sábado, 27 de junho de 2015

O PADRE E O CARTEIRO >> Sergio Geia






Escolho uma mesa que fica encostada na parede, a última na verdade, lugar que me dá uma boa visão do lugar. Peço pra mocinha o de sempre: pão com manteiga na chapa; café expresso com leite, pequeno; um suco de laranja coado e com gelo.

É mais uma manhã comum do meu dia. Já tinha corrido na Santa Teresinha, agora tomo café, depois uma ducha, para enfim trabalhar. Mas sinto que minha curiosidade de cronista está aguçada e, enquanto espero o café, me ponho de butuca atento ao ambiente, às pessoas, tudo, à cata de matéria-prima.

Normalmente, amigo, faço isso naturalmente, como respirar. Quando dou por mim, estou lá, um abelhudo concentrado no sujeito lendo jornal, nas meninas conversando, no casal tomando café, até num papo de doença entabulado com alegria por dois velhinhos. Há muito material pulsante esperando pra virar crônica. A vida é a minha matéria-prima.

Mas hoje sinto que estou com os sentidos mais aguçados do que o normal. Infelizmente, porém, vendo o tempo passar, já tomando suco, vejo que não encontro nada interessante no simples caminhar de uma padaria numa fria manhã: pessoas chegando pra comprar pão; outras, como eu, pra tomar café; as mesinhas sendo preenchidas por trabalhadores do entorno, o balcão com aqueles que preferem algo mais informal, café preto no copo americano, a leitura do jornal.

Como o carteiro. Deve ser íntimo da turma, pois vai abraçando todo mundo, falando em voz alta como se estivesse em sua casa. Noto que ele deixa a correspondência no balcão, senta, pega o jornal e pede um pingado e pão com ovo. Depois olha pro seu vizinho – um mauricinho, a barba por fazer, camisa comprida por fora da calça – e aponta o jornal, caçoando de alguma coisa. Deve ser corintiano, penso, mostrando a classificação e tirando sarro do Palmeiras.

Chega o padre. Eu o conheço da Santa Teresinha. “Bom dia!”. A voz se impõe, muita gente olha. Ele só olha pra mocinha e diz: “O mesmo de sempre”. O padre toma café todos os dias ali, as meninas já conhecem as suas preferências. Uma figura simpática, alegre, bem quista por todos. Outro dia o encontrei num restaurante, na Professor Moreira. Acho que almoça sempre lá. Acho uma ironia a vida de um padre. Cercado por uma comunidade inteira, por bajuladores dos oito aos oitenta e oito (principalmente), e uma vida tão solitária. Acho que padre sofre de solidão. Acho.

Levanto para pagar a conta e encaro uma filinha. Olho de lado, e vejo agora o padre e o carteiro conversando. Amigos íntimos. Na ducha, faço um pequeno resumo. Concluo que nada de interessante aconteceu. No entanto, ouço uma voz dizer que o charme de uma crônica é exatamente isso, escrever sobre as banalidades da vida, o cotidiano simples das pessoas, coisas que passam despercebidas pra muita gente. Um olhar na insignificância. Depois escuto Prata, o pai, falar: “fazer crônica é transformar banalidade em arte”. Sim, é isso. Como eu poderia ter esquecido? Desligo o chuveiro com a nítida sensação de que a crônica já está pronta.


Ilustração: Romeo y Julieta ante el padre Lorenzo – Karl Ludwig Friedrich Becker



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2 comentários:

Zoraya disse...

Sergio, se a arte de escrever crônicas é transformar em arte a banalidade da vida, vc acaba de transformar sua crõnica em arte. Linda, linda, linda. Na verdade, estou relendo e, nessa releitura, gostando ainda mais.

sergio geia disse...

Obrigado, Zoraya, mais uma vez. Eu gosto muito de crônica que trata das coisas simples, do cotidiano das pessoas. De vez em quando sai uma dessas. Gde abraço!