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ESCOLHAS >> Zoraya Cesar

Miranda queria um amor. Um amor suficiente, dizia, que fosse para sempre. Não queria paixões, não queria arroubos, suspirares românticos, melosidades. Queria mão na mão, cumplicidades, silêncios, um amor suficiente para colorir a alma e fazer da vida uma experiência melhor. Um amor para o dia a dia; para a noite também. 

Em junho, mês de Santo Antonio, Miranda pediu-lhe que a ajudasse a encontrar o seu amor suficiente. E, coincidência ou não, assim que saiu da igreja, Miranda encontra o homem que fora o grande amor de sua vida. Coisa de cinema. Eles pararam, olharam-se longamente, aproximando-se em câmara lenta. Primeiro, encostaram as testas, depois o nariz, depois a boca. O beijo foi longo, profundo, e, aos poucos, os braços dele a envolveram como se nunca mais fosse soltá-la, como se os 15 anos de afastamento nunca tivessem existido. Só se largaram quando a necessidade de respirar foi mais forte.

Jonas! O beijo, o cheiro, a maneira de abraçar, de sorrir, nada mudara. Estava um pouco grisalho, um tanto barrigudo, usava um brinco na orelha. E uma enorme aliança envolvia seu dedo anular esquerdo. Jonas casara.

Estava casado, sim, mas mal-casado. A mulher era bonita e boa pessoa, mas tinha um gênio intragável, brigava a troco de nada, implicava com tudo, desde a maneira dele dirigir (e Miranda lembrava de como ele dirigia bem) até o tempo que ele passava no banho. Não tinha separado ainda por pura inércia. Escolhas.

Vindo de qualquer outro homem, Miranda acharia que seria o velho golpe aplicado por homens casados, mas Jonas sempre fora correto, uma das qualidades que ela mais admirara nele.

O coração, esse ser rebelde. A paixão e o amor ressuscitaram em Miranda ainda mais fortes do que foram um dia. Ela entrou num dilema existencial: não pediria que Jonas se separasse, nem seria amante de homem casado. Mas o vento que sopra cá também sopra lá, e em pouco tempo Miranda percebeu que não era a única a ter caído de amores.

Ela nada pediu. Estava feliz, amando um homem que já conhecia, sabia o caráter, experimentara o sabor. Por enquanto, tê-lo novamente em sua vida lhe bastava. Não precisava de sexo, nem finais de semana, telefonemas a todo momento, nada dessas ‘adolescências’. Nunca ligara para ele, receosa de causar constrangimentos. E talvez tudo ficasse por isso mesmo se Jonas não lhe comunicasse que decidira se separar. Escolhas.

Disse que não perderia, de novo, a mulher de sua vida. Garantiu que, tão logo a esposa se mudasse, eles ficariam juntos, casariam de papel passado, na Igreja, tudo nos conformes. 

Miranda perdeu o norte e o equilíbrio que mantivera até então. Agora que existia a real possibilidade de realizar o seu amor, nasceu nela uma urgência, uma necessidade, de andar de mãos dadas, dormir na mesma cama, de passar o resto da vida com ele, e quanto antes, melhor.

Ansiosa, sim; descontrolada, não. Feliz com a perspectiva de ficar com o homem que amava -, Miranda esperou. Primeiro, que a esposa de Jonas terminasse as reformas do apartamento. Depois, que ela extirpasse um cisto do ovário. Esperou, por fim, que ele entrasse com os papeis da separação e tirasse a aliança do dedo. Miranda tudo esperou e tudo entendeu, a vida não era simples mesmo. Escolhas.

Ademais, no passado, Jonas sempre dera sobejas provas de ser bom caráter, reto, honesto; Miranda não tinha por que duvidar de sua sinceridade ou amor. 

Os fatos, no entanto, falaram por si. De repente, Jonas deixou de enviar mensagens carinhosas; não ligava na hora combinada; conversavam apenas sobre os problemas dele, nunca os dela. Até que ele sumiu por uma semana, ao final da qual ligou para Miranda, apenas para dizer que estava resolvendo sérios problemas, e que eles tinham de conversar. E desligou sem mais explicações. 

Miranda ajoelhou-se aos pés de Santo Antonio e rezou. Não entendia o que estava acontecendo, mas pediu para que tudo se esclarecesse, ela aceitaria a vontade Divina. E esperou. Esperou duas, três semanas, mas Jonas não ligou de volta. 

Humilhada e arrasada de tristeza, Miranda resignou-se, respirou fundo e seguiu em frente. Jonas se transformara em um velhaco mentiroso. E ela não queria um homem assim. Portanto, nunca o procurou, nem para saber  que acontecera. Aceitou a resposta do seu Santo de devoção. Escolhas.

Os meses passaram, claro, pois é característica dos meses passarem assim, sem nos pedir licença. 

E eis que chegamos, de novo, em junho, e eis que vemos Miranda saindo da Igreja de Santo Antonio e encontrando... quem? Jonas, claro, quem poderia ser? O príncipe encantado? 

Nada mais longe disso. Jonas envelhecera muito, a barriga enorme, o cabelo ralo. Discutiam, ele e uma mulher, asperamente. Miranda reconheceu-a, era a esposa de Jonas. Então, pensou, eles continuavam juntos. Voltou à Igreja. Ajoelhou-se. E agradeceu, por se livrar daquele covarde mentiroso. 

Aliviada, Miranda achou que já era hora de voltar a pedir por um amor suficiente. Continuou, portanto, ajoelhada.

(Os meses passam, mas, também, às vezes, trazem algumas surpresas, portanto, não se preocupem. Se Jonas continuou numa união infeliz, e nós nunca saberemos o porquê de sua escolha, Miranda, finalmente, encontrou o seu “amor suficiente”. Se foi pra sempre, também não temos como saber, pois, como diz o Oswaldo Montenegro, pra sempre não é todo dia)



Comentários

sergio geia disse…
Legal, Zoraya, muito boa! Adorei "um amor suficiente para colorir a alma e fazer da vida uma experiência melhor." E "nada dessas ‘adolescências’" rsrs". Lendo a crônica me veio à mente a frase que vi num filme: "Todos nós fazemos escolhas na vida, o difícil é conviver com elas”. Gde abraço!
Maria Elena disse…
Eh amiga... adorei...
"queria um amor. Um amor suficiente,....." "Não queria paixões, não queria arroubos, suspirares românticos, melosidades. Queria mão na mão, cumplicidades, silêncios, um amor suficiente para colorir a alma e fazer da vida uma experiência melhor. Um amor para o dia a dia; para a noite também."
Amei...
Anônimo disse…
Eu quero a sorte de um amor tranquilo ...
Ana Luzia disse…
É, amiga, dessa vez tenho pouco a dizer... um amor suficiente é um bom tamanho de amor... que Antônio possa atender a tantos amores pedidos.

beijo.
Marcio disse…
Acho que a Miranda deveria cobrar explicações de Santo Antônio, e não do Jonas, que seguiu o roteiro que se poderia esperar dele.

Santo Antônio: eis o grande vilão dessa crônica.
albir silva disse…
A sorte de Miranda é que Santo Antônio parece ser pra sempre todo dia.
Anônimo disse…
è um alívio ler algo que nos dá esperança. Acho q o Jonas teve medo de ser feliz, ou a culpa de largar a mulher falou mais alto. Coitado dele. Sorte teve a Miranda, vai ter vida nova.
Carol
Anônimo disse…
Santo Antônio é o santo protetor das famílias, que não deixa o pão faltar nas mesas, já dizia minha avó, devota de Santo Antonio...
Que bom que ela se livrou do traste, afinal,"figurinha repetida não completa álbum!"

Cecilia

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