segunda-feira, 24 de julho de 2017

CORAGEM! EU ESTOU AQUI - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 10/07/17 – Zé do Porco não reclamava da miséria na roça, até porque não conhecia outra vida. Mas como não era ele quem decidia nada, acompanhou a namorada e o amigo Magrelo numa aventura pelo Rio de Janeiro. Pensou que as coisas iam bem pela quantidade de trabalho, mas enganou-se.)

 - As coisas tão ruins, Zé. Dinheiro só dá pra pagar, sobra nada. O porco em pé tá muito caro e, na hora de vender, não querem pagar muito. Os frigoríficos vendem mais barato e com documentos, certificados.

Zé largou o prato, perdeu a fome - coisa que raramente o abandonava.

- Pensei que ia bem, com tanto trabalho! – gemeu.

- Hoje mesmo tive que vender o cordão com Nossa Senhora que a minha mãe me deixou.

- Não Magrelo! Tu não pode fazer isso. Aquilo é lembrança de mãe!

- Que se há de fazer, Zé? Já foi.

Zé do Porco continuou trabalhando no mesmo ritmo, apesar da tristeza. O trabalho espantava os pensamentos. Não ligava se voltassem pra roça. Pra ele aquilo não era ruim. Mas tinha pena dos outros, que não gostavam de lá.

O que Zé do Porco não sabia era que a tristeza não parava por aí. Dessa vez foi Nalva que trouxe mais.

- Zé, eu vou-me embora. Não tô gostando mais de tu nem dessa casa. Também não vou voltar praquele fim de mundo não. Arrumei serviço de doméstica e vou ficar pelo Rio mesmo. Já peguei minhas coisas, viu? Adeus, Zé!

Zé nem falou nada. Queria dizer, “mas Nalva a gente tá junto há tanto tempo, o que que eu te fiz?” Mas não conseguiu.

Matou-se no trabalho mais um tempo, até que Magrelo falou:
- Dá mais não, Zé. Tamo pagando pra trabalhar. Hoje liquidei umas contas e vou entregar a casa. Vou voltar pra roça mais não. Não tenho paciência praquela vida. Arranjei trabalho no mercado e posso dormir lá no armazém. Infelizmente não dá pra tu não. Tem que saber ler e escrever. Tu dá lembrança a todos por lá e diz que quando der eu vou visitar. Tá aqui o que sobrou de dinheiro, fica com mais. Vou ficar com esses trocados aqui pra me virar até o pagamento. Dê cá um abraço, Zé. Nós vamos continuar irmãos.

Magrelo saiu sem ver as lágrimas do Zé amarrando a trouxa. Nem ferramentas levou de volta. No ônibus ainda suspirava comprido, olhando a estrada.

Lá nos cafundós do Jequitinhonha, Zé do Porco definhava. Foi Seu Aristides que aconselhou:

- Mulé, depois que desgosta da gente, a gente não corre atrás não. Mas amigo é diferente, Zé. Tu tá sem jeito aqui sem ninguém. Vai ver como está se virando Magrelo por lá. Quem sabe tu arranja trabalho também? Nunca vi morrer de fome quem quisesse trabalhar. Aqui tu vai morrer de desgosto.

Partiu Zé naquela noite mesma.

Chegou ao Rio com o sol. Perguntou ao antigo senhorio se sabia do seu amigo Magrelo.

- Em frente à Matriz, no açougue.

Então arranjou trabalho em açougue? Não há de ser cortando carne, que não sabe!

A primeira coisa que Zé do Porco viu foi Nalva, estendendo camisa de homem no terraço do sobrado, de cabelo louro. Conheceu só pela voz, porque ela cantava uma modinha que ele escutou muitas vezes antes.

Dali a pouco, um empregado levantou com estrondo uma das três portas de aço. Outro caixeiro colocou na calçada o cavalete com a promoção do dia, mas Zé não sabia ler.

Lá no fundo, atrás da registradora, Magrelo gritava ordens e xingamentos aos empregados. Os ouvidos do Zé escutavam, mas a cabeça já não entendia nada.

Não havia gente na rua nem cliente no açougue àquela hora. Os empregados foram para os fundos. Já atrás do balcão, Zé escolheu a faca de lâmina fina que reconheceu como sua preferida. Reconheceu também o cordão com a Nossa Senhora no peito do Magrelo de camisa aberta. “Ué, não tinha vendido?”

Magrelo levou um susto quando a faca entrou abaixo do esterno. Arregalou os olhos.

- Zé!

Foi um  trabalho limpo, de quem sabe fazer. Uma leve torção de punho. Tudo por dentro. Nada de sangue pela boca nem esguicho na faca.

- Vai doer nada não, Magrelo. Eu sei fazer isso.  – disse Zé com uma ponta de orgulho profissional. – Coragem! Eu estou aqui – acrescentou.

Segurou com a mão livre o ombro de Magrelo e encostou sua testa na dele durante alguns espasmos. Até que o amigo se acalmou e fechou os olhos.


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2 comentários:

Carla Dias disse...

Olha, eu não esperava esse desfecho. Impressionada com a forma com que Zé do Porco lidou com o abandono. Beijo, Albir!

Zoraya Cesar disse...

Albir, eu sabia q ia acabar em tragédia, mas deixa eu te dizer: o bom escritor é isso aí q você é: o leitor já sabe o que vai acontecer, mas vai até o final, e com você a gente nunca se decepciona. Final bem amarradíssimo! Maravilha de conto!