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TEMPO [Debora Bottcher]

Chegar aos setenta anos e olhar para trás. Saber: finalmente, tudo passou e o que resta tem sabor de espera... A espera sombria da Morte... O silêncio...

Tons de cinza mesclando o azul dos seus olhos, um emaranhado de vida esquecida... Rugas... A pele marcada nunca será como a alma... Lá, as cicatrizes ainda rasgam-se escorrendo amarguras... Muitas saudades...

Um amontoado de anos perdidos, sobrepostos, amassados e jogados ao chão... Imenso cansaço...

Perdas... Tantas, que perderam-se de si; tantas dores que o coração cessou de bater; tantos sonhos dispersos que, muito cedo, se parou de sonhar: todas as emoções foram ancoradas em folhas de papel, um sem número de Diários descansam agora nas caixas do sótão... Segredos... Algum dia serão revelados? Quem terá tamanha curiosidade para desvendar centenas de páginas com letras incompreensíveis de ler? E de entender...

Quem conseguirá descobrir nos ideogramas rabiscados o interior de uma mulher que por todos os seus anos viveu encerrada num mundo à parte, num lugar próprio, cenário criado por sua ausência de esperança e de compreensão da vida ao redor?

Ela não teve filhos e o Destino nas linhas de suas mãos não tinham muitos traços de caminhos felizes.

Seus dedos tatearam no escuro, escalaram paredes de pedras, arderam entre as areias das praias, mas não tocaram os céus. O rosto de Deus era sua loucura, seu devaneio, sua grande ilusão... Uma mentira...

As considerações de vida das pessoas que conheceu e amou, nunca foram as suas... Sentiu-se sozinha por muito tempo, por todo tempo imersa no “para sempre” à beira de um “nunca mais”... Fantasias...

Assim viveu...

Nunca conseguiu expressar o que lhe ia por dentro. Todo mundo sabia mais do que ela sobre tudo, menos sobre o que realmente importava. E sobre ela, na verdade, ninguém nunca soube nada.

Do alto de si mesma olhava para o mundo sem nenhum encantamento, exceto aquele próprio dos que conhecem a verdade que está por trás do que se mostra. Poucos enxergam...

Mas agora a velhice ao seu encalço. Sua solidão lhe fazendo companhia. Os dias se apagando nos segundos do relógio de parede... Os minutos, as horas... Amanhecer e anoitecer no fim...

Criança de novo, imersa na inocência cheia de sonhos que nunca encontrará. Os pesadelos da noite esquecidos num canto do quarto, ela mesma sentada num canto do quarto olhando para aquela que, no escuro, só entrevê sombras.

E se despede... Dos seus fantasmas, da sua dor, do seu passado... Se despede do único homem que amou – e o único pelo qual foi verdadeiramente amada - para em breve reencontrá-lo... Se despede da Morte, sua maior inimiga, para ser acolhida por ela, calma e tranquila, todos os medos enterrados nos anos que se esgotam...

Agora, tudo se acaba para de novo começar...

Comentários

Bonito, Debora! E tem um trechinho que vai ser tema de minha próxima crônica. :)
Carla Dias disse…
Partir - da vida da gente e da vida do outro - é um tema dolente mesmo. Ainda assim, requer bons olhos ao vislumbre, porque uma vida, por mais difícil que tenha sido, ainda é vida. E sim... Eu acredito que a gente acaba para de novo começar. Beijos!

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