sábado, 27 de fevereiro de 2010

A PREGUIÇA DO BAMBU [Sandra Paes]

Domingo no parque. Tarde azul com vento frio nos envolve ao sair do carro. Eu, com os pés molhados dentro do tênis, depois de cair no lago de peixinhos. Simples assim. Piso na pedra da borda que balança e me joga dentro d’água. Mas como sou tipo gato, caio de pé. Até quando minhas “sete vidas” vão durar? Penso em silêncio diante das gargalhadas pela cena inesperada e, fatalmente, cômica.

Mas agora é outro momento. Rever os jardins japoneses, respirar ar puro, lembrar como é estar vivo de fato. Sim, porque os últimos acontecimentos no ano passado, por vezes, me tiraram o senso. Essa coisa boa que é simplesmente sentir, respirar e dar graças por poder fazê-lo e contemplar tudo à nossa volta.

No jardim japonês — um belo parque num bairro fundado por japoneses no século 17, aqui na Florida —, volto à casa. Lá tenho aquele gostinho de brincar outra vez como criança, imaginaçao solta a cada parada e a cada visão de árvore que parece especialmente plantada ali apenas pra realçar meu apetite de beleza e natureza.

De repente, uma parada súbita. Um certo grupo em torno de uma jovem, vestida pra festa, em seu delicado traje azul violeta e sua juventude pictórica refletida num rosto impressionista debaixo do chapéu que compunha seu traje de debutante. Paramos todos diante dos transeuntes.

A menina do chapéu lilás rouba nossa atenção por um momento e me transporto ao tempo dos pintores impressionistas lá em Paris, num dado picnic, talvez a sentir o mesmo que senti nesse instante. Quem sabe?

Continuamos a caminhar e eu, quase flutuando, me recordo do tempo em que nadava nos céus. Sim, porque céu azul como esse é para se nadar. Braçadas lentas, meneio de cabeça leve a contemplar lá do alto a paisagem difusa lá debaixo. Comento com minha amiga sobre essa visão quase desejo e ela sorri por assimilar o pensamento.

“— Quem sabe dia desses poderemos apenas pensar e as imagens e sons do que sonhamos sejam transportadas simplesmente para a mente do outro como num filme desses que a gente coloca com adendo nos nossos emails?” — esse seu comentário, comungando de meu sonho de nadar no céu azul, me deixa em regozijo.

No passeio de um jardim japonês tudo é válido e concreto. De repente, meio ao silêncio misto com sons de vozes ao redor, ouço um espreguiçar, desses que a gente experimenta quando deita na rede, à tarde, quase anoitecendo, depois de um almoço feito em fogão de lenha. O corpo pende lentamente e a rede lança um som de preguiça, dessas cheias de poesia e encanto: nhec, nham, nehc, nham...

Olho lentamente à busca do ser lânguido que ecoa novamente: — Nhec, nham, nehc, nahmmm... Quem será?

Ergo a cabeça em busca de um pássaro ou algo que seja. Quero saber quem, a essa hora da tarde, me deita tal preguiça. E ei-lo: magnifico, junto a seus companheiros, numa dança de rede de nordeste, a balançar. Um dos altivos bambus num grupo de uns seis ou sete, naquela touceira, a mostrar que também eles parecem sentir preguiça. Sorrio em sinal de cumplicidade e seguimos a caminhar.

Lembro-me das lições de ikebana, aprendidas há anos na Igreja da Rua Itabaiana. Aprender com as plantas, todas elas, a ler o vento, seus sinais e códigos, apreender com os galhos e seus movimentos o que a natureza fala naquele instante, e saber com delicadeza a nos comportar como eles em seus reinos magníficos. Os bambus nos revelam a resiliência e a flexibilidade. Em sua altivez, jamais perdem a humildade de saberem se curvar e mesmo diante de tantos desafios podem nos sussurrar, mesmo sem conhecerem Macunaíma: “— Ai, que preguiça!”

A natureza me refaz as conexões cerebrais. Reaviva a memória essencial e fala ao meu peito, agora manso, que amar e cultivar a amizade é do reino de minha riqueza íntima. Tão nobre quanto a beleza do jardim onde hoje pouso minhas pegadas e impressões, mesmo com os pés molhados e gostosamente fresquinhos.

Mais uns passos e chegamos diante da exuberância dos bonzais. Não resisto, e abraço com gosto uma das arvorezinhas. Ela me chamou, eu juro! E quando vou ver quem é... surpresa: uma jabuticabeira brasileira! Jamais pensei que pudesse haver uma jabuticabeira em forma de bonzai. E não deu pra evitar os tempos de menina a subir na árvore cheia de frutos e sentir a vida sem sabê-la.

E parece que é assim mesmo. Viver a vida exclui o saber. No momento em que se vive, apenas se registra, em todos os sentidos, o almagama de quem passa e experimenta. O resto são códigos dos homens em nome de se fazer históricos, cheios de selos e etiquetas.

Eu fico com a preguiça do bambú que ainda ecoa em mim seu sussurro sábio de altivez, resiliência e humildade: — Nhec, cnhec, nhammmmm...


Imagens: Jardim Japonês, Sushicam.com; Paz Interior, Artenara; Caminho de Bambu, Getty Images

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4 comentários:

Debora Bottcher disse...

Eu já falei que quando te leio, raras vezes não sinto vontade de chorar... Não é tristeza, é uma curiosa sensação de melancolia, inexplicável. E se assim não fosse, eu diria que tal emoção é quase boa.
Lindo texto, Sandra! Obrigada - por tudo. Beijo enorme.

Mariza disse...

Sandra querida,
Essa tua linda cronica exala o perfume bom daquelas horas de nossa infancia em que a nossa felicidade ainda nao se sabia. Ninguem como voce para fotografar a cena, e com arte adicionar os sons, as palavras, o sentimento.

albir disse...

Reconfortante, Sandra, acompanhar você nessa meditação.

Anônimo disse...

VIVER A VIDA EXCLUI O SABER.... AI QUE VONTADE DE PLAGIAR!!!!!
Como ultimamente e' mais isso que vale a pena do que tudo...mas por outro lado, como seria possivel sem voce e sua sapiencia, para tao bem nos dizer o que sentimos e talvez nem sentimos, o momento e' so'seu, mas ohhh que vontade de sentir tambem!!
Sou sua fan SEMPRE!
Cristina Alegre