Pular para o conteúdo principal

SOBRE O AMOR INTEGRAL E BOICOTES >> Mariana Scherma

A primeira vez que eu vi a propaganda do Dia dos Namorados, de O Boticário, pensei comigo: “que lindo! E que bom que as pessoas estão tornando o amor mais real, sem preconceito!”. Depois, vi com meus pais e chegamos à mesma conclusão. É em casa que a gente aprende que preconceito só atrasa. Amor vai ser sempre amor, não importa se hetero, homo ou qualquer outra denominação. Todo mundo tem direito de gostar de alguém, seja ele branco, negro, amarelo, homem, mulher ou inventado.

Mas aí teve até uma reclamação no site Reclame Aqui de uma mulher insatisfeita por “ver a banalização das famílias no modelo tradicional”. Oi?! Ela diz mudar de canal toda vez que vê uma cena gay e não quer que seus filhos assistam à propaganda. Oi?! De novo. Toda vez que eu me deparo com esse tipo de preconceito, cresce uma revolta tão grande dentro de mim que fica impossível engolir e continuar, tipo engolir sapo, sabe? Dessa vez, não vou engolir e ainda vou dizer umas duas ou três coisinhas a esse tipo de gente carregada e pesada de tanto preconceito neste espaço. Desculpe-me você que não pensa como essa senhora, mas vamos lá:

Alguns de meus melhores amigos são gays. E também são as pessoas mais honestas que eu já encontrei pelo caminho. Eles doam sangue, doam brinquedos para as crianças mais necessitadas, pagam seus impostos em dia, votam com consciência, não param em vagas de idosos, enfim, agem com consciência de cidadão, que sabe ter deveres e direitos. Você, pessoa cheia de preconceito, acha que um homossexual, só por gostar de alguém do mesmo sexo, perde seu valor como pessoa? Jamais.

Uma vez, um amigo gay me disse que ele gosta da alma de um parceiro, independente de ser mulher ou homem. Você, pessoa carregada de preconceito, já se apaixonou pela alma de alguém? Ou prefere dar valor às posses, porte físico e cor dos olhos?

Conversando ainda com um amigo, disse a ele que não veria problema se meu filho fosse homossexual, porque me considero sem preconceito e blábláblá. Sabe o que me amigo me respondeu? Que seria melhor que meu filho nascesse hetero mesmo, porque o mundo é mais duro com os gays. Fiquei pensando nisso e hoje tenho a resposta ao meu amigo: não é o mundo que é duro, mas algumas (muitas) pessoas que são e fazem o dia a dia de pessoas tão pessoas como a gente mais difícil, mais sofrido.

Não deveria ser assim. Eu, hetero, nem faço ideia de todo o sofrimento que os homossexuais enfrentam, mas sei que eles não deveriam sofrer nenhum tipo de preconceito só porque amam. Amar deveria ser sinônimo de liberdade. Amar deveria ser fácil.


Boicotar marcas que sejam gay friendly é o mesmo que boicotar gente sem preconceito, gente que não distingue amor. Que triste dia dos namorados esse pessoal vai ter, sem saber o que é amor de verdade. Talvez esse já seja um grande castigo. Nem vou desejar mal.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …