segunda-feira, 29 de junho de 2015

DE CORAÇÃO PARA CONTINENTE
>> Albir José Inácio da Silva

De um lado o Forte de Copacabana, do outro Niterói e as montanhas, e no meio, invisível, a África. África, segundo os mapas, porque eu, o que vejo é uma reta ligando as duas pontas. Abaixo dela o azul verde do mar, acima o azul claro do céu na manhã de inverno.

Tenho a sensação de que da África alguém, como eu, olha pra cá. Por que não olharia? O sol é o mesmo, o mar é o mesmo e as histórias se cruzam. Além disso, a linha tropical e pontilhada de Capricórnio nos liga. Será que alguém sentado na areia não tem os olhos apertados pelo sol na direção do Rio de Janeiro? Ah, tem!

Cisma o irmão africano, e atrás dele o enorme continente negro, berço da humanidade, tão aviltado pelos humanos portadores da pólvora, que homens livres fizeram atravessar o mar em correntes para a morte no mar ou a morte em vida.

Será que o sangue do irmão pulsa fraterno pelo Brasil que ele também não vê? Pode ser que se convença de que nós aqui neste século XXI não somos mais que seus irmãos para o bem e para o mal. Mas talvez tenha herdado, e dedique a nós, todo o rancor pelos traficantes de escravos, senhores, capatazes e capitães do mato que arrancaram de lá ou receberam aqui seus ancestrais.

Faço votos que não. Tomara que ele compreenda que seu sangue também corre nas veias deste continente e que, como eles, aqui ainda sofremos exílios, extermínios e tentativas de escravidão. De tempos em tempos, do muro da vergonha lá no fim do México à Terra do Fogo, não nos faltam suseranos a pedir décimos, quintos e primícias, e a nos dar tiros pela ousadia de sobreviver e alimentar os filhos.

Levanto o braço na direção do horizonte, sem me importar com os circunstantes, e declamo para uma praia da Namíbia que não vejo:

— Se Portugal chorou o mar para conquistá-lo, irmão africano, nós choramos um oceano porque fomos conquistados. Estenda sua mão para as águas, como se fosse apertar a minha e como se pudéssemos, puxando, reunir os continentes. Num abraço em que choremos nossa alegria e cantemos nossas dores. Saudações atlânticas!


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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que beleza de mirada e de saudação, Albir! :)

albir silva disse...

Obrigado, Edu! Sempre.

Zoraya disse...

Que maravilha, Albir, que texto delicado e emocionante! Perfeito para qq hora do dia, que dirá uma manhã de sábado!

Viviane Costa disse...

Parabéns! Obrigada por compartilhar seu conhecimento conosco. É incrível a forma como você relaciona os fatos ao lembrar as marcas históricas do nosso povo. Parabéns, você não é só um cronista, é um poeta!

albir silva disse...

Obrigado, Zoraya e Vivi, pela generosidade.

albir silva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.