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A SURPREENDENTE DESCOBERTA >> Carla Dias >>


Disseram-lhe que Deus abençoava, mas ele só se conscientizou quando o gerente de marketing garantiu. Depois do uso, deu errado. Ninguém sabia dizer o motivo, nem mesmo o atendente do SAC, pelo qual foi atendido após 43 ligações e 43 protocolos anotados no verso daquela carta. Ele ficou confuso... Por que ninguém lhe esclareceu sobre os efeitos colaterais?

A mãe disse que era obra do diabo, que tinha dado errado porque ele assistiu àquele filme de título escabroso, noite passada. Benzia-se a mãe, enquanto a irmã alegava – voz arrastada, como se ainda não soubesse o significado das palavras - que a culpa era mesmo daquele político que, desastrada e desastrosamente, afanou a dignidade do cidadão. O pai, que ele pensou ser alheio aos acontecimentos da casa, verbalizou a indignação em ver o filho passando por apuros pelos quais homens de família jamais deveriam passar.

Colocou a carta no bolso, melhor não se afastar dos seus 43 números de protocolo. Saiu de casa ruminando a confusão emocional. Se Deus abençoou, não deveria ter saído tudo direitinho? E ele tem de tirar o chapéu para o diretor de marketing da campanha... Tudo muito requintado, divulgação na tevê, nas revistas – online e impressas -, sedutores flyers caindo direto na sua caixa postal, Merchandising durante a novela das nove e quinze, com aqueles atores e aquelas atrizes servindo de outdoor. Um deles até lhe mandou uma mensagem por e-mail, depois escreveu na sua timeline.

O colega de trabalho ficou lhe encarando durante um bom tempo, numa mudez, olhar vagueando pelo escritório. O colega de trabalho acha que faltou empenho dele. Não tem a ver com efeitos colaterais, que se machucasse, deixasse doente, era obrigatório que a informação constasse no material de divulgação. E diretores de marketing vendem o produto. Não inventam sobre ele.

Na hora do almoço, encontrou com o primo de segundo grau, aquele que se casou com a prima de primeiro grau. Após escutar a história toda, ele balançou a cabeça, negativamente, enquanto falava sobre como Deus está por fora, e o marketing é coisa do capeta. Que ambos deviam rever as suas propostas, Deus e o diretor de marketing, pois a promessa deles era de salvação, e nada nem ninguém foi salvo.

Tentou o SAC novamente, que precisava entender essa coisa de responsabilidade. Afinal, de quem era a culpa de tudo ter dado errado? Desistiu após anotar, naquela carta que trazia no bolso, o número do protocolo 16. Sentia-se cansado, aborrecido, desiludido, com saudade do beijo da Letícia, afrontado.

Tentou a igreja. O padre estava ocupado com a confissão dos coroinhas. O templo. O pastor saiu para um café com um vendedor de uma nova maquininha para cartões de crédito. Bateu à porta da sede do seu partido, mas ninguém atendeu. Poderia ter tentado outras religiões, outras sedes de outros partidos, mas se sentia cansado, aborrecido, desiludido, com vontade de se enroscar nas pernas da Letícia, desrespeitado.

Sentou-se naquele banco, de frente para o mar. Tanta beleza que lhe faltou o fôlego. Como pode haver cenário feito esse em um mundo em que gastamos horas tentando falar com uma pessoa pelo SAC? Será que nos tornamos clientes da vida, em vez de donos dela, ao menos da nossa própria?

Passa muito tempo ali, refletindo, enquanto o dia vai acabando. Gosta do clima do outono, do friozinho que chega com a noite. Coloca as mãos nos bolsos do casaco, e somente ao tocá-la ele se lembra da tal carta. Chegou quando mesmo? Nem sabe... Quem ainda manda cartas? Por que não uma mensagem por e-mail?

O envelope todo rabiscado com números que não deram em nada. Ele a observa e sorri, pensando nas obras de pintores surrealistas. É um envelope fino, provavelmente conta a vencer. Sem remetente, ele se sente um destinatário profundamente solitário. Abre o envelope, tirando de dentro dele uma única folha de papel. Nessa folha, palavras escritas à mão, caneta azul, tão diferente das tradicionais digitadas em fonte cursiva, impressas na cor cinza-bem-escuro. Ele se sente levemente feliz. Há tempos não vê a letra de alguém.

Começa a leitura. Aos poucos, seu corpo passa a se comportar estranhamente. Ele sente o tal estremecer, e a boca seca? Pra quê?

São poucas palavras, porém arrebatadoras. De acordo com esse ser anônimo, essa pessoa que se preocupou em elucidar a questão, a culpa de ter dado tudo tão errado é ele mesmo. Ele é o próprio efeito colateral.

Que Deus não tem nada a ver com a história, e o diretor de marketing, responsável por campanhas arrebatadoras como esta, ele é somente um profissional qualificado – e muito bem pago - para escrever ficção, a fim de vender o que quase ninguém realmente precisa. Serviço de Atendimento ao Cliente está pouco se lixando para o cliente. Assim como muitos líderes religiosos. Todos estão em campanha.

Os olhos aguados... Como pôde fazer isso consigo mesmo? Feito, fazer o quê? Ele se sente cansado, aborrecido, desiludido, com vontade de chorar no colo de Letícia, desorientado. E assim como a noite, também chega essa certeza custosa de se aceitar, mas que ele tem de engolir. A culpa é dele, porque a escolha foi dele, porque a vida é dele, e ele não tinha se dado conta disso porque andava ocupado demais anotando protocolos.

Imagem: Untitled © Jean-Michel Basquiat

carladias.com

Comentários

Itamar disse…
...anotando protocolos... e teclando celulares.
Carla Dias disse…
Itamar... E a vida seguindo, do jeitinho dela.

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