domingo, 14 de fevereiro de 2010

MINHA FOLIA >> Eduardo Loureiro Jr.


Parece que é Carnaval. Não estou de todo certo, mas ouvi falar. Em algum lugar, longe da minha vista e de meus ouvidos, deve haver foliões mais ou menos embriagados. Alguns, a essa hora da manhã, devem estar curando a ressaca com mais bebida. Em Aracati, estão todos na praia de Majorlândia. Em Olinda, subindo ou descendo ladeira atrás de um bloco de nome estranho.

Se eu não tivesse outro motivo para desgostar do Carnaval, bastaria uma foto antiga de um menino gordo vestido de pirata: chapéu, tapa-olho, cara de poucos amigos, colete, banhas e calça. Ainda existe gente que tem saudades da infância...

Aqui em Brasília, se alguém quiser, suponho que seja possível "brincar" o Carnaval. Você tem que ir atrás, não é como em outros lugares em que a "brincadeira" vem até você — lembrando sua outra denominação: entrudo. Podem falar o que quiser de Brasília, mas aqui, mesmo nesses dias, se liga o rádio e se ouve música, Música.

Sei que estou bancando o chato, que melhor seria bancar o folião, mas minha folia, minha loucura (Comprenez vous?) é outra. Também tem bloco, também tem canção, também tem fantasia, mas minha folia é outra. Minha loucura é pensar que posso ser tudo que quero ser. E sou pirata e pierrô e arlequim. Não me travisto de mulher, porque mulher já sou. Me embriago de água da torneira até arrotar. Abro a tampa verde do frasco que fica sobre a pia, com água do mar, e mergulho, dou cambalhota, pego carretilha.

Que são cinco dias de loucura? Depois do Carnaval, todo mundo volta para a sua sanidade e eu ainda tenho mais trezentos e sessenta dias para pirar. Todo dia, bêbado desse mundo, penso loucamente que esse mundo é tudo. Não é. Esse mundo é todo fantasia, todo cenário, carnaval que só a morte de cinzas pode acabar.

Sim, minha loucura é viver em outro mundo que não esse, ser outra pessoa que não essa, escrever outra coisa que não aquela que eu mesmo escreveria. Minha folia é não ser eu mesmo, sem artifícios: mascarado sem máscara, embriagado sem álcool, travestido sem roupa. Sendo o que não sou: elevador de santo — tanto baixa quanto sobe.

Carnaval é matinée, é vesperal. Na festa que vale, noturna e diuturna, dou baile, dou balão. Dou banho de cuia quando o assunto é ser outra pessoa, outro Pessoa.

"— Quem é você?"

Não vou dizer. Adivinhe se gosta de mim.



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6 comentários:

Felipe disse...

Olinda fervendo, Recife borbulhando e aqui tudo congelado. -7ºC e 7000 km de distância.

Vou comer neve de colher, que é o melhor que eu faço. Assim faço de conta que estou tomando um raspa-raspa nas ladeiras de Olinda. Sem álcool, claro, como em todos os carnavais da minha vida. Que nunca foram menos bons por causa disso. ;)

À bientôt, mon ami!

Cláudia disse...

Eduardo, o carnaval é democrático! O importante é a folia, seja ela onde for e como for. Confetes e serpentinas para você!

Fabio Barros disse...

Se São Paulo é o túmulo do samba, Brasília é o túmulo do Carnaval. Assim, você está no lugar certo... hehehe

Ah! Encontrei Adriana hoje a tarde em Olinda! :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Felipe, você poderia criar um bloco com um nome bem greante por aí no Canadá. A situação merece. :)

Claudia, você acertou: confete e serpentina são a parte mais simpática do Carnaval para mim. :)

Fábio, minha lápide aqui tá uma delícia. :)

Kinha disse...

Ah....carnaval....

Cinco dias de descanso e silêncio completo...ou deveria ser...porque eu estou trabalhando...risos

Estou pensando se me dispo de minha fantasia de "doutora"...risos

Abraço grande

Kika disse...

Me identifiquei totalmente.
Não aguento mais as peladas pulando na avenida.
Devia ter 4 dias de silêncio e paz, pra comepnsar essa barulheira, não?
beijos, excelente crônica!