terça-feira, 2 de junho de 2015

TÁ DIFÍCIL >> Clara Braga

Lá estava eu no carro, no banco do carona, conversando com o motorista tranquilamente quando em questão de segundos tudo muda. O carro da frente, andando um pouco distante, estaciona na parada de ônibus, o motorista abre a porta e se joga na frente do nosso carro. Reação instantânea e espontânea? Um berro que veio do fundo da alma e dizia: DESVIAAAAAAAA!!!!!!!!!!

Nem me lembro a última vez que gritei dessa forma, o susto literalmente me fez passar mal. Nunca tinha passado por nenhuma situação parecida. Já tinha imaginado como reagiria e o que é correto fazer, mas sentir na pele, nos músculos, nos ossos e na alma, isso nunca.

Alguns calmantes depois consegui começar a tentar assimilar a situação. Sim, apesar da lembrança ser um borrão como um sonho, um homem tinha de fato se atirado na frente do carro. Suicídio? Acredito que não, ele balançava as mãos para o alto quase exigindo que a gente parasse, e quando viu que não íamos parar de jeito nenhum, pulou para o lado contrário. Estava fugindo de um sequestro? Acho difícil, ninguém saiu atrás dele, parecia estar sozinho. Visualmente não estava armado nem machucado. Bem vestido. Pedindo ajuda para alguém que estava passando mal dentro do carro? Convenhamos, essa não é a melhor forma de pedir socorro, principalmente se você está dirigindo um carro, ou seja, pode levar essa pessoa até um hospital sem arriscar sua vida na frente dos carros. Sim, carros no plural, pois quando olhei para trás pude ver ele se jogar na frente de mais um carro e um ônibus. Caso você esteja se perguntando, todos desviaram.

Eu, ao mesmo tempo que me sentia aliviada de ter saído ilesa de uma possível tentativa de assalto ou sequestro - a não ser pelas tremedeiras nas pernas, uma noite de insônia e alguns cabelos brancos que apareceram - também me questionava se na verdade não tínhamos acabado de negar ajuda para alguém que necessitava. Não nego que a consciência deu uma leve pesada, mas nada foi mais pesado do que perceber que, sim, para sobrevivermos hoje temos que encarar o outro como um inimigo e prezar pela nossa vida, caso contrário, você pode estar entregando a sua vida em uma bandeja para um desconhecido.

Depois, conversando sobre o caso com algumas pessoas que possuem familiares na polícia, descobri que esse aparentemente é o novo golpe. A pessoa finge estar desesperada, precisando de socorro. Você, instintivamente, para no intuito de ajudar e acaba sendo sequestrado. Alguns nem agem sozinhos, atuam logo em grupo para poderem ocupar a pista inteira e evitar que o motorista tenha por onde desviar.

Então eu me pergunto, afinal, caso aconteça de interditarem toda a pista, como agir? Simplesmente passa por cima? Nem adianta responder a esse pergunta, percebi que só temos como saber nossa reação na hora “H”, aliás, nem somos nós que de fato reagimos, são nossos instintos, mas só de pensar já gela a minha espinha!

Se nos deixarmos levar pelo medo das situações que estamos vendo esses últimos dias, não saímos mais de casa, o que acabou sendo minha vontade por um tempo. O caminho parece ser um só, contar com a sorte para aqueles que não têm muita fé, ou uma boa prece pedindo proteção para aqueles que têm. E o pior é pensar que, como diz um colega de trabalho, nesses dias que já estão difíceis para quem acredita em Deus, ainda tem gente invocando o diabo com a caneta, vai entender... 


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Um comentário:

Irislene Santos disse...

Não dá para confiar, tudo está muito perigoso!