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DEPOIS É QUE É >> Eduardo Loureiro Jr.

"O bom macarrão não precisa ser ruim para quem lava a panela."
(Albir José da Silva)


O que me chamou a atenção pela primeira vez foi um simples — e até saboroso — macarrão.

Eu estava passando um final de semana com uns dez colegas de escola numa casa de praia. Tinha 17 anos e não sabia cozinhar um ovo. Propuseram que eu lavasse panelas e pratos. Achei justo. Eu só não esperava que o fundo da panela de macarrão viesse com uma crosta queimada de aproximadamente um dedo de espessura. Nos longos minutos daquela minha lavagem, eu decidi que aprenderia a cozinhar e que deixaria trabalhosos fundos de panela para os outros lavarem. Mas, passada a raiva, desisti da vingança e apenas coloquei em minha cabeça que sempre comeria, cozinharia ou faria qualquer outra coisa  pensando no trabalho que aquilo daria não apenas durante, mas também depois.

Foi numa salinha do Theatro José de Alencar que aprendi que havia um nome para aquilo: pós-produção. Foi dez anos depois do episódio do macarrão, e eu já nem me lembrava mais do meu propósito de pensar sempre no depois. Eu era um jovem sonhador, fazendo "quatrocentos mil projetos que jamais são alcançados". Eu queria fazer coisas — que quase nunca davam certo — e tinha que me preocupar, antes de mais nada, em viabilizar minhas ideias. O que fazer com o resultado delas ainda não era uma questão para mim. Mas quando a professora explicou o que era pós-produção, me voltou tudo à mente: todo o depois.

Os ditados populares sabem das coisas: "quem não pode com o pote não pegue na rodilha", "ajoelhou tem que rezar". O depois vem cobrar seu preço, não há nada sem consequencias.Sonhar e realizar é maravilhoso, mas depois é que é...

Tem também uma historinha zen em que o discípulo, ao final do jantar, pergunta ao mestre o que fazer para atingir a iluminação. O mestre pergunta: "Já terminou de comer?" O discípulo diz que sim. E o mestre complementa: "Então vá lavar o prato". Uma irônica bordoada de pós-produção.

Foi então que decidi ter uma vida simples — por vezes saborosa. Passei a evitar qualquer coisa que desse mais trabalho depois do que antes ou durante. Isso incluía crostas em panelas, manchas no chão e nos lençóis, imprevistos de viagens, juros de empréstimos, desvarios em paixões e qualquer coisa que terminasse com aquela frase batida do grilo falante interior: "Agora aguente".

Com o tempo, meu grilo falante se converteu, ele mesmo, num monge budista em votos de silêncio. Não lhe dou mais motivos para tagarelar, afinal "é melhor prevenir do que remediar". Ando leve, minha pisada quase sem rastros. Não entro de chinelas no banheiro para não misturar pó com água e ter de lavar o chão mais de uma vez por semana. Faço ovos cozidos para não enfrentar a gordura de uma frigideira. Guardo palavras ferozes e amargas para depois não ter de me arrepender e pedir desculpas por as haver dito.

Sei que tudo isso talvez esteja muito errado, que o certo talvez seja lambuzar-se, sujar-se, errar, ferir. Que o medo do depois pode anular o antes e, principalmente, o agora. Que temos mesmo é de lidar com nossas crostas, enfrentando-as com valentia. Que a tentativa de manter-se a salvo só pode resultar em isolamento, em manias, em idiossincrasias, numa pálida imagem das grandes potencialidades do ser humano. Pode ser, pode ser...

Pode ser que essa paz que eu desejo e busco, esse sabor que eu provo nas pequenas coisas simples, limpas e sem novidade, essa leveza que eu carrego sem que me pese coisa alguma, pode ser que tudo isso seja ilusão e que a realidade seja mesmo essa coisa atroz, voraz, de gritos, de luta, de estresse e de cansaço.

Confesso ser incapaz de ser outra coisa nesse momento. Sou escravo de pensar que aquilo que eu sujo eu devo estar preparado para lavar, que aquilo que escolho devo estar preparado para aguentar, que aquilo que digo devo estar preparado para assumir, e que, se outra pessoa o faz por mim, trata-se de uma delicadeza, de uma gentileza, que eu jamais deveria tomar por outra coisa que não circunstancial, temporária, algo a ser agradecido mas não repetido, muito menos esperado.

Hoje sei fazer meu próprio macarrão, até para duas ou três pessoas. E se alguém, agradecido, se oferecer para lavar a panela, resolverá tudo em dois ou três minutos sem esforço. Sei que é pouco, quase nada. Que há gente por aí fazendo coisas mais dignas e importantes: salvando vidas, construindo prédios. Que minha vida direcionada a um depois de baixo impacto é uma brincadeira de criança diante das questões dramáticas da humanidade. Não sou daqueles que vão se meter em destroços de inundações, terremotos e epidemias. Não sou o herói, não sou nem mesmo o homem, o humano.

Vida pequena é a minha. Vida de quem não mais acumula, mas se desfaz. Vida de quem vai chegando ao fim do ciclo e sabe que o resultado tem que ser zero, que não deve haver saldo, positivo ou negativo. Vida de quem pouco sonha porque pouco dorme. Vida de velho quase bebê. Vida sem dívida para pagar depois.

Comentários

Ana Lucia disse…
Um dedo de espessura de crosta queimada de macarrão?????? credo! E ainda estava bom!

hehe! Também penso 500 mil vezes nas consequências antes de fazer qualquer coisa. Mas isso depois de tanto ouvir da minha mãe que eu sou muito impulsiva!
albir disse…
Sem grandes heroísmos, mas apostando na convivência. O bom macarrão não precisa ser ruim pra quem lava a panela. Parabéns pela crônica.
Hebinha disse…
Muitas vezes procuro o simples, para não complicar minha vida. Acho até que aprendi um pouco disso com a minha mãe.
Nada de muito trabalho, nem de complicação, nem antes, nem durante, nem depois. Não é toda vez que consigo, mas muitas vezes procuro esse conforto.
Acho que a realidade é “mesmo essa coisa atroz, voraz, de gritos, de luta, de estresse e de cansaço”, mas não é isso que quero pra mim, não. Mesmo às vezes querendo e sentindo saudades de emoções mais fortes, na maioria das vezes prefiro a utopia, a calmaria, a poesia, a música.
E ainda bem que você parece que não pensa muito no depois dessas coisas que você faz e nos presenteia, escrevendo e cantando.
Vida grande essa sua! Especialmente por não acumular, por se distribuir, assim.
Beijo, Hebinha.
Cláudia disse…
Eduardo, o melhor de tudo é refletir, por mais simples que sejam nossos atos, e perceber que todos eles têm consequencias. Se bem pesados, sempre ganhamos, nós e os outros. Nós ganhamos muito com sua crônica!
Carla Dias disse…
Boa essa viagem com as suas palavras... Sabe que sempre achei mais digno, em muitas situações, a brandura, a leveza que se apossou de você. Também creio que deve existir aquele universo chamado equilíbrio, onde a gente pode estar um pouco de cada, mesmo que às vezes ultrapassemos limites com esse pouco. Gente é bicho esquisito mesmo... É bicho preguiça, é o caçador, o contemplador.
Ana Lúcia e Hebinha, curioso vocês se referirem às mães... Esqueci de mencionar na crônica que aprendi com minha mãe uma coisa muito importante: como colocar a louça na pia de modo a facilitar o trabalho de quem vai lavar. :)

Albir, "o bom macarrão não precisa ser ruim para quem lava a panela". Que frase! Incluí na crônica. :)

Que bom que foi ganha-ganha, Cláudia. :)

Pois é, Carla, temos de brincar de bêbado equilibrista. :)

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