sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

DA JANELA DO TREM, COM LENÇO NA MÃO >> Leonardo Marona

Um ano não conclui nada: a ficha cai num segundo. Estamos no ano de 2010, e o que falam para mim de mais importante é: “Acabou a época da loucura, agora começa o milênio” – acho isso patético, porque meu desespero continua antigo. Forneço “esticas” na mesa do bar: é claro que eu sei de menos. Mas quero voltar ao assunto, ao rock que ainda vive, independente de mim, ele está à beira-mar. Estamos todos ali, nos dando adeus para sempre.

Amo aquilo de que padeço: eis a grave questão: acredito ainda no heroísmo inseguro. Obviamente já falaram sobre isso melhor do que eu, mas será que todos esses gênios, ao colocarem o corpo junto ao corpo furtivo, à droga inesperada no auge da boca, na gengiva mais tênue, no fluxo fixo do sangue, entrando nos banheiros minúsculos para fazer filhos fisicamente desejáveis, mas não desejáveis porque acabou o comunismo real, será que estaríamos, neste ponto específico, realmente tão longe dos nossos desejos, tão longe quanto, diríamos assim, dos nossos próprios corpos?

Não, agora paguei dez reais, sinto o desejo pulsar, direi o que quiser. Estou no meio do calor, com as virilhas solitárias, obviamente elas estão carentes, do contrário não estaria aqui, errando as palavras. E alguém muito próximo poderia dizer: “Você usa sempre as mesmas palavras, virilhas, secreções, as mesmas dobras e a mesma umidade que existe, indiscriminável, entre as coxas”. Sou mais um cara à beira do cadafalso, levando isso a sério, eis outra palavra ensinada por Piva, o diretor dos covardes.

Te odeio, Roberto Piva, quero que você morra. Sei que não tens planos para sua própria saúde, foi isso o que você planejou, fora a beleza absoluta que azucrina os nervos, e por isso em volta de ti os outros, “bem vividos sem ópio”, se lançam em chamas, em matéria de jornal, em venda de peixe, favorecendo você: O QUE NUNCA QUIS. Mistério louco esse de nunca se querer, e no fim querer tudo, quando se está, por fim, quase seguro, quase evangélico, numa cama, e não se pode – um assim – mais nada, e no entanto sente-se o gosto. Portanto, Piva, meu caro, você sabe que isso não vale nada, não vale nem mesmo o minimizar dos toques nas teclas, cada vez mais milho prestes à compaixão perene. Essa compaixão não é nobre, parece vulgar inclusive, se alguém der alguma atenção a ela, mas ela não é baile funk, ocupação civilizada.

Não é algo esse pressuposto do suicida sem talento, que no fim fala alto demais e espera, como o cachorro magro, valente por algo pelo qual um deva morrer, sem osso ou lance de sorte. Devo morrer por outros motivos, por isso estou aqui, como um drogado que sobrou na festa mais antiga, a mais esperada, a que acabou. Falo aqui do motivo pelo desejo de morte, a carne mais mundana (não digo “desejo da morte”, seria leviano assim, com artifícios literários de atenção). Gostaria de, no fundo, falar a sério “sobre”, “com” o problema. Eu vejo as pessoas, ainda assim. Vejo e, normalmente, finjo, digo “não gosto das pessoas”, mas é importante que, na verdade, e não sei bem por que se usa essa expressão tão idiota, “na verdade”, gosto tanto delas, das pessoas, que sou capaz de me amputar por qualquer uma. Não posso com o cigarro, fumo fazendo careta porque filhos se tornaram orçamentos. Será que tudo isso, inevitavelmente, não leva ao caos?

Escrevo sem parar, termino em vírgulas, interrogações, tenho amigos inteligentes, o que farei da minha vida? Estou aqui, torto na cadeira de quem amo, é o que sei, e isso é tão pouco. Vê-se a pessoa a que se ama deitada praticamente babando e seria de gosto dizer tantas coisas a essa pessoa. Tantas coisas com exclamação. Mas não se diz nada, baba-se, somos civilizados, disfarçamos, damos um jeito. Engraçado, existe todo tipo de geração codificada. A minha, eu diria, “dá um jeito”. Isso é triste, faz compreender. O que faz compreender é triste, aprende-se rápido. Espero não ser um sujeito obsessor, dos que despertam sorrisos e matam. Faço todo o esforço para ser exatamente assim, mas acho na contrariedade a única filosofia, e a isso, de modo medíocre, me apego. Estou sempre às voltas com alguma coisa, está aí o pretexto incorrigível, a cura ridícula, inescapável, que me faz sorrir, encantadora. Seria capaz de, diante de deus, ser um brocha inveterado, sexual do tipo “pau pequeno”, mas nunca diante de quem amo, como você – agora pela primeira vez falo “você”, com todo o medo do mundo, e não é pouco, admito, o medo que sentimos. E falo “sentimos”, porque sei que cada um sente do seu jeito e, na melhor das hipóteses, estarei fazendo amigos em desespero, como aquela última hipótese viável, farei amigos para me sentir bem, e farei bem isso, serei o que dá um tapinha no braço e diz: “Acho que já foi o suficiente, vamos embora”, bem assim mesmo, exato como assim, para sempre falando sobre como proceder, o medo tomando as veias em asma, sendo elas (as pessoas) indo, ou nunca sendo, e ela (a asma) nunca falhando, e isso tudo, infelizmente, é o que menos importa.

Importa apenas o quanto um se emociona, é nisso que se acaba o chão, é nisso que fazemos asneiras, ouvimos suspiros convincentes, nos enganos, e isso é tão bom. Perder a capacidade de se enganar é perder a ideologia, e é disso que, por incrível que pareça, se vive, dessa perda, e nada mais. Não me considero, no que me diz respeito, um sujeito sem ideologia. Sou relativamente honesto. Tenho inclusive um apartamento, em Porto Alegre, lugar que engana pelo nome, pela aparente facilidade da alegria, coisa comum. O apartamento foi bem avaliado, venderei-o bem. Tenho medo, no entanto, de quão pouco isso me importa, e não sou burro, mas sinto que me faltam arestas, maneiras como me fazer entender, sinto falta de alguém que ature os meus vacilos, como criança, que já não sou mais, mas sou – e disso me envergonho: não sou um fanfarrão.

Eis o momento de dizer a verdade, se chegou – pretensão minha – alguém até aqui. Agora ajeitarei a coluna no escuro e não terei mais medo, serei apenas um cavaleiro pago, em busca da távola redonda que, de fato, pouco importa – mais importante é a armadura que se pode usar, ou a escuridão dos termos. Organizarei, depois de lamber, prometo, minhas feridas, de modo que pareça tudo necessário para alguém. Quero, no fim, alcançar a importância das coisas sem importância: aí está a caridade negada, aí estão os gritos de amor, assim te amo.

Agora, continuarei com as minhas anotações. Digo, se Einstein se dava a devida importância, isso, ele sabe, deveria servir até mesmo a um boçal. É só isso que mata as pessoas: agora fico um pouco mais velho, e concluo. A vergonha de se dar ou não se dar a importância que se merece, ou não, mas se dar, isso mesmo, os que se dão indicam as setas que, nunca se sabe, talvez sejam as últimas. Por isso não negar nada. Nem mesmo a falha do companheiro que, se vê, não é mais o companheiro de que se fala, mas cada um tem a sua loucura, e tem o seu nível de gelo e derretimento, a depender da mentira que um impõe a si mesmo.

Voltando às notas, portanto, para terminar essa chatice, a que me atenho como o pai ausente de uma criança com asma. Estamos sempre às voltas com alguma coisa, isso mesmo, chamamos de coisa o que nos rege, alguma sensação de perigo gostosa que nos tira o fôlego e nos faz tombar de amor no meio da calçada, forjando o panico como os amorosos sem escrúpulos, os loucos a quem se diz, quando morrem: “Era um bom sujeito”. Mas no fim sobra sempre, e isso é algo importante de ser repetido, como fosse algo didático, sobra sempre algo, alguma noção exata, alguma noção calma e quase, me arriscarei, festiva, de que é preciso agarrar algo, por medo, pelo que fazemos do amor enquanto ele está intacto, enquanto ele nos dá adeus feito uma tia distante, das que dão sungas apertadas no natal e só rezam por culpa, enquanto choramos com todo o peso que não é nosso e é, no fim, só nosso, porque, se ninguém mais quiser, você vai ter que lidar com isso, de forma passiva, eu aposto, talvez transferindo coisas para lugares amenos, onde nos sentimos seguros, e assim destruiremos os lugares amenos e nos manteremos com esse algo, essa esfera imperfeita, essa insatisfação, é como chamam os católicos, mas não o suficiente da palavra “insatisfação”, muito mais um movimento cheio de sorrisos, pelo qual ficaremos, enfim, sós, como nos romances que nossas avós mortas nos ensinaram enquanto morriam enfiadas num banheiro fumando sua última enfisema pulmonar, enquanto gostaríamos de, no fim, dizer tantas coisas bonitas, mas é como se não pudéssemos, mesmo sabendo: esse é o jogo. Talvez cobrirá (ele, o jogo, ela, o algo) o calor da natureza como um chefe com úlcera, talvez dirá, um dia, a nós: “Meus queridos, olhem bem, não há porque sofrer tanto, vejam os gênios, o que, depois de um tempo, eles fazem por causa, só por causa da solidão”.

Mas isso tudo é só porque não precisamos chegar muito fundo para reconhecermos a completa falta de esperança: olhar ao redor arranca as cabeças. Mas agora, falando em cabeças, penso em ti, meu amor, naquela parte preciosa que te envergonha quando digo “meu amor”, veja que coisa mais complicada. E, na verdade, o nome “esperança” é falso. Somos apenas o que não somos, o resto jamais nos interessa, ao contrário, ser o que se é nos entedia, e somos verdadeiramente – e apenas aí – capazes de nos agarrar ao que não tem esperança alguma, do contrário seríamos fariseus, empresários, sofistas empanados, e disso resultam os saudáveis momentos de desespero e dissipação dos quais faremos um castelo frágil que impressionaria apenas um antagonista de Kafka, porque no fundo sabemos o que dizem os ternos e a polidez, mas o que importa é que só então estaremos vivos, viçosos mas vivos, e você (agora falo em você pela segunda vez) vai voltar, você falará para a minha pele “saudades de ti”, e que pobre pele cheia de dores será essa que te acolherá até o nojo, de olhos abertos, sem frouxidão? – se não será essa mesma, que ouve música baixinho enquanto tenta escrever algo a sério, mesmo mordendo a boca, porque a boca que mordo agora é a minha e, triste conclusão, morderemos todos nossas bocas como velhos diante do neto autocentrado, e no fundo esperamos – nossa única esperança – pelo que vai embora. O lenço cai sobre os trilhos a quinhentos por hora. E nos vemos assim: soltando fogos e abrindo os pulsos diante do trem sem volta.


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