segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

FANTASIA >> Albir José da Silva

Tudo planejado há uma semana. A cabeça trabalhou rápido quando ouviu que poderia ajudar na obra e receber o dinheiro na sexta-feira: uma roupa nova - que nem precisava ser nova – da feirinha da igreja, uma sandália branca, um chapéu de palhinha e um cordão dourado que viu na feira por oito reais. E um dinheirinho no bolso até quarta-feira pra cerveja, o angu à baiana e um churrasquinho, se alguma mulher valesse a presença.

Acordou cedo, sentindo a agitação do carnaval, mas ficou triste ao lembrar do bolso quase vazio, apenas uns trocados que sobraram do almoço da semana. Trabalhou duro, mesmo com a perna doente, e agora o dono do trabalho desapareceu.

Desceu até o Largo do Estácio e, de passagem, perguntou ao Pernambuco pelo patrão desaparecido. O outro gritou com ele que também era empregado e não sabia de nada. Quitério teve certeza de que o Paraíba embolsara seu dinheiro.

Passou no boteco. Antes o português gostava dele. Nos bons tempos pegava fiado e pagava direitinho. Depois que ficou na pior nem pode mais entrar no estabelecimento. Não chegou a completar o pedido. “Suma daqui, ó filhote de assombração...” gritou o ex-amigo.

Foi andando pela Mém de Sá e dobrou pra Tiradentes. Mancava por conta do atropelamento recente e do gesso que tirou com uma semana porque o pé estava ficando roxo. No Largo de São Francisco sua bexiga doía de cheia. Encostou na parede da Faculdade, como faziam muitos outros foliões, fechou os olhos e abriu a calça.

Sentiu a borrachada que o jogou no chão. Saiu de lado, ainda sem levantar e ouviu o PM: - Agora tem lei anti-mijo, se fizer de novo vai em cana. Os outros, que estavam no muro, também se afastaram, mas ninguém apanhou. Só ele. Sentiu a ardência no braço e nas costelas e viu o vergão que se levantou. Uma lágrima de ódio escorreu e ficou secando no rosto preto de poeira.

Atravessou a Rio Branco e notou que estava faltando um chinelo. O asfalto derretido agarrava-se à sola do pé. Sentiu sede, gostaria de uma cerveja, mas isso lhe custaria quase todo o dinheiro. Pediu uma caninha da roça, de cinqüenta centavos, num copinho plástico de café. Reclamou alto que estava “batizada”, que era água pura, e levou um empurrão do mulato de olho vermelho.

Já na Cinelândia, olhou no espelho do Banco e viu sangue que descia pelo pescoço. Com certeza bateu a cabeça quando foi “esculachado” pelo PM. Não podia andar por aí assim. No chão, viu um chapéu-cone que alguém abandonou. Ajeitou como pôde o cabelo branco, ralo e sujo. O bico caiu de lado escondendo o pescoço com o sangue já seco. A lágrima na poeira do rosto parecia maquiagem. E ele achou bom. Um pierrot. Nunca se vestira de pierrot. Não é que agora tinha uma fantasia!

O coração bateu acelerado e ele percebeu que era o ritmo da bateria do Cordão do Bola Preta. Quitério teve certeza que o seu carnaval começava. Apenas começava.

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6 comentários:

luis.vegan disse...

Muito boa a crônica, realmente gostei.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Isso é o que eu chamo de "reality carnaval", Albir. :) Mandou bem!

Ines Cozzo Olivares disse...

Triste. Muito triste, mas belíssima!

albir disse...

Obrigado, Luis, Edu e Inês.
Abraços

Andre disse...

essa é a poesia do carnaval
esse é o povo que o fazia, desde o principio....povo essencia.

triste, lindamente e paradoxalmente belo..

parabéns

albir disse...

Obrigado, André, volte sempre!
Um abraço.