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DESASSOMBRO >> Carla Dias >>


Quanto mais o tempo se coloca entre nós e algumas das nossas histórias, mais essas histórias se parecem com a de outra pessoa. Poderíamos até contá-las como se falássemos sobre algum conhecido, com quem mantemos uma relação de afeto, apesar de estarmos distantes.

Acredito que o mesmo aconteça com os desejos para a vida. Não são apenas planos, projetos ou sonhos, mas desejos aos quais dedicamos muito tempo e trabalho para realizar, e que postergamos essa realização com a sensação de autoria desse ato, quando na verdade se trata de um cancelamento do destino. Não à toa, todos nós acabamos por conhecer – ou nos reconhecermos em – pessoas que não conseguem aceitar que esses desejos já não cabem mais na realidade delas.

Quando aprendemos que o indelével é tão frágil quanto o perfeito, nos tornamos capazes de reconhecer a riqueza da troca que a vida nos oferece. Os desejos podem não ser aqueles de há duas décadas. Eles podem ter sido transformados não somente pelo tempo que passa - proporcionando números a mais ao frescor da nossa idade -, mas também pelas experiências que acolhemos. Por mais experientes que possamos nos tornar com a passagem do tempo, é preciso nos despedirmos dos desejos para a vida que compusemos quando corpo e alma tinham todo tempo do mundo para realizá-los. Havia essa sintonia inspiradora, capaz de nos fazer alcançar o quase impossível. De duração que, mais tarde, vai nos soar como mais breve do que jamais imaginaríamos.

Apesar das mudanças oriundas do irrealizável, ainda temos todo o tempo do mundo. Pode não ser mais todo o tempo do mundo que tínhamos quando abraçamos aqueles desejos que, de acordo com a tenacidade do momento - regalia da ignorância sábia que incita possíveis corajosos -, eram nossos e tudo era questão de tempo e empenho. Ainda assim, é todo o tempo do mundo, o de cada um de nós, planando sobre o conhecimento adquirido, a sabedoria que conquistamos somente vivendo o muitas vezes desconhecido, compreendendo que há espaço para nós no improvável.

Extrair desses desejos para a vida a longevidade de um para sempre. Revê-los, abrir mãos de alguns, ainda que sejam marcantes na nossa biografia, praticamente definidores daquela pessoa que nos tornaríamos e que vendemos aos patrões - por meio de currículos e projetos -, e durante as conversas com os amigos - como desfecho decidido, sem espaço para mudanças. Negar a esses desejos o poder de nos guiar pela vida é o mesmo que oferecer espaço para o deslumbramento diante de uma surpresa. E essa é das liberdades aprazíveis.

Temos todo o tempo do mundo quando nos damos conta de que, com o tempo, somos capazes de abrir mão do que nos mantém estagnados, tamanha ansiedade por realizar desejos para a vida que nem mesmo condizem com a nossa história.

Assim, escolhemos o tempo de quem fala sobre si, reconhecendo-se.

Foto © Mônica Côrtes

Comentários

Lilu disse…
Gosto muito dos teus escritos, Carla. Este especialmente me tocou agora. Grata.
Carla Dias disse…
Lilu... Obrigada por se permitir tocar por um texto meu. Um beijo.