domingo, 21 de junho de 2015

DO PERDÃO >> Whisner Fraga

Naquela época, o Brasil vivia uma crise e minha família também. Com o divórcio, minha mãe, uma dona-de-casa esperta e temerosa, tentava sobreviver. Da separação ficara com uma casa razoavelmente grande, que alugava. Tinha uma pequena renda, oriunda dessa locação e da pensão de um salário mínimo ao mês. Como morava apenas com meu irmão, não precisava de um imóvel tão grande, de modo que ambos locavam um apartamento de dois quartos.

Minha mãe é uma pessoa muito correta, de forma que prefere sacrificar o que for possível e o que não for para não ficar devendo a ninguém. A família que habitava a casa dela não era rica, mas os parentes sim. Era um irmão o responsável por todas as despesas deles. A coisa ia razoavelmente bem, a não ser pelos constantes atrasos no pagamento. Os milionários não eram pontuais na liquidação de suas dívidas.

Minha mãe, acostumada, explicava para o Enio da farmácia, para o Sebastião do mercado e para o Vilela, do varejão. Todos entendiam que a senhora era uma boa pagadora e que um dia receberiam o que vendiam fiado. Só que um dia a coisa degringolou. O locatário atrasou quatro meses seguidos. Recebi um telefonema da velha, se eu não podia ajudá-la. Financeiramente não. Naquela época eu mal tinha para a comida. Vivia da ajuda do pai, de bolsas da universidade e de pequenos trabalhos para os colegas.

Logo ela esclareceu que queria outro tipo de força: que eu ligasse para o Fulano riquíssimo e tentasse resgatar o que ele lhe devia, de preferência com juros. Então telefonei para a casa do senhor e quem atendeu foi a filha dele. Pedi a ela que chamasse o pai e ela perguntou qual seria o assunto. Adiantei o expediente e fui humilhado ali mesmo, virtualmente. Que eu não sabia com quem estava falando, que a família dela não era afeita a calotes, que ela iria me processar, que eu não era ninguém, que ela era isso e aquilo e muito mais e assim por diante. Inexperiente, me rendi aos aparentes fatos e decretei o fracasso a minha mãe.

Lógico que a vontade que tinha era de ir lá e tirar tudo a limpo. Se fosse hoje, a coisa não ficaria assim. Mas como não desejo mal a ninguém, só espero que a família tenha se ferrado aí pela vida afora e ficado pobre graças a algum investimento malfeito. Mais do que isso seria maldade. Hoje eu entendo que o que aquela moça fez é parte de uma cultura machista que ainda está tão em voga e que tem como objetivo simplesmente humilhar os mais fracos.

Voltei para meu curso de engenharia, chateado porque naquele momento experimentava a maldade e a falta de solidariedade típicas do ser-humano. Minha mãe passou por aquela, conseguiu quitar suas dívidas, um pouco, paradoxalmente, graças à boa-vontade dos comerciantes da cidade. E nesse momento experimentei também a benevolência e o altruísmo típicos do ser-humano. E descobri que a vida é injustiça e perversidade, mas também mistério e clemência, como deve ser.

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