sábado, 13 de fevereiro de 2010

DOS TIJOLOS [Monica Bonfim]

Alguém me contava, outro dia, um final de um filme — se não me engano dirigido pelo Mel Gibson — onde alguns índios numa praia não viam a aproximação das caravelas; o único que enxergava os navios era o pajé.

E lembro que em “Ilusões”, Bach faz seus personagens discutirem sobre isso: “Vivemos mesmo no mesmo mundo uns dos outros? É relevante para nós o que apavora os outros? Chegamos a enxergar a barata que deixa a outra apavorada? Vemos a loja que não está mais lá?”

Outro dia passei por uma construção que minha memória não registrou seu adiantamento: esse prédio já estava aí deste jeito anteontem quando eu passei? Tenho a teoria (não creio que seja original) que nossas dificuldades são muros que nos impedem de enxergar o óbvio; uma coisa assim, tipo antolhos de cavalos... Só nos deixam enxergar uma parte da realidade. Ou talvez essa dificuldade de enxergar algumas coisas seja uma forma de nossa mente se defender da quantidade de informações que podemos processar sem o reboot do sono: enche o RAM, tem que reiniciar, senão trava mesmo.

Mas, enfim, o cerne da conversa é: quanta coisa ficamos sem enxergar na nossa vida? Quanta coisa nos recusamos a enxergar até que as fichas começam a cair e acabamos por nos perguntar se tanta coisa ÓBVIA estava ali tão clara o tempo todo e como é que não tínhamos visto aquilo. O amigo que nunca foi tão amigo assim, o namorado que jamais foi fiel, o empregador que teimava em não reconhecer nossos méritos, as relações eternamente doentes que alimentamos diariamente... Tanta coisa que a gente empurrava para debaixo do tapete e criava justificativas, desculpas tão esfarrapadas, que hoje a gente pensa que não engoliríamos aquilo se alguém nos contasse.

Pior ainda são os defeitos claros e óbvios que a gente tem, que não tolera nos outros e que teimamos em não ver... Quantas vezes somos mesquinhos ou egoístas ou mesmo pouco generosos com os outros e conosco mesmos... Ai, ai...

Tantos muros que temos a derrubar para enxergar melhor a nós e à nossa vida, não? O problema são os tijolos... Os tijolos que voam na hora que resolvemos que vamos derrubar os muros... A gente sempre se machuca.

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Oi, Monica! Lembro de ver visto essa história do pajé no filme "Quem somos nós". Mas é assim mesmo como você escreveu, nossas cegueiras. O lado bom é que com o tempo a gente pode ir aprendendo a não fazer os muros e a nos poupar dos futuros tijolos voadores. :)

Kinha disse...

Risos..como sempre, grande Eduardo...tem razão....

Veja minha próxima que eu falo exatamene dessa evolução....

Beijo grande

Carla Cintia Conteiro disse...

Moniquinha,

Vc está arrebentando.
Mais um show de bola, esta crônica. Sabe quando estes muros ficam claros? Quando aprendemos uma palavra ou um conceito novo que, dali para frente, parece saltar na nossa frente a cada esquina que dobramos. Sempre esteve ali e não vimos? Quando meu filho estava sendo alfabetizado, tinha um CD-ROM chamado "O menino que aprendeu a ver". Era assim mesmo, a leitura permitiu que ele enxergasse um mundo todo novo. Continue mandando essas pérolas.