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AS PESSOAS E A SUA PESSOA >> Carla Dias >>


Ele chega com seu olhar adequado, procurando pelo que lhe cabe, o que há de ser palatável à sua compreensão adotada por puro conforto. Avista pessoas lidando com a felicidade dos ébrios e das invencionices, determinados a desfilar pelas colunas sociais da percepção de seus contatos comerciais.

Ele se demora na contemplação distante, como a fazer contagem regressiva para o final do comercial e a volta ao reality show preferido. Respira fundo e tica itens, mentalmente: melhor roupa, ok, sapatos lustrados, ok, melhor perfume, ok, barba bem feita, ok, cartão de crédito com limite nas nuvens, ok. Tudo e todos parecem estar onde deveriam.

Inclusive ele.

Caminha até os amigos recém-conquistados, assim como o cargo de diretor geral de prestigiosa multinacional. Os adjetivos, adquiridos com o posto, ainda lhe soam estranhamente. Porém, não é difícil se acostumar a eles, tampouco à mudança de salário ou ao aroma de um Henri Jayer Richebourg Grand Cru. Lembra-se, então – enquanto beija as faces da moça que pretende cortejar, percebendo-se arrebatado pelo seu perfume –, de que o valor do vinho é quase o mesmo da entrada que deu na compra da sua primeira casa.

A noite segue tranquilamente. Todos sabem que ele é um homem reservado e, como profissional, tem demonstrado habilidades fundamentais para a construção de uma carreira de sucesso. Sua vida parece ter se adequado a um espaço que lhe fora reservado pelo destino ou o que seja responsável pela troca de dedicação por sucesso. Sua mãe, uma senhorinha miúda de voz estridente, nega-se a sucumbir ao novo status do filho. Negou-se a se mudar para o apartamento dele em área nobre da cidade, alegando que ficaria muito longe da bodega que herdou de seus pais, e na qual vem trabalhando desde menina. São mais de cinco décadas se debruçando naquele balcão, que já foi reformado tantas vezes, mas continua no mesmo lugar.

Essa é a grande questão para ele. A questão que ele tenta ignorar na companhia de seus novos amigos, diante da deslumbrante vista da cidade que o restaurante oferece. As nuances sempre lhe desafiaram o autoentendimento. Sente-se grato pelo conforto e pelas facilidades, ciente de que trabalhou duro para conquistar seu espaço. Que ainda trabalhará muito para mantê-lo. Ainda assim, sua mente lhe boicota, mostrando-lhe que trocaria, facilmente, a companhia dessas pessoas por uma boa conversa com a mãe sobre como foi o dia dela, cada um deles debruçado de um lado do balcão, bebendo café.

Não demora e a comemoração pelo sucesso de um novo projeto da empresa evolui para conversas sobre eles mesmos: a casa que um comprou na Europa, o carro que outro adquiriu para sua seleta coleção, as ações que tornaram a outra mais rica do que já era. Enquanto escuta as histórias, observa a moça que pensara em cortejar, mas não teve coragem de seguir adiante. Funcionária do departamento jurídico da empresa, ele se encontrou com ela algumas vezes, durante reuniões. Ela é a única pessoa do grupo que parece alheia ao que acontece, além dele. Porque ele escuta o que aquelas pessoas dizem, mas logo perde o interesse.

Não vê nada de errado em ter dinheiro e status. Ele mesmo encheu o armário de ternos que nunca imaginara poder usar na vida, e muitas das regalias que recebe são bem-vindas. Mas a verdade é que ter dinheiro e status não dá direito a ninguém de desvalorizar o outro. Logo, a conversa sobre posses é direcionada às pessoas. Porque a “empregadinha” pensa que pode frequentar o mesmo bar que ele; a mãe pobre do noivo acredita que irá morar na mesma casa que ela e o “pretinho” comentou que está estudando para ocupar um cargo melhor, onde já se viu? “Aquelazinha” é gorda demais, feia demais, brega demais, e aquele cabelo pixaim?

Toca o celular e ele pede licença para atender a ligação. Vai até a varanda do restaurante, encara aquela vista com mais intimidade. A mãe quer saber o que ele quer comer no domingo. Os irmãos e noras e sobrinhos vão aparecer para o almoço, para a comemoração do aniversário daquela senhora gentil, que o criou para respeitar a si e aos outros. “Qualquer coisa, mãe, contanto que a sobremesa seja canjica”. Ela gargalha baixinho, que não entende como ele, desde molequinho, é apaixonado por canjica.

Seu olhar já se desenquadrou da tentativa de gastar sua simpatia com quem não respeita ninguém que não faça parte do seu círculo, da sua tribo. Há vida acontecendo além desses muros que pessoas criam para se protegerem do que não entendem, tampouco desejam compreender.

Enquanto o garçom lhe serve, ele pensa em seu primeiro apartamento. Foi lá onde estudou muito, teve as melhores conversas com seus amigos e familiares. A empregada que sustenta a si e aos três filhos com seu trabalho, a sua mãe que sempre foi humilde, ainda assim, das mais gentis e sábias. Pretinho, Pretinho... Tocou guitarra na banda do Pretinho, um cantor de voz potente e afinada. E aquela moça...

Ele a observa da varanda, sentada à mesa com aquele grupo de pessoas, definitivamente alheia a elas por escolha. Compreende que estar ali é compromisso de trabalho para ela. A moça olha adiante e o encara. Sorri o sorriso de quem sabe que ele sabe. De quem sabe que é ela a “aquelazinha”, gorda, feia, brega e de cabelo pixaim. Como ela consegue ficar indiferente a eles?

Ele sorri de volta. Sorri o sorriso de quem a enxerga de maneira afetuosa. A partir daí, nem se dá ao trabalho de escutar o que os outros dizem. Só consegue imaginar como seria navegar dedos nos cabelos dela.


Comentários

Anônimo disse…
Maravilha!
Poesia pura.
Viva a literatura!

Enio.
A gente vai entrando, entrando,
palavra por palavra,
e, no final, é tudo lindeza. :)
Grato, Carla.
Carla Dias disse…
Enio... Viva!

Eduardo... Eu que lhe agradeço o tempo e o desejo em ler meus escritos.

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