quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

UMA CARTA >> Carla Dias >>


Meu amigo,

Tarde quente nessa cidade que cata cinzas dessa quarta-feira. Fantasias no guarda-roupa da alma, colhendo pó de anteontem, um relicário de mazelas e belezas. E eu espiando as coisas de ser aqui desse canto, as extremidades da aurora sambando as canções de amor e dor de Alice Cooper. O rock batucado nos tamborins sedutores de sentidos, depois descansando no corpo das alfaias.

E então, o silêncio faz falta.

A noite que se despediu teve de mim a companhia dos olhos arregalados. Aproveitaram o carnaval para arrumarem as calçadas, entupirem o estoque, pilharem comilança. Então, o supermercado em frente recebeu caminhões barulhentos nas madrugadas silentes de feriado prolongado, caprichando em seu samba enredo na noite de ontem. E eles gritaram até: os caminhões e os moços entregadores. Enquanto isso, meu sono se perdeu de vez de mim, exausto com a festança das noites anteriores: caminhões, gritaria e falta de respeito para com aqueles que usam as noites para dormir.

Poderia colocar a culpa da minha distração de hoje no fato de não ter pregado os olhos, da cabeça doendo o barulho todo, mas não... Falta-me a coragem para construir um equívoco. O que me tira de hoje, meu amigo, vem de antes das clarabóias enfeitadas com coloridos lenços, promovendo a dança da nuança, os tons e semitons, dégradé. Vem de antes das madrugadas à mercê da sinfonia do ronco dos motores. E até mesmo de antes dessa que visto hoje.

Distraio-me com a intemperança da saudade do que jamais toquei, sorvi, provei. E de saudade eu me resvalo na cortesia das lembranças inventadas.

Inventada, aprecio quem se achega e me oferece o bálsamo da boa conversa, a fiada e a afiada, premissa das profundas, de quando dizemos levezas até tocarmos o ponto nevrálgico, onde tudo dói para que, depois do dito e do sentido, desmistifiquem-se as dolências, restando o perfume: bálsamo. E nas trincheiras dessa profundeza destoante sejam paridas as conversas sobre o amor das compreensões.

Sei que dirá que sou das que misturam o amor com as revoluções, até na vida inventada. Mas também sei que o amor é pai e mãe das revoluções, pois assopra paixões na alma da gente. Das românticas e das libertárias.

Acomodo-me nessa tarde quente, vestindo a capa da funcionária nada exemplar, que faz mil e sei lá tantas coisas ao mesmo tempo, resolve problemas, decide questões, mas ainda assim se sente pequena demais diante da grandiosidade dos feitos. Na hora da cria, de parir presente nessa realidade que unge o tempo, não me sinto autora, mas uma espectadora distraída.

Mas sabe no que mais penso, nesse momento, meu amigo? Na ostra e no vento, e nas superfícies sem fim para se correr de todos e ser pego por si no bemol da felicidade. E na multidão de marionetes recebendo, das mãos da vida ao vivo, a alforria.

E girassóis... Sempre penso em girassóis.



Cuide-se bem... Daquele bem de benquerença e cuidado. Porque, meu amigo, a gente às vezes se esquece em cada canto de nós mesmos...

Carla.


PS.:


"A ostra e o vento" © Chico Buarque



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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que primor, Carla! Eu até ia dizer que sou suspeito porque adoro cartas, mas não basta ser carta para ser bonita como essa.

Ana disse...

Que bonito, Carla!

albir disse...

É isso: que bonito, Carla!
E que seus incômodos sempre virem arte!

Carmen Novo disse...

Linda, linda carta, Carlinha. Um beijo deste frio com silêncio para te refrescar (só um pouco) do verão dos trópicos. Carmen

Kléber disse...

oi, Carlinha
que carta linda, moça idem!!!

Carla Dias disse...

Eduardo... Também adoro cartas, de recebê-las e enviá-las... De escrevê-las, então! Acho que elas nos fazem abrir o coração de um jeito diferente. Não é conversa, nem confissão, é apenas o coração falando. Ao menos as bonitas são assim : )

Ana... Bonito é tê-la por aqui! Obrigada pela leitura.

Albir... Pode deixar que meus incômodos estarão sempre disponíveis para a criação artística.

Carmen... Este beijo, minha amiga, me fez desejar com mais gosto ainda o frio dos cantos desse mundo onde ainda não coloquei os pés. Beijo outro pra você!

Kléber... Como destinatário de algumas das minhas cartas-virtuais-desvairadas e girassóis na janela, fico feliz em tê-lo por aqui. Volte sempre!