Descobri que eles já estiveram no Brasil, em São Paulo, Rio, Curitiba, Porto Alegre; em 2001, tocaram no Rock in Rio. Descobri entrevistas dos irmãos Liam Gallagher (vocalista) e Noel Gallagher (compositor da banda e guitarrista) com o Zeca Camargo para o Fantástico; uma em 1998, outra em 2009. Descobri que a cada show que assistia, mais eu gostava; era uma musicalidade que me dizia coisas, que me tocava fundo. E finalmente descobri que os irmãos Gallagher brigaram e que o Oasis não existe mais. Aí o pensamento bateu de novo: “O que eu tava fazendo no final da década de 90 e início do 2000? Onde eu estava com a cabeça? Como não descobri o Oasis a tempo de curtir um show em Sampa? Como descobri esse som somente agora, quase oito anos depois do fim da banda? Eu estou é muito atrasado.”
Comecei com House Of Cards essa coisa de séries; confesso que nunca curti muito uma série, nem conto ou crônica; nem poesia. Sempre preferi os longas, e, nas livrarias, Roth, Coetzee, McEwan, Tezza, Hatoum, romances, romances, romances. Mas ouvia o pessoal falar, comentar, que insisti e acabei me jogando de cabeça em Breakin bad. A história do professor de química, sujeito comum, inexpressivo, com sentimento de inferioridade, mas gênio, condenado à morte por um câncer no pulmão, e que passa a produzir metanfetaminas, se tornando um dos maiores produtores da droga dos Estados Unidos. Depois descobri que a série é de 2008, que passou no Brasil até em tevê aberta, e eu, nada. Tá, eu sempre dei de ombros para as séries, e, convenhamos, ela só começou a passar no Brasil em junho de 2010 pelo canal pago AXN.
Tudo bem, mas e o que o Mackenzie, o Oasis e as séries têm em comum? Eu. Na verdade, não necessariamente eu, mas um sentimento que brota de vez em quando e que me diz que eu tenho um problema, digamos, de natureza temporal, e de que estou virando meu nariz sempre no tempo errado e pro lugar errado. E uma sensação de que isso é péssimo. E uma sensação de que a vida tá passando e que ela é muito rica pra ser desperdiçada assim. E uma sensação estranha que me remete a um carro que vive andando em marcha à ré. E uma sensação de que sou incapaz de encontrar a sintonia fina do hoje.
Decerto agora, agorinha mesmo, uma cena está rolando (na verdade, milhões de cenas estão rolando em todos os lugares), que seria fantástico conhecer, mas eu tô aqui fazendo um tour pela memória, acarinhando a incúria que o Mackenzie me desperta, vibrando com o Oasis, assistindo séries de 1995. O que tá rolando agora eu vou descobrir quem sabe daqui a uns vinte anos. Quem sabe...

Comentários

albir silva disse…
Fica a minha solidariedade, Sérgio. Também tenho essa sensação de atraso, retardamento.
sergio geia disse…
Grato, Albir, pela companhia. Tamojunto!

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