sábado, 20 de junho de 2015

CANTIL >> Sergio Geia


Deixa eu lhe contar essa: o programa era um churrasco com amigos, com direito a violão, pagode e piscina. Nada mais ordinário nesse mundo de encher o bucho. Forrei a sacolinha de supermercado com as cervejas que encontrei na geladeira, mas o que eu queria mesmo, amigo, era levar minha cachaça que guardo aqui no cofre dos destilados, para poder, nos intervalos entre uma malpassada picanha e outra, dar uma bicada no líquido precioso.

A cachaça que tenho aqui, muito bem armazenada por sinal, num espaço de minha sala que alcunhei de “cofre dos destilados”, é de bálsamo, produzida num alambique esplêndido da cidade de Guararema, e trazida até mim pelas mãos sagradas e embriagadas do Julio, grande amigo cuja sogra mora lá, numa aprazível chácara nos arredores da estradinha que vai dar em Mogi. Pra quem não sabe, Mogi e Guararema são unha e carne; como Taubaté e Tremembé, Santana de Parnaíba e Barueri.

Tenho certeza que meus amigos cachaceiros apreciariam a delicadeza do gesto, e assim, além de me proporcionar um grande prazer, faria a alegria da moçada. Mas onde depositar o precioso líquido a fim de salvaguardá-lo das impurezas do caminho, pra que pudesse chegar são e salvo aos braços da galera? E aos beiços também? Não tinha o recipiente adequado e levar a garrafa inteira seria no mínimo deselegante, sem contar a desagradável possibilidade de eu voltar pra casa de bucho cheio mas de garrafa vazia.

Lembrei-me daquela garrafinha pequena de uísque, quadrada e prateada, de aço inox, tão comum de se ver nos bolsos dos pinguços da novela da Globo, que no escritório, num momento de fuga profissional, escondidos na bolha imaginária do ambiente vazio, tiram do bolso do sóbrio paletó e a levam até a boca, bebendo de forma tão prazerosa o bicho, que nos faz pensar de onde vem substância tão estimulante, que Ricardo, meu camarada de São José dos Campos, não se cansa de chamar de “líquido dos deuses”.

Mas esqueça essa história, amigo. Já foi. Para lhe matar a curiosidade, se é que ela brotou, informo que naquele dia não tinha o cantil porta-bebida, e tratei de levar o garrafão mesmo, que nem voltou pra casa, pois secou nas duas primeiras horas de festa.

Pois outro dia, caminhando no calçadão, lembrei-me do ocorrido e tratei de procurar o tal cantil. Entre meandros e corredores de lojas e armazéns, a grande dificuldade que encontrei foi me fazer claro na informação do produto que desejava. Ou sou um péssimo comunicador, ou essas atendentes jovenzinhas não entendem nada de cantil. Depois de muito espiar, pois não queria incomodar e nem ser passado por bebum, eis que me via sempre em apuros sendo obrigado a perguntar. De repente, a vendedora saberia o caminho das pedras, ora bolas.

Que nada. Ela sequer atingia o nível de sofisticação da minha solicitação. E isso não foi em apenas num lugar, mas em vários. No entanto, já quase desistindo da empreitada, eis que me surge no caminho um simpático varão; coreano. A loja tinha lá suas miudezas, e eu o procurei imediatamente, já cansado de tanta desinformação. “Uma garrafinha de bolso pra transportar cachaça, amigo”. Confesso que não entendi nada do seu português. Mas nem precisou. Ele mais do que depressa se enveredou pelos corredores escuros da loja e logo voltou trazendo o meu cantil.


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