quarta-feira, 17 de junho de 2015

DESASSOMBRO >> Carla Dias >>


Quanto mais o tempo se coloca entre nós e algumas das nossas histórias, mais essas histórias se parecem com a de outra pessoa. Poderíamos até contá-las como se falássemos sobre algum conhecido, com quem mantemos uma relação de afeto, apesar de estarmos distantes.

Acredito que o mesmo aconteça com os desejos para a vida. Não são apenas planos, projetos ou sonhos, mas desejos aos quais dedicamos muito tempo e trabalho para realizar, e que postergamos essa realização com a sensação de autoria desse ato, quando na verdade se trata de um cancelamento do destino. Não à toa, todos nós acabamos por conhecer – ou nos reconhecermos em – pessoas que não conseguem aceitar que esses desejos já não cabem mais na realidade delas.

Quando aprendemos que o indelével é tão frágil quanto o perfeito, nos tornamos capazes de reconhecer a riqueza da troca que a vida nos oferece. Os desejos podem não ser aqueles de há duas décadas. Eles podem ter sido transformados não somente pelo tempo que passa - proporcionando números a mais ao frescor da nossa idade -, mas também pelas experiências que acolhemos. Por mais experientes que possamos nos tornar com a passagem do tempo, é preciso nos despedirmos dos desejos para a vida que compusemos quando corpo e alma tinham todo tempo do mundo para realizá-los. Havia essa sintonia inspiradora, capaz de nos fazer alcançar o quase impossível. De duração que, mais tarde, vai nos soar como mais breve do que jamais imaginaríamos.

Apesar das mudanças oriundas do irrealizável, ainda temos todo o tempo do mundo. Pode não ser mais todo o tempo do mundo que tínhamos quando abraçamos aqueles desejos que, de acordo com a tenacidade do momento - regalia da ignorância sábia que incita possíveis corajosos -, eram nossos e tudo era questão de tempo e empenho. Ainda assim, é todo o tempo do mundo, o de cada um de nós, planando sobre o conhecimento adquirido, a sabedoria que conquistamos somente vivendo o muitas vezes desconhecido, compreendendo que há espaço para nós no improvável.

Extrair desses desejos para a vida a longevidade de um para sempre. Revê-los, abrir mãos de alguns, ainda que sejam marcantes na nossa biografia, praticamente definidores daquela pessoa que nos tornaríamos e que vendemos aos patrões - por meio de currículos e projetos -, e durante as conversas com os amigos - como desfecho decidido, sem espaço para mudanças. Negar a esses desejos o poder de nos guiar pela vida é o mesmo que oferecer espaço para o deslumbramento diante de uma surpresa. E essa é das liberdades aprazíveis.

Temos todo o tempo do mundo quando nos damos conta de que, com o tempo, somos capazes de abrir mão do que nos mantém estagnados, tamanha ansiedade por realizar desejos para a vida que nem mesmo condizem com a nossa história.

Assim, escolhemos o tempo de quem fala sobre si, reconhecendo-se.

Foto © Mônica Côrtes



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2 comentários:

Lilu disse...

Gosto muito dos teus escritos, Carla. Este especialmente me tocou agora. Grata.

Carla Dias disse...

Lilu... Obrigada por se permitir tocar por um texto meu. Um beijo.