quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A ENTREVISTA >> Kika Coutinho

Juro que achei que fosse fácil. Com essa coisa de crise, recessão, quem é que não ia querer ser babá? Ainda mais assim, de uma bebezinha tão linda quanto a minha, oras.

Pois bem. Armei-me com alguns telefones e iniciei a minha peregrinação:

— Alô? Oi Socorro, tudo bem?, meu nome é Ana, estou procurando uma babá.

— Ah, pois não, estou mesmo procurando emprego.

— Vamos marcar uma entrevista? Moro aqui, do lado da praça.

— Claro...

A moça chegou. Simpática, jeito bom, esperta. Quando entramos no terreno de salário, tomo um susto. “Quanto?”, pergunto. Ela confirma... Opa... Como é que eu posso dizer a ela que também quero esse emprego?

— Se você achar uma vaga, pode perguntar se tem duas?

— Como? — ela não entendeu. Nem era tão esperta assim, consolo-me, enquanto a acompanho até o elevador.

A cena se repete algumas vezes, até que mudo a minha abordagem no telefone:

— Alô? Você quer ser babá?

— Quero sim.

— Quer ganhar quanto?

Bom, quando a resposta era satisfatória, eu passava para entrevista pessoal. Nem sempre a resposta é clara. Conceição, diz apenas:

— Depende..

— Ai, ai, ai, depende do que, mulé?

— Ah, é melhor a gente conversar pessoalmente, eu vou ver como você me trata e ai a gente decide isso. – Opa, gostei dela.

— Claro, claro. Quando você pode vir aqui?

— Onde você mora?

— Perto da praça.

— Ah, o local é bom pra mim... Posso ir amanhã às 14, mas você... Ai, te chamo de “você” ou “senhora”?

— Humm, pode me chamar de “você” mesmo.

— Por que você é jovem, é? Posso perguntar a sua idade?

— Claro, tenho 31.

— Ah, e a neném?

— Ela tem 2 meses – estava começando a me sentir incomodada. Quem devia fazer perguntas não era eu?

— Nossa, idade boa, eu gosto de cuidar de bebês...

— Sei... — eu já estava esperando a próxima pergunta.

— E é só você e seu marido?

— É sim – respondi, me ajeitando na cadeira.

— Que bom! E vocês dois são de São Paulo mesmo? — gente, ela é quem estava me entrevistando!

— É somos de São Paulo, sim. – agora eu estava preocupada em dar as respostas certas.

— Hum, eu sou do Pernambuco – a moça tentando fingir que ela era a entrevistada.

— Ah, que bom – eu estava puxando o saco dela?

— Ah, então tá... Daí eu vou aí e já conheço vocês, né? Tem outra moça trabalhando na casa, tem?

— Tem, sim.

— Hum – ai, ela não gostou, eu devia ter dito que não.

— Mas ela é muito boazinha, viu? — tentei consertar.

— Tá certo, então, vou aí as 14, né?

— A hora que você quiser — eu estava quase implorando. O que era aquilo?

Antes de desligar, tive o ímpeto de dizer que estava muito animada com a possibilidade de trabalhar com ela. Ainda bem que não disse. E ainda bem que ela não apareceu. Mais uma entrevista na qual fui rejeitada.

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Kika, a crônica será sua vingança. :)

Debora Bottcher disse...

Ai, ai, ai... Essa fase é terrível... Valha-me... Se quiser que eu veja com as noras alguma indicação, me escreve, bonita.
Beijo enorme no seu cansaço de Mãe. :)

Anônimo disse...

(oi kika esse cronica da entrevista e otima gostei ta nota 10,00 beijos xal...)